Por que visita de Lula a capital bolsonarista do NE é aposta de Renan em AL

Curiosamente, a aposta na imagem de Lula ocorre na única capital do Nordeste onde Jair Bolsonaro venceu nos dois turnos da eleição de 2022. Na ocasião, Maceió deu 57,18% dos votos válidos a Bolsonaro na etapa decisiva.
Tentativa de pegar carona e subir
Os levantamentos atuais indicam que a intenção de voto no presidente Lula cresceu um pouco na capital alagoana, variando entre 45% e 50% dos votos válidos em eventual segundo turno.
Diante desse cenário, a avaliação da campanha de Renan é de que entre 15% e 20% dos eleitores que declaram voto em Lula afirmam que também votarão em JHC.
Com a expectativa de obter expressiva votação no interior —amparado pelo apoio de mais de 80 dos 102 prefeitos do estado—, os cálculos da equipe de Renan apontam ser necessário alcançar ao menos um terço dos votos dos eleitores da capital. Por isso, a campanha tem concentrado quase todos os atos na reta final de caça ao voto na capital.
"Em uma eleição na qual qualquer um dos candidatos pode vencer, a vinda de Lula pode ter efeito positivo para desempatar a disputa, além de contribuir para o desempenho das candidaturas do PT nas eleições proporcionais. Vamos observar o impacto nas pesquisas a partir da próxima semana", analisa Luciana Santana, cientista política da Ufal (Universidade Federal de Alagoas).

Discurso afiado
Diante de uma Praça Deodoro lotada de apoiadores de Lula (a maioria sem adesivos ou adereços de outros candidatos), Renan Filho fez um efusivo discurso em apoio a Lula para pegar carona com os seus eleitores.
Aproveitou também para alfinetar JHC. "Ele foi a um debate comigo, só teve coragem de um, depois fugiu, não dá entrevista. Ele só fala em ambiente controlado", afirmou.
JHC participou apenas do debate promovido pela TV Gazeta e faltou aos outros. A avaliação interna, segundo apurou o UOL, foi que o confronto teve Renan como "vencedor", e a exposição poderia prejudicar mais que ajudar.
Renan ainda pegou carona no escândalo do Master para associar JHC ao caso, citando os dois aportes, no total de R$ 97 milhões, que o Instituto de Previdência de Maceió fez ao banco.
"O maior desvio entre todas as prefeituras do Brasil foi em Maceió: foram 100 milhões dos aposentados e pensionistas", citou —o caso está sendo investigado pela Polícia Federal.
Já Lula foi mais comedido e preferiu não atacar JHC e apenas pediu voto a Renan (que foi seu ministro dos Transportes até abril). "O que está em jogo, se vai escolher candidato 'A' ou 'B'; é que vão escolher que tipo de Brasil vocês desejam", afirmou Lula.

Estratégia e rejeição
A meta de crescimento na capital é considerada complexa, dada a resistência histórica do eleitorado de Maceió à família Calheiros e a forte popularidade do ex-prefeito. Em 2024, JHC foi reeleito com o maior percentual de votos da história da cidade: 83,25%, contra 12,74% do deputado federal Rafael Brito (MDB), que contava com o apoio de Lula e de Renan.
Em paralelo à visita presidencial, a propaganda de rádio e TV de Renan passou a explorar o histórico alinhamento de JHC com o bolsonarismo e a composição de sua aliança com o PL.
As inserções repetem trecho de uma declaração de Flávio Bolsonaro, em visita à capital alagoana, na qual afirma que JHC é seu candidato no estado e que espera contar com a ajuda dele na campanha presidencial "em algum momento".
JHC evita declarar voto na disputa nacional e, antes de renunciar à prefeitura para concorrer ao governo, se aproximou do presidente. Durante agenda de Lula na capital, em janeiro, o então prefeito declarou que "o povo saberá reconhecer seus esforços", projetando sua reeleição em 2026.

O candidato do PSDB deixou o PL —partido ao qual havia se filiado no segundo turno de 2022 para apoiar Bolsonaro— e migrou para o PSDB em março. A mudança visava afastar sua imagem da figura de Flávio Bolsonaro e mitigar a rejeição no interior do estado, região majoritariamente lulista.
A estratégia de acenar a diferentes públicos também se reflete no palanque de JHC com a presença do ex-governador e atual vice-governador Ronaldo Lessa (PDT) —que declara voto em Lula, mas rompeu com o MDB sob a alegação de falta de espaço no grupo governista.
Inicialmente, o pedetista foi convidado para ocupar a vaga de vice na chapa de JHC, mas acabou preterido em favor de Célia Rocha (PSDB). A escolha ocorreu após o PL condicionar a cessão do tempo de rádio e televisão à não indicação de um nome de esquerda para o posto.
Para manter o apoio do pedetista, JHC gravou um vídeo ao lado de Lessa comprometendo-se a entregar a ele, em eventual gestão, o comando do Fecoep (Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza).
Reportagem
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