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Sunday, October 18, 2026

Mondlane: "Chapo é bem sucedido a assassinar opositores"

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A um mês de se sentar no banco dos réus num julgamento que o pode fechar numa cela durante 20 anos, Venâncio Mondlane diz-se calmo, nada “aflito”. O principal rosto da oposição moçambicana acredita que, se na sala de tribunal vingar a justiça, não irá para a cadeia. Mas se razões políticas se sobrepuserem aos argumentos jurídicos e for condenado à prisão, isso não é o mais importante.

O que quer, garante em entrevista ao Observador, é que a verdade do que se passou na contestação pós-eleitoral no final de 2024 e início de 2025 chegue a todos os moçambicanos. Não vai ser fácil: o Tribunal Supremo recusou esta quarta-feira, pela segunda vez, a transmissão do julgamento. Para proteger testemunhas e peritos, evitar pressão sobre o tribunal, não contaminar a prova, diz o despacho do juiz, mas também para afastar a instrumentalização do julgamento para fins de propaganda.

Nesse período violento, morreram pelo menos 400 manifestantes (número referido pelo partido Anamola, sendo que associações de direitos humanos dizem que pode ser maior), alguns polícias (linchados pela população) e mais de 400 pessoas ficaram feridas, havendo ainda centenas de empresas e instituições vandalizadas em todo o país.

O sangue não parou aí, garante o pastor evangélico e ex-quadro bancário, que divulgou em setembro em Portugal e no Parlamento Europeu o que chama de “carnificina”: num ano, 58 elementos do seu partido Anamola, incluindo uma testemunha importante para o seu julgamento, foram assassinados. Na semana passada, aliás, foi morto a tiro, dentro de casa, mais um apoiante do Anamola, Araújo Tendence, em Mopeia, na província da Zambésia, denunciou Mondlane.

Já depois da entrevista ao Observador, gravada na segunda-feira, o número foi revisto em alta, para 65 vítimas mortais, pela equipa do líder que arrasta multidões para as ruas de Moçambique. (Ao Observador, Wilker Dias, coordenador da Plataforma Decide, organização não governamental moçambicana, adiantou esta quarta-feira 43 casos de violência política, incluindo morte, tortura e sequestro, entre maio e outubro, a elementos dos partidos Anamola, Renamo e Podemos).

É pelo seu papel na mobilização nos protestos que Venâncio Mondlane vai a tribunal. Antes viajou para a Europa, num esforço para denunciar o que se passa em Moçambique e angariar apoios internacionais e da diáspora. Em menos de um mês esteve uma vez no Parlamento Europeu e duas em Portugal, tendo sido recebido em Lisboa por Paulo Rangel, em representação de Luís Montenegro, e por Rodrigo Saraiva, da Iniciativa Liberal. Mas ainda não foi desta que a Presidência da República lhe abriu a porta.

Após participar, no sábado, num debate sobre as eleições angolanas na capital portuguesa, Venâncio Mondlane reafirma-se ao Observador contra os fundamentalismos ideológicos: “A minha ideologia é eclética”. Com as suas habituais pulseiras com dizeres cristãos — numa medalha lia-se Jesus Cristo e na outra face Emmanuel TV, televisão da Synagogue, Igreja de Todas as Nações sediada na Nigéria, com o lema “Mudar vidas, mudar nações e mudar o mundo” —, explica o apoio a Flávio Bolsonaro e o aperto de mão a Francisco Assis.

E não poupa Daniel Chapo, o Presidente moçambicano, enquanto pisca o olho ao panafricanismo moderno e espera por Portugal e a União Europeia. (E por Seguro). Pois continua excluído do Diálogo Nacional Inclusivo, iniciativa de Maputo, patrocinada por Bruxelas, para construir consensos, a paz e a confiança institucional em Moçambique.

O seu julgamento está previsto para 17 de novembro e enfrenta acusações que podem resultar numa pena de prisão muito longa. Está preparado para a possibilidade real de ser condenado e preso?
Ninguém está preparado para ser preso, para ser condenado, pois são medidas excecionais na nossa vida. Mas assumo a responsabilidade de todas as mobilizações políticas e sociais que fiz no contexto eleitoral em que fui candidato. O mais importante, a maior preocupação agora é eu estar preparado, não para ser condenado ou para ser preso, mas para apresentar uma fundamentação da minha defesa em tribunal que seja consistente, forte e que, realmente, acima de qualquer condenação ou [declaração de] ser inocente, traga a verdade e tire esse véu sobre as razões de fundo que levaram à crise pós-eleitoral em Moçambique.

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