Mulheres podem definir quem vence em 2026; Senado caminha para recorde de eleitas
Faltando oito dias para o primeiro turno, o eleitorado brasileiro que deve decidir tem rosto de mulher.
Segundo o TSE, são 83.877.126 eleitoras em 2026, o equivalente a 52,84% do total nacional. E, numa eleição apertada - como a que se anuncia -, a vantagem entre elas pode ser decisiva.
Em 2022, Lula chegou à reta final com 51% das intenções de voto entre as mulheres, contra 42% de Bolsonaro, segundo o Datafolha, e venceu o segundo turno por pouco mais de 2 milhões de votos, numa disputa em que os homens se dividiram.
Quatro anos depois, o desenho se repete. No Datafolha de julho, o presidente tinha 50% entre as eleitoras, contra 40% de Flávio Bolsonaro, enquanto entre os homens a disputa estava empatada, com 46% para o senador e 45% para Lula.
Na Genial/Quaest divulgada em 21 de setembro, a vantagem de Lula entre as mulheres no segundo turno é de 44% a 37%. Não por acaso, as duas campanhas passaram os últimos meses disputando o voto feminino.
Disputadas como eleitoras, elas continuam raras como candidatas. Das 20.958 candidaturas registradas, apenas 7.357 são de mulheres, ou 35,1%, quase 18 pontos abaixo do peso delas no eleitorado.
O funil se estreita à medida que o cargo cresce: são apenas 35 candidatas entre os 201 postulantes a governador, e só duas mulheres disputam a Presidência como titulares.
Nos espaços já conquistados, o quadro é ainda mais estreito. Mulheres ocupam 17% das cadeiras da Câmara dos Deputados, 19% do Senado e 8% dos governos estaduais, e o Brasil aparece em 139º lugar no ranking mundial de representatividade feminina da União Interparlamentar e da ONU Mulheres.
O abismo entre quem elege e quem é eleita é conhecido há décadas. O que a pesquisa de agora ajuda a entender é como o próprio eleitor enxerga essa distância.
Realizado pela Voga com o Instituto Ideia para o movimento Confia Nelas, o levantamento ouviu em agosto 1.018 pessoas com mais de 18 anos em todas as regiões do país, com cotas por gênero, idade, escolaridade e região.
A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Consenso no discurso, contradição nas oportunidades
No plano dos princípios, há pouca controvérsia. Para 71% dos entrevistados, é preciso ter mais mulheres na política brasileira, e o mesmo percentual concorda que elas têm tanto preparo e capacidade para o poder político quanto os homens.
Metade (50%) acredita que o país seria um lugar melhor para viver com uma presença muito maior de mulheres em cargos de decisão. Apenas 3% acham que seria pior.
A igualdade salarial para a mesma função é praticamente unânime: 84% concordam, 75% plenamente. E 71% defendem que as mudanças para ampliar o espaço feminino aconteçam de forma rápida, não gradual.
É quando a pergunta desce do abstrato para o concreto que as respostas se embaralham. Questionados diretamente se mulheres têm as mesmas oportunidades que homens de ocupar posições de poder, 58% responderam que sim.
Contudo, diante da afirmação de que, em geral, as mulheres têm as mesmas oportunidades que os homens no Brasil hoje, apenas 34% concordaram, e 44% discordaram.
Uma oscilação que sugere que parte do eleitorado vê o acesso ao poder como uma questão de mérito individual, ainda que reconheça desigualdades estruturais no cotidiano.
Não por acaso, 59% concordam que a vida no Brasil é mais difícil para as mulheres do que para os homens.
Sistema, partidos e o próprio eleitor
Na explicação para a baixa presença feminina entre os eleitos, quase metade dos entrevistados aponta para as estruturas da política.
Somadas, as respostas que citam o conservadorismo e a resistência do sistema eleitoral (18%), a falta de incentivo para que novas lideranças femininas apareçam (16%) e a falta de apoio financeiro às campanhas de candidatas (9%) chegam a 43%.
É um recado direto aos partidos, que controlam a escolha de candidaturas e a distribuição de recursos.
Nos cargos majoritários, para os quais a lei não fixa cota, as mulheres são 17,4% das candidaturas a governador e 21,9% ao Senado.
Ainda assim, a resposta isolada mais citada, por 34%, é o machismo e o preconceito da própria sociedade na hora de votar. A dupla jornada fica com 9%. Ou seja, um terço do eleitorado reconhece que parte do obstáculo está do lado de cá da urna.
Esse viés aparece também na forma como as candidatas são avaliadas. Para 61%, os eleitores julgam a forma de falar de uma candidata com muito mais rigor do que fariam com um candidato homem.
E a violência política de gênero é percebida como um problema real: 65% classificam os ataques contra candidatas, como ofensas, ameaças e fake news, como totalmente graves, nota máxima numa escala de 1 a 5.
Diante da frase de um influenciador segundo a qual mulheres votam estatisticamente muito mal, principalmente as solteiras, 58% discordaram, mas 19% concordaram.
E 41% acreditam que a maioria das mulheres casadas acaba votando nos candidatos escolhidos pelo marido ou pela família, ideia rejeitada por 32%.
