Primavera começa nesta terça: o que esperar da estação com o El Niño no Brasil

- Author, Giulia Granchi
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
Published
Tempo de leitura: 6 min
A primavera começa nesta terça-feira (22/09), às 21h05, pelo horário de Brasília, e vai até 21 de dezembro, sob a influência do que meteorologistas já classificam como o El Niño mais intenso da história.
Dados atualizados na segunda-feira (21/09) pela NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, mostram que a temperatura da superfície do Oceano Pacífico Equatorial atingiu o maior patamar já registrado para o fenômeno.
"O El Niño já é histórico, é um fato: hoje atingimos a maior temperatura na região do Oceano Pacífico Equatorial comparado a eventos anteriores. Este já é o El Niño mais intenso da história", afirma a meteorologista Estael Sias, da MetSul.
A meteorologista Josélia Pegorim, da Climatempo, explica que o fenômeno já é considerado muito forte logo no início da estação e pode atingir, ainda no fim da primavera e no começo do verão, uma força nunca antes observada pela ciência moderna.
O precedente de 2023
A última primavera do Hemisfério Sul sob influência de um El Niño foi a de 2023, explica Pegorim — um período que deixou recordes históricos de calor no país e chuva extrema sobre o Rio Grande do Sul, com mortes e danos severos à infraestrutura e à economia do Estado.
Entre os recordes daquela estação, ela cita os 44,8°C registrados em Araçuaí (MG), em 19 de novembro de 2023, a temperatura mais alta oficialmente medida no Brasil pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em mais de 100 anos de histórico; os 44,2°C em Cuiabá, recorde em 113 anos de medições; os 37,7°C em São Paulo, em 13 e 14 de novembro daquele ano, a segunda maior temperatura já registrada na capital paulista e recorde histórico para o mês; além de 42,5°C no Rio de Janeiro, 35°C em Curitiba (segunda maior da capital paranaense) e 43,4°C em Porto Murtinho (MS).
Em anos de El Niño, segundo Pegorim, o padrão normalmente observado é de aumento de chuva no Sul e déficit no Norte e no Nordeste — e o El Niño muito forte de 2026 deve reforçar essas características.
Chuva: excesso no Sul, déficit no Norte e Nordeste
Segundo Pegorim, a estação deve trazer grande déficit de chuva em todo o Norte e Nordeste, além de Mato Grosso, Distrito Federal e da maior parte de Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.
Pule Mais lidas e continue lendo
Mais lidas
Fim do Mais lidas
Pule Promoção Agregador de pesquisas e continue lendo

Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Em contrapartida, a expectativa é de chuva muito acima da média em toda a região Sul, no sul do Mato Grosso do Sul e no extremo oeste e sul de São Paulo, com volumes também acima do normal nas demais regiões paulista e sul-mato-grossense. Chuva um pouco acima da média também é esperada no sul de Goiás, no Triângulo Mineiro e no sul de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.
Essa leitura confirma o que outros meteorologistas já vinham apontando para a estação, em entrevista à BBC News Brasil em 4 de setembro.
Diogo Arsego, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), já apontava maior probabilidade de chuva acima da média no centro-sul do país ao longo do trimestre que vai de setembro a novembro.
A pesquisadora Ana Ávila, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, projetava início de estação úmida adiantada em São Paulo, sobretudo na metade sul do Estado, e não descartava novos eventos pontuais de tempestade no Rio Grande do Sul.
O boletim técnico conjunto do Inmet e do Inpe para o trimestre de outubro a dezembro traz números que reforçam esse quadro: na Região Sul, a previsão é de chuva acima da média em todos os Estados, com os maiores volumes concentrados no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, onde os acumulados podem superar a média histórica do trimestre em até 200 mm.
Já no Norte, o déficit deve ser generalizado, com valores até 200 mm abaixo da média em Roraima, no norte-nordeste do Amazonas e no oeste e centro-sul do Pará — apenas o leste do Acre, o extremo noroeste do Pará e o norte do Amapá devem ficar próximos da média histórica. No Nordeste, o déficit de chuva também deve predominar, com a possibilidade de volumes um pouco acima da média apenas no setor leste, entre o Rio Grande do Norte e Alagoas.
Calor recorde, mas Sul mais frio que o normal
O excesso de calor deve ser uma das principais marcas da estação, segundo Pegorim: a temperatura média deve ficar muito acima do normal no Norte, no Nordeste e em praticamente todas as áreas do Sudeste e do Centro-Oeste.
A exceção é a própria região Sul — na maior parte dela, no sul e leste do Mato Grosso do Sul e no centro-oeste/sudoeste paulista, a temperatura média deve ficar dentro da faixa normal, por causa do excesso de chuva e de nuvens. No Rio Grande do Sul, especificamente, a expectativa é de temperatura abaixo do normal, também em razão do excesso de chuva, da nebulosidade e da atuação mais frequente de massas de ar frio de origem polar.

Crédito, Getty Images
A mesma nota técnica do Inmet e do Inpe confirma essa tendência: a previsão indica temperaturas acima da média climatológica em praticamente todo o Norte e no Nordeste, com alguns Estados nordestinos podendo registrar desvios próximos ou acima de 2°C acima da média histórica.
O calor também deve predominar no Centro-Oeste — com desvios de até 2°C na faixa norte do Mato Grosso — e no Sudeste, onde os maiores desvios, de até 1°C, devem se concentrar no centro de Minas Gerais e no nordeste de São Paulo. No Rio Grande do Sul, a mesma nota corrobora a leitura de Pegorim: as temperaturas devem ficar próximas da média, com o Sul do estado podendo registrar anomalias negativas de até 0,5°C.
Riscos para a estação
Segundo Pegorim, enchentes e tempestades severas são esperadas no Sul — uma estação que já é normalmente mais propensa a temporais na região, independentemente do El Niño.
No Norte e no Nordeste, incluindo a região do Matopiba, a falta de chuva combinada ao calor excessivo pode comprometer a agricultura, além de elevar o risco de queimadas.
A seca prolongada nessas regiões também deve tornar mais lenta a elevação do nível dos rios, o que prejudica a navegação e afeta a população ribeirinha. Há ainda preocupação com excesso de chuva e risco de enchentes na cidade de São Paulo.
O tempo severo que atingiu o Rio Grande do Sul neste início de semana — com vendavais de mais de 100 km/h, mortes, desaparecidos e agora risco de enchente nos vales da Serra Gaúcha — é, segundo Estael Sias, um exemplo do que esse padrão deve se intensificar ao longo da estação.
"A primavera terá uma frequência maior de eventos extremos, e o El Niño potencializa não só a intensidade, mas a frequência", diz a meteorologista da MetSul.
Segundo os meteorologistas ouvidos pela reportagem, o pico do fenômeno, entre outubro e dezembro, deve se estender pelo início do verão — o que significa que o cenário descrito aqui tende a se intensificar antes de arrefecer.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.



