Uma nova ameaça à liberdade de imprensa

O aniquilamento gradual do ecossistema jornalístico interessa a regimes autoritários, a governos e políticos corruptos e a todos aqueles que enxergam na imprensa profissional não um aliado contra a barbárie, e sim um inimigo a ser destroçado. Mas não deveria interessar às big techs e aos modelos de IA. Informação verificada, equilibrada e plural, é um bem cada vez mais escasso neste mundo atordoado pelas manipulações e deep fakes. Deveria, portanto, ser tratada como um bem precioso pelas bilionárias plataformas de IA, que pagam fortunas por talentos, softwares, chips, energia e datacenters, mas se recusam a remunerar devidamente os fornecedores de seu insumo mais relevante, exatamente a informação precisa e confiável ainda produzida pelas redações.
Sem jornalismo profissional, uma vasta camada de dados das plataformas de IA será um imenso lodaçal no qual as alucinações e aberrações desinformativas vão imperar. Quem quiser ter uma ideia de como seria esse novo universo deve recordar o que ocorreu em Ceuta em julho passado. Mais de 70 mil marroquinos, em sua maioria jovens, se lançaram ao mar porque acreditaram piamente em uma desinformação propagada em alta velocidade pelas redes sociais e grupos de mensagem, de que bastaria chegar pelo mar a Ceuta para ter a Europa sob seus pés. Agora, segundo a última pesquisa do Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, 52% dos jovens entre 18 e 24 anos se informam prioritariamente por redes sociais. O resultado da tendência? Uma massa enganada e mais de 80 corpos retirados do mar.
Essa visão do inferno informativo é um aperitivo do que pode acontecer se prosseguir a erosão do ecossistema jornalístico. Sem reportagens investigativas, os corruptos, os devastadores do meio ambiente, os exterminadores de direitos humanos, os déspotas e uma vasta legião de malfeitores, muitas vezes fora do alcance das leis, terão mãos livres para agir. Sem pluralidade, a sociedade perderá a noção dos pesos e contrapesos, essenciais nos processos de escolhas nas democracias, e se tornará cada vez mais refém de extremismos e da polarização. Sem jornalismo confiável, nossas sociedades retrocederão séculos de civilização.
Um extraordinário filme brasileiro, Ainda Estou Aqui, teve três indicações ao Oscar em 2025 e conquistou o de Melhor Filme Internacional. Ele narra a resistência moral, ética e emocional de uma família diante da desfaçatez da ditadura militar depois do desaparecimento do pai, um deputado federal de tendência moderada mas ainda assim encarado como inimigo a ser eliminado. O jornalismo na América Latina vive uma situação parecida. Sofre com violência, perseguições e injustiças e agora com a ameaça existencial de destruição pela inteligência artificial. Mas ainda estamos aqui. E nunca custa lembrar o que apregoa uma tradição oral brasileira inspirada na resistência dos indígenas: enquanto houver bambu, haverá flecha.
Este artigo de opinião integra a campanha do Dia Mundial do Jornalismo, uma iniciativa para mostrar o valor do jornalismo promovida pelo World Editors Forum, o Project Kontinuun e a Canadian Journalism Foundation.
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