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Saturday, September 19, 2026

Água da Lua seria suficiente para manter uma cidade? Estudo faz as contas

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Construir uma cidade na Lua exigiria resolver uma questão essencial para qualquer população permanente: o acesso à água. Um novo estudo calculou por quanto tempo as reservas existentes no satélite poderiam sustentar assentamentos humanos de diferentes tamanhos.

Mesmo considerando uma estimativa de 1 bilhão de toneladas de água, uma população de 1 milhão de habitantes consumiria esse recurso em menos de dois anos e meio se dependesse exclusivamente das reservas lunares.

Com sistemas capazes de reciclar 98% da água, taxa semelhante à alcançada pela Estação Espacial Internacional (ISS), o cenário mudaria. Ainda assim, uma cidade com 1 milhão de habitantes teria abastecimento para aproximadamente 100 anos.

Os cálculos foram realizados pelos astrofísicos Martin Elvis e Jonathan McDowell e publicados na revista científica Frontiers in Space Technologies. A pesquisa considera o consumo necessário para beber, higiene, produção de alimentos, fabricação de combustível para foguetes e obtenção de oxigênio.

Quanto tempo a água da Lua poderia sustentar uma cidade?

O tamanho da população altera drasticamente a duração estimada das reservas. Enquanto uma metrópole de 1 milhão de pessoas enfrentaria limitações em escala de décadas mesmo com reciclagem eficiente, assentamentos menores poderiam permanecer abastecidos durante períodos muito mais longos.

Uma cidade de cerca de 100 mil habitantes, por exemplo, poderia utilizar a água disponível por aproximadamente 1.000 anos, considerando o reaproveitamento do recurso.

Com apenas 10 mil moradores, a estimativa subiria para cerca de 10 mil anos. Nesse intervalo, segundo os pesquisadores, novas formas de abastecimento poderiam eventualmente ser desenvolvidas.

Uma possibilidade futura seria importar água de outras regiões do Sistema Solar, como o cinturão de asteroides ou luas de Saturno. Com a tecnologia atual, porém, transportar as quantidades necessárias para manter grandes populações seria difícil.

Por que é difícil saber quanta água existe na Lua?

Apesar dos cálculos, ainda existe grande incerteza sobre a quantidade de água disponível na Lua e, principalmente, sobre quanto desse recurso poderia ser efetivamente extraído.

Há indícios de concentrações maiores em crateras extremamente frias e permanentemente sombreadas. Em outras áreas do Polo Sul lunar, a água pode aparecer em pequenas quantidades misturada às rochas, tornando sua retirada muito mais complexa.

As oito maiores crateras da Lua conteriam, juntas, aproximadamente 34 milhões de toneladas de água, segundo as estimativas utilizadas pelos pesquisadores.

O ambiente também impõe obstáculos. O frio extremo e a ausência prolongada de luz dificultariam o trabalho de equipamentos e de seres humanos. Além disso, a água extraída não estaria necessariamente pronta para consumo e poderia exigir processos de tratamento para remover outras substâncias.

Agricultura seria um dos maiores desafios para viver na Lua

Entre as atividades analisadas, a produção de alimentos aparece como uma das principais responsáveis pelo consumo de água. O estudo utilizou uma estimativa do Banco Mundial segundo a qual a produção dos alimentos consumidos por uma pessoa em um dia pode exigir entre 2 mil e 5 mil litros de água.

A dieta adotada pelos moradores também teria impacto sobre essa demanda. Segundo os cálculos apresentados no estudo, produzir carne bovina exige cerca de seis vezes mais água do que produzir soja, enquanto a produção de frango requer aproximadamente o dobro.

Reduzir o consumo e aumentar a reciclagem seriam, portanto, fatores importantes para ampliar a duração das reservas disponíveis em um assentamento lunar.

Pequenas bases podem ser mais viáveis na Lua

Os resultados são diferentes quando o cenário envolve postos de pesquisa em vez de grandes cidades. Um assentamento com aproximadamente 1.000 habitantes, população comparável à que permanece na Antártida durante o inverno, poderia contar com as reservas lunares por um período muito maior.

Ian Crawford, professor de ciência planetária e astrobiologia da Birkbeck, Universidade de Londres, que não participou da pesquisa, considera provável que pequenos postos científicos sejam uma das principais formas de ocupação humana da Lua nas próximas décadas.

Para populações maiores e permanentes, entretanto, poderia ser necessário importar água ou hidrogênio, que poderia ser combinado ao oxigênio presente nas rochas lunares para produzir água.

Extração de água pode ameaçar registros preservados na Lua

O gelo lunar não representa apenas um recurso para futuras missões. Ele também possui valor científico porque se acumulou ao longo de bilhões de anos e preserva informações sobre a história do ambiente próximo à Terra.

Por isso, pesquisadores defendem que esses depósitos sejam estudados antes de uma exploração industrial em grande escala. A quantidade limitada de regiões com concentrações mais elevadas de água também pode aumentar a disputa pelos locais mais favoráveis à extração.

Os autores do estudo e pesquisadores que analisaram os resultados apontam, por isso, a necessidade de administrar cuidadosamente essas reservas. Uma eventual expansão de assentamentos humanos dependeria não apenas da tecnologia para encontrar e extrair água, mas também de como esse recurso lunar seria utilizado e preservado.

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