A ditadura da emergência

Agora estamos na crise da habitação que sucede ao apocalipse climático que por sua vez foi antecedido pelo inominável crime de nos dividirmos entre homens e mulheres. Também estivemos para morrer por causa do buraco do ozono, das chuvas ácidas, do inverno nuclear, da explosão demográfica e duma mais que certa penúria alimentar. E para cada uma destas crises mais que anunciadas e antecipadamente dadas como inquestionáveis nas suas consequências, amplitude e dimensão pelos seus activistas-profetas, os nossos governantes legislaram a trouxe mouche para apaziguar a ira duma rua estridente que se especializou em criar momentos para as câmaras.
Note-se que estamos a pagar agora as consequências do desnorte que acometeu os governos europeus a propósito do aquecimento global: fecharam-se refinarias, centrais nucleares e a carvão, puseram-se limites tais à indústria automóvel europeia que esta entrou em crise enquanto a indústria automóvel chinesa florescia e apostou-se pelo gás. Russo obviamente. O resultado está à vista. Mas longe de se pedirem responsabilidades, vimos o cenário a repetir-se na emergência seguinte.
Milhares de crianças e adolescentes tiveram e ainda têm a sua puberdade interrompida, foram sujeitos a castração química e operações cujo impacto não têm capacidade de discernir, unicamente porque quem nos governa, mesmo tendo dúvidas (e obviamente achando que tal loucura nunca afectaria os seus filhos) não foi capaz ou não quis sofrer o desgaste de enfrentar os activistas, as ONG que brotavam sob as pedras e até os jornalistas que desataram a falar de identidades de género como se a biologia tivesse sido proscrita. Ainda há escassos três anos, um actor, num teatro municipal em Portugal, teve de dar o seu lugar numa peça a uma pessoa que se apresentava como trans porque alegadamente só um trans podia representar um trans. E agora quem responde pelas consequências de tudo isto? Bem, agora já ninguém quer saber disso: a tenda substituiu a Terra que ia ferver. Mas como foi possível que fossemos mais exigentes para fazer uma intervenção para colocar uma banda gástrica a um adulto do que para fazer uma operação de mudança de sexo a um jovem e, em alguns países, a um adolescente? Quem vai explicar como foi possível?
O absurdo, quando não o criminoso de várias destas respostas, só se compreende quando se atende ao frenesi da emergência que parecia ter-se apoderado da sociedade. Era como se o próprio acto de fazer perguntas fosse mais do que um crime, uma heresia. Sim, a cada uma destas crises os activistas-profetas cujos discursos e interesses ninguém escrutina tornam-se os detentores duma verdade alcandorada a dogma. Quando a luta de classes como via para o socialismo falhou, a emergência afirmou-se como atalho e a dúvida como atentado à salvação. Os activistas não querem construir uma sociedade nova. Montar barraca nos escombros desta chega-lhes, por agora. E, convenhamos, é uma excelente aposta para o seu futuro fora da tenda. Gabinetes universitários, associações, organizações internacionais esperam já pelo dia em que os possam acolher. Tudo devidamente sustentado pelos contribuintes e pelos capitalistas que descobrem que para viver e negociar não há melhor que sustentar os activistas.
Agora estamos na emergência da habitação e mais uma vez o circo está montado. Às vezes os artistas até repetem performances de emergências anteriores, apenas mudam o assunto. Habituados que estão a olhar para o Diário da República como o grande obreiro da sociedade, reivindicam habitação como se ela nascesse de um momento para o outro, à semelhança das tendas que abrem instantaneamente nas praças centrais das cidades (esta gente tem um acendrado fastio pelas periferias que diz representar. Porque não montam a barraca na Buraca em vez do Rossio? Aprenderiam muito, não duvido).
E mais uma vez assistimos à criação dum frenesi sem direito a perguntas sobre o passado: como se pode ter defendido fronteiras abertas sem pensar na habitação? Como pode haver nova habitação se as mesmas forças políticas que agora reivindicam habitação se opuseram invariavelmente às novas urbanizações e às empresas de construção? Se aquilo que apoiaram ao longos destes anos se reduziu a aumentar a burocracia (logo os custos e a demora) dos novos empreendimentos?
Agora vale tudo desde que seja para fazer habitação, mais a mais se esta for apresentada como tendo custos acessíveis. Tal como nas emergências anteriores vemos um problema real agigantar-se, ser transformado em algo que temos de exorcizar. A racionalidade perde-se. Não se discutem opções. Consequências. Tudo tem de ser já. Agora.
Mas tal como não se fazem perguntas aos activistas sobre o que defenderam no passado e as consequências futuras das suas reivindicações (um activista nunca responde pelo seu passado e menos ainda avalia o futuro, ele só tem presente) muito menos se questionam os governantes pela forma como têm reagido a esta pressão. Confesso que já me cansa ver os mesmíssimos governantes que nos esmifram com impostos, regras, regulamentos, taxas, contribuições, coimas, disposições e adicionais para todos os momentos do quotidiano declararem que reconhecem as razões de queixa de qualquer um que se apresente como imbuído duma causa.
Perante as acampadas, os desacatos, os apelos à violência… só me ocorre uma pergunta: quem nos governa nunca ponderou as consequências do factor erosivo que isto causa naqueles que se esforçam por cumprir as regras e que o Estado penaliza impiedosamente à primeira falha?
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