Primeiros namoros. Falar com o filho ou esperar que conte?

Apesar de a primeira relação sexual habitualmente só acontecer anos depois do início dos primeiros namoros, a psicóloga defende que as conversas sobre sexualidade devem ser “curtas e frequentes”, ao longo de toda a infância e adolescência, sendo ajustadas à idade. Na altura em que começam a namorar, faz sentido questionar o jovem sobre o que já sabe e as dúvidas que tem, mas podem e devem ser abordados temas como o consentimento, a violência no namoro e as relações abusivas, a contraceção e as infeções sexualmente transmissíveis, dando, sempre que possível, recursos concretos para que o adolescente saiba onde procurar informação fiável. “A ciência indica que crianças e jovens que têm acesso a educação sexual iniciam a vida sexual mais tarde e de forma mais responsável e consciente”, diz a especialista.
Com os primeiros namoros vêm também os primeiros desgostos amorosos, que podem ser muito intensos e esta é outra preocupação dos pais. “Embora o corpo do adolescente já tenha crescido muito, o córtex pré-frontal ainda se encontra em processo de maturação. Isto significa que, nesta etapa do neurodesenvolvimento, as emoções são vividas com uma intensidade genuinamente maior, e a capacidade de as regular ainda está em construção.”
Quando há zangas ou ruturas que fazem o adolescente sofrer, frases como “isso passa” podem fazê-lo sentir-se sozinho e incompreendido. A postura ideal nestas ocasiões passa, por um lado, por “validarem as emoções do seu filho”, disponibilizando-se para ouvir e conversar e, ao mesmo tempo, “estar atento e ajudar a ir mantendo as rotinas básicas, como o sono, a alimentação e as idas à escola.” Não é preciso apressar o jovem a “ultrapassar” o desgosto ou a concluir o luto amoroso antes de estar preparado.
Para equilibrar a segurança dos filhos com a sua autonomia, Sílvia Coutinho deixa algumas sugestões:
- Gerir a própria ansiedade: se a primeira reação for de pânico ou excesso de perguntas, o adolescente aprende rapidamente que partilhar poderá ter um determinado custo emocional e pode começar a filtrar aquilo que conta;
- De forma leve e não insistente, deixar clara a disponibilidade para conversar sobre o tema, dizendo, por exemplo: “Não precisas de contar nada se não quiseres, mas quero que saibas que estou aqui se quiseres falar”;
- Evitar a vigilância e o controlo da intimidade e privacidade dos filhos — por exemplo, ler as suas mensagens às escondidas ou segui-los nas redes sociais através de perfis falsos. Isso poderá comprometer a confiança e ser destrutivo para a relação;
- Definir os limites com base na segurança do jovem e não no seu controlo: saber com quem estão, onde estão e negociar o horário de regresso é diferente de exigir saber tudo sobre a vida do adolescente;
- Negociar as regras em vez de as impor: quando o adolescente participa na construção das normas, tende a cumpri-las melhor e há menos conflito;
- Conversar e estar atento a sinais de alerta de relações tóxicas e violência no namoro, como o isolamento progressivo em relação a amigos e família, o controlo sobre roupa, redes sociais, atividades ou tempo ou ciúmes apresentados e aceites como prova de amor;
- Em caso de desgosto amoroso, não minimizar o sofrimento, estar disponível para ouvir, ajudar a manter as rotinas e estar atento a possíveis sinais de alarme, como isolamento prolongado, perda de interesse generalizada ou alterações significativas no sono, apetite ou rendimento escolar.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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