Trata-se de uma suspeita sobre a autonomia de quem, afinal, decide a maioria dos votos no país.
O pedestal moral
A pesquisa também revela as expectativas que recaem sobre as candidatas. Para 55%, mais mulheres na política ajudariam a reduzir a corrupção.
Quando perguntados sobre a característica mais importante para uma mulher fazer um bom governo, 31% citaram honestidade e tolerância zero com a corrupção, à frente da sensibilidade para causas sociais (21%), da firmeza nas decisões (15%) e da capacidade técnica e de gestão (12%).
A associação entre mulheres e integridade pode soar como elogio, mas funciona também como armadilha, ao impor às candidatas um padrão moral mais alto. E qualquer deslize tende a ser cobrado em dobro.
Entre as mulheres entrevistadas, só 23% se sentem representadas pelas que ocupam cargos políticos hoje. Outras 42% se sentem representadas em partes, e 22% não se sentem representadas.
A memória política ajuda a explicar. Quando convidados a citar espontaneamente o nome de uma mulher política brasileira, 20% lembraram de Dilma Rousseff e 12% de Michelle Bolsonaro. Candidata ao Senado, Marina Silva vem a seguir, com 6%.
Quase 12% não souberam citar nenhum nome. Entre as personalidades apresentadas aos entrevistados, só Michelle Bolsonaro (47%) e Marina Silva (45%) são conhecidas "muito bem" por mais de 40% do eleitorado.
Ainda assim, 70% afirmam já ter votado em uma mulher em alguma eleição. A maior parte lembra de ter votado em uma mulher para presidente (41%) e para vereadora (35%).
A agenda que une
Se há um tema capaz de aglutinar o eleitorado feminino, ele é a violência.
Na pergunta espontânea sobre o assunto mais importante para unir as mulheres hoje, o combate à violência, ao feminicídio, ao assédio e aos abusos lidera, com 17%, mais que o dobro do segundo colocado.
Nas respostas estimuladas, políticas de prevenção e combate à violência contra a mulher (40%), o combate ao assédio sexual e moral no trabalho (36%) e a igualdade salarial (32%) formam o topo da lista. A ampliação da presença feminina em cargos de liderança e na política aparece com 19%.
Chama atenção, também, a relação com o rótulo. Só 17% se declaram feministas, mas outros 29% dizem apoiar o movimento sem se identificar com o termo. Somados, são 46%, contra 20% que não se identificam com o feminismo.
Onde está, então, o espaço para mobilização? Primeiro, na disposição do eleitor.
Se existissem canais fáceis e claros para apoiar a presença de mais mulheres na política, 31% dizem que participariam ativamente e 42% acompanhariam a iniciativa.
O formato preferido é o de receber conteúdos, pesquisas e informações (33%), seguido de compartilhar campanhas nas redes sociais (27%). Doações financeiras atraem 15%.
O caminho passa pelo celular: 58% se informam sobre política por redes sociais, aplicativos de mensagem e vídeos, à frente da televisão (53%). Entre quem usa as redes, o Instagram lidera com folga (42%), seguido do YouTube (21%).
Entre o palanque e a urna
Na reta final da corrida presidencial, nenhum dos dois favoritos se dá ao luxo de ignorar o peso das eleitoras. Embora ambos, de certo modo, escorreguem.
Flávio Bolsonaro, que precisa reduzir a desvantagem entre as eleitoras, lançou em julho o plano Brasil por Elas, centrado em penas mais duras para a violência contra a mulher.
Na TV, o senador aparece ao lado da mãe, da mulher, Fernanda, e das filhas, numa tentativa de se apresentar como pai de família moderado. Na hora de escolher o vice, porém, optou por um homem.
Lula, que tenta preservar a vantagem, fez da primeira-dama, Janja, uma presença constante nos palanques e tem promovido encontros específicos com eleitoras, como o de Belo Horizonte, no fim de agosto.
Nesta sexta-feira, 25, em Recife, foi além e defendeu que, se as mulheres votarem em mulheres, o Congresso poderá um dia ter maioria feminina.
No mesmo palanque, contudo, pediu votos para seu aliado João Campos (PSB), que disputa o governo de Pernambuco contra a governadora Raquel Lyra (PSD).
Se a maioria no Congresso ainda é um horizonte distante, é no Senado que mais mulheres podem, neste ano, atravessar a fronteira entre quem elege e quem é eleita.
Algumas pesquisas estaduais indicam que em 2026, a Casa pode superar o recorde de oito senadoras eleitas numa mesma eleição, marca de 2002 e 2010.
E a disputa não se concentra em um só campo: vai de Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), em São Paulo, e Benedita da Silva (PT), no Rio, a Michelle Bolsonaro (PL), no Distrito Federal, e Carol De Toni (PL), em Santa Catarina.
Michelle e Marina, vale lembrar, são também as políticas mais conhecidas do país, segundo o levantamento do Confia Nelas: 47% dizem conhecer muito bem a ex-primeira-dama, e 45%, a ex-ministra, que já disputou a