The Daily Newsstand · Free, Always
Friday, October 23, 2026

Quando uma criança sente que não pode amar livremente a mãe

Translate

Nos artigos anteriores, conhecemos as acusações de violência de que foi alvo e que esta mãe afirma serem falsas, as alterações da residência do filho e as dificuldades que enfrentou para preservar a relação afetiva com ele.

O sofrimento de uma criança envolvida num conflito parental nem sempre se manifesta através daquilo que diz. Muitas vezes, revela-se nos seus comportamentos não verbais, nas mudanças de atitude, nos receios e na forma como demonstra afeto.

Enquanto psicóloga que acompanhou esta família no seu contexto de vida, nomeadamente em casa, na escola e em atividades no exterior, tive oportunidade de observar diretamente algumas das dinâmicas familiares descritas pela mãe. Estas observações permitiram-me conhecer comportamentos espontâneos da criança, em circunstâncias muito diferentes das que habitualmente encontramos numa consulta, neste, caso, observar o que acontece quando uma criança parece sentir que tem de controlar aquilo que diz, aquilo que faz e até o carinho que demonstra por um dos pais.

“Se não fizeres aquilo que eu quero, vou dizer ao meu pai que me tratas mal”

Recordo-me particularmente de um episódio ocorrido durante uma atividade em que fomos jogar futebol com o tio da criança. Quando começamos a atividade, começou a chover. Ainda tentámos continuar a jogar durante algum tempo, mas a chuva intensificou-se e tornou-se necessário regressar a casa. Foi à entrada do prédio que a criança, contrariada por não poder continuar a atividade, disse à mãe: “Se tu não fizeres aquilo que eu quero, que é ir jogar futebol, ir à mercearia, comprar gomas, pastilhas…, eu vou dizer ao meu pai que tu me tratas mal e vou telefonar para ele me vir buscar imediatamente”. Esta afirmação, que presenciei diretamente, chamou-me particularmente a atenção. Uma criança tão pequena (9 anos) colocava a mãe perante uma ameaça, se esta não correspondesse às suas exigências, poderia acusá-la de a tratar mal e pedir ao pai que a fosse buscar.

O que deveria ser uma situação normal de frustração infantil transformou-se numa ameaça de interromper a convivência com a mãe. 

Estabelecer regras, contrariar desejos e interromper atividades são aspetos naturais e necessários do exercício da parentalidade. Uma criança pode ficar zangada, protestar ou manifestar desagrado quando não consegue aquilo que pretende. Contudo, neste episódio, a reação foi além da contrariedade habitual. A criança associou a recusa da mãe à possibilidade de a acusar de maus-tratos e de recorrer ao pai para deixar de estar com ela. Importa sobre isto compreender como uma criança aprende a utilizar uma acusação desta natureza perante um limite estabelecido por um adulto.

O mais preocupante não era apenas a ameaça dirigida à mãe, mas o sofrimento emocional da criança que que pode estar por detrás daquele comportamento.

Uma criança não deve sentir que tem de escolher entre aceitar os limites estabelecidos por um dos pais ou interromper a relação com ele. Este episódio, constitui um elemento relevante para compreender as dinâmicas familiares e investigar de que forma o conflito parental poderá estar a interferir na relação entre a mãe e o filho.

A importância de observar a criança para além daquilo que os pais contam.

É precisamente porque situações como esta ocorrem que considero fundamental que os profissionais que acompanham famílias em conflito parental possam, sempre que adequado, observar diretamente as interações familiares. Uma coisa é ouvir o relato da mãe, outra é ouvir o relato do pai e outra ainda é escutar a criança. Mas observar aquilo que acontece nas situações reais do quotidiano permite-nos conhecer uma dimensão diferente da realidade familiar. Não se trata de desvalorizar os testemunhos, mas de os complementar com a observação dos comportamentos, das reações emocionais e da forma como a criança se relaciona com cada um dos adultos. Neste acompanhamento, uma das questões que mais me impressionou foi perceber como a criança parecia frequentemente preocupada com aquilo que podia ou não fazer e com as consequências das suas decisões.

Recordo-me também de uma ocasião em que fomos buscá-la à escola. A criança fazia sucessivas perguntas, procurando perceber se determinada decisão correspondia ao que a mãe pretendia ou ao que o pai tinha autorizado. Parecia particularmente preocupada em saber se estava a cumprir aquilo que o pai lhe tinha dito que podia fazer. Esta necessidade constante de confirmação, acompanhada de sinais de receio, chamou-me especialmente a atenção, comportamentos desta natureza podem estar associados a sentimentos de insegurança, ansiedade ou conflito de lealdades. O conflito de lealdades pode surgir quando uma criança sente que corresponder às expectativas de um dos pais significa desagradar ao outro. Nessas circunstâncias, situações simples do quotidiano podem transformar-se em momentos de tensão emocional.

