Camionistas. "Está na hora de alguém nos ouvir”

A mensagem do ministro, a mobilização pacífica e o elevado número de participantes deixaram Miguel Machado Mendes a cantar vitória, de sorriso no rosto. “O balanço é muito positivo, nós conseguimos, em poucos dias, unir pessoas que não se conheciam mas que tinham os mesmos interesses. Um setor que não tinha voz, que era desconhecido. Agregámos 117 empresas, colocámos na rua 450 camiões e, mais do que isso, fizemo-nos ouvir, com a certeza de que o próprio Governo reconheceu hoje que este setor era desconhecido”, salientou, ainda nas portagens de Coimbra Sul.
O advogado que representa o movimento, e que estará sentado à mesa de negociações, na companhia de outro empresário, no encontro com o ministro, encara essa reunião como uma “vitória”. Mas, mais do que isso, destaca a “adesão de pessoas” de outros setores, ou dos “cidadãos comuns que se identificaram com as nossas causas” e também se manifestaram na autoestrada com buzinas e aplausos. “Toda a gente reconhece que esta causa é justa. É possível demonstrarmos a nossa indignação, é possível fazermos uma marcha como a que fizemos hoje, que correu de maneira ordeira e civilizada”.
Frederico Maciel, dono de uma pequena empresa familiar de transporte de resíduos e reciclagem, representa essa junção de empresários com diferentes origens. Mesmo sendo de outro setor, também é diretamente afetado pelo aumento do preço dos combustíveis, pelo que não quis deixar de se juntar ao protesto. “No meu negócio, que é um micronegócio, estamos a falar entre 3 a 5 mil euros mensais [de prejuízo com o aumento dos preços]”, confessa ao Observador, antes de arrancar na marcha lenta.
A GNR, muito presente ao longo do percurso, quer nos viadutos, quer com motas a acompanhar os camiões na A1, reconheceu “uma boa colaboração por parte dos respetivos promotores e uma postura cívica por parte de todos os participantes”, assumindo que tudo “decorreu dentro da normalidade, sem incidentes a registar”. Através de um comunicado, os militares destacaram “a colaboração das entidades gestoras das vias, nomeadamente da Ascendi e da Brisa, cujo apoio contribuiu para o acompanhamento da iniciativa e para a gestão dos constrangimentos à circulação”.
“É um projeto vencedor. Um movimento vencedor que nasceu de maneira espontânea e informal”, acrescenta Miguel Machado Mendes. Sem tempo a perder, aponta para o futuro. “A partir de amanhã [o movimento] já trabalha para conseguir participar nas decisões”.
Há vários pontos que o advogado confirmou que estarão, seguramente, em cima da mesa. Além do referido desconto no gasóleo industrial, querem explorar acessos a programas de incentivos financeiros para tornar “equipamentos industriais de grande porte” — “alguns deles obsoletos” — em “máquinas energeticamente mais eficientes”. Além disso, gostavam de ver uma “equiparação da tonelagem máxima [capacidade de carga dos carros]” igualada à indústria dos madeireiros. Mas não ficará por aí. “Temos mais” reivindicações, promete.
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