É significativo observar uma criança que, em vez de viver tranquilamente as experiências próprias da sua idade, parece estar permanentemente preocupada com as consequências daquilo que faz ou diz. Sem prejuízo de uma avaliação mais abrangente para determinar a sua origem, a observação em contexto permite identificar estes sinais e compreender melhor as circunstâncias em que surgem.

“Se o pai estivesse presente, o meu filho não me cumprimentava”

A mãe descreveu outro comportamento do filho que a marcou profundamente que foi a diferença na forma se relacionava consigo, consoante a presença ou ausência do pai: “Outra coisa que era muito comum acontecia quando eu ia levar a Beatriz ao colégio. Por vezes, encontrava o meu filho e, se o pai estivesse presente, ele não me cumprimentava. Era como se não tivesse autorização para me cumprimentar. Era extremamente doloroso. Mas, quando eu ia buscar a Beatriz e o pai não estava presente, o meu filho vinha a correr para mim e abraçava-me normalmente. Portanto, percebia claramente que o comportamento do meu filho mudava consoante a presença ou ausência do pai. Sentia que ele não tinha liberdade para demonstrar o afeto que sentia por mim”. Este testemunho coloca-nos perante uma questão particularmente importante, o que poderá levar uma criança a demonstrar carinho espontaneamente pela mãe quando está sozinha com ela, mas a evitar cumprimentá-la na presença do pai?

Segundo a mãe, a diferença de comportamento do filho era evidente, na ausência do pai, aproximava-se espontaneamente e abraçava-a, quando o pai estava presente, evitava até cumprimentá-la. Esta mudança de comportamento pode constituir um sinal de conflito de lealdades, em que a criança receia que demonstrar carinho por um dos pais possa desagradar ao outro. Importa, por isso, compreender se existiu alguma forma de proibição, pressão explícita ou condicionamento emocional que pudesse explicar esta diferença. A questão fundamental é perceber se esta criança se sentia verdadeiramente livre para demonstrar o afeto que tinha pela mãe ou se, pelo contrário, sentia necessidade de esconder os seus sentimentos na presença do pai, por receio de comprometer a relação com ele. Nenhuma criança deve sentir que, para manter uma relação próxima e afetiva com um dos pais, precisa de esconder ou disfarçar o amor que sente pelo outro. O amor pelo pai e o amor pela mãe devem poder ser vividos e expressos livremente, sem receio, culpa ou necessidade de escolher entre ambos. Quando uma criança demonstra o seu afeto de forma diferente consoante está na presença do pai ou da mãe, importa compreender o que poderá estar a influenciar o seu comportamento e a limitar a liberdade de expressar os seus sentimentos.

“Bastava aproximarmo-nos da casa do pai para o comportamento mudar”

A mãe descreveu outra situação que, segundo o seu testemunho, se repetia frequentemente, que eraa mudança de comportamento do filho quando terminava o tempo de convivência consigo e se aproximava o momento de regressar a casa do pai: “Durante esse período, eu fazia questão de ter amigos em casa, para jantar, brincar e conviver connosco. Queria que o meu filho estivesse bem, que se divertisse e que outras pessoas também pudessem observar como ele estava comigo. E ele estava bem. Estava descontraído, brincava, convivia com os amigos e sentia-se completamente à vontade. Mas, no momento em que entrávamos no carro para regressar a casa do pai, o comportamento começava a mudar. Era um percurso muito curto, de cerca de cinco minutos, mas bastava aproximarmo-nos da casa do pai para ele começar a ficar calado, a contrariar tudo e a manifestar uma atitude de oposição. Parecia que precisava de demonstrar que não tinha estado bem comigo, quando, na realidade, tinha passado o tempo todo descontraído e feliz. Era muito doloroso perceber esta transformação, porque eu tinha acabado de estar com o meu filho, de o ver brincar e divertir-se, e, poucos minutos depois, parecia estar perante uma criança completamente diferente”. Esta descrição chama a atenção para a importância dos momentos de transição entre as casas do pai e da mãe. Segundo o relato desta mãe alienada, o filho brincava, convivia e demonstrava estar descontraído durante o tempo que passava consigo. Contudo, à medida que se aproximava da residência paterna, tornava-se mais reservado e manifestava comportamentos de oposição.

Uma criança envolvida num conflito de lealdades pode sentir necessidade de adaptar aquilo que diz e demonstra sobre a relação com um dos pais às expectativas que atribui ao outro. Pode, por exemplo, evitar contar ao pai que esteve feliz com a mãe, por receio de que essa manifestação de afeto seja mal recebida, ou sentir a mesma dificuldade na situação inversa. Nenhuma criança deve sentir que precisa de esconder os momentos felizes que vive com um dos pais para preservar a relação com o outro. Deve poder regressar de casa da mãe e partilhar com o pai as experiências agradáveis que viveu, tal como deve poder contar à mãe aquilo de que gostou quando esteve com o pai. Porque amar o pai e amar a mãe não são sentimentos incompatíveis. Uma criança precisa de ter liberdade para gostar de ambos, expressar os seus afetos e partilhar as suas experiências, sem culpa, sem medo e sem sentir que está a trair alguém.

A surpresa de uma criança perante os ovos da Páscoa

Enquanto psicóloga que acompanhou esta família em contexto, tive também oportunidade de observar diretamente momentos de convivência familiar que, apesar de aparentemente simples, suscitaram questões importantes. Recordo-me de um episódio ocorrido durante a Páscoa. A criança estava muito contente com os ovos de chocolate que tinha recebido, mas demonstrou uma surpresa que me chamou a atenção: parecia admirado por também ter direito àqueles presentes e por não ser castigado ou privado de alguma coisa. O que me impressionou não foi a alegria de receber os ovos da Páscoa, mas a surpresa perante a possibilidade de desfrutar daquele momento. É importante compreender o que leva uma criança a antecipar uma punição ou uma privação quando tal não acontece. Estas expectativas podem estar relacionadas com experiências anteriores, receios ou interpretações que construiu sobre as relações familiares. Por vezes, são os pequenos acontecimentos do quotidiano que nos permitem perceber melhor aquilo que preocupa uma criança, aquilo que receia e aquilo que espera dos adultos. É também por isso que o acompanhamento psicológico em contexto pode ser particularmente relevante em famílias com conflitos parentais prolongados.

Quando a criança parece viver entre aquilo que sente e aquilo que pode demonstrar

Ao longo deste acompanhamento, surgiram diferentes comportamentos que mereciam ser compreendidos em conjunto. Uma criança que, segundo o relato materno ameaçava acusar a mãe quando era contrariada e , evitava cumprimentá-la na presença do pai, mas a abraçava espontaneamente na sua ausência. Que parecia alterar o comportamento à medida que se aproximava da casa paterna. E que, em determinadas situações, demonstrava preocupação com aquilo que lhe era permitido fazer. O elemento comum a estas situações é a possibilidade de a criança estar a viver uma tensão entre aquilo que sente, aquilo que deseja e aquilo que acredita poder demonstrar perante cada um dos pais. Em contextos de elevado conflito parental, algumas crianças podem sentir-se pressionadas a corresponder às expectativas dos adultos, procurando evitar desagradar a qualquer um deles. Esta pressão nem sempre é expressa através de ordens ou proibições explícitas. Pode resultar da forma como a criança interpreta as reações dos adultos, as mensagens que recebe e as consequências que antecipa. Quando estas dinâmicas se tornam persistentes, podem afetar a espontaneidade, a segurança emocional e a liberdade de expressão afetiva.

Uma criança deve poder expressar livremente o afeto que sente por cada um dos pais, sem recear que esse amor comprometa a relação com o outro.

Este testemunho mostra-nos como o sofrimento de uma criança envolvida num conflito parental pode manifestar-se em acontecimentos aparentemente simples, um jogo de futebol interrompido pela chuva, um cumprimento à porta da escola, uma viagem de cinco minutos entre duas casas ou a surpresa perante um presente de Páscoa. São episódios que, quando analisados isoladamente, podem parecer pouco significativos. Mas, quando observados no contexto mais amplo das relações familiares, podem ajudar a compreender as preocupações, os receios e as dificuldades emocionais da criança.

Não basta conhecer aquilo que o pai relata, aquilo que a mãe descreve ou aquilo que a criança verbaliza numa consulta. Sempre que possível e adequado, importa compreender como se desenvolvem as relações nas situações reais da vida quotidiana. A observação direta não substitui os restantes procedimentos de avaliação, mas pode oferecer informação particularmente relevante para identificar necessidades de apoio e orientar a intervenção.

Numa situação como a aqui relatamos, o objetivo não deve ser levar uma criança a escolher entre o pai e a mãe, mas ajudá-la a sentir-se suficientemente segura para manter relações afetivas saudáveis com ambos, sempre que essas relações sejam protetoras. Uma criança precisa de adultos que lhe permitam ser criança. Precisa de poder brincar, contrariar-se, receber carinho, aceitar limites e partilhar experiências sem sentir que cada comportamento poderá ter consequências na relação com o pai ou com a mãe. Proteger uma criança significa também garantir-lhe a liberdade de demonstrar afeto, sem culpa, medo ou necessidade de esconder aquilo que sente. 

View the original on Observador Desporto →

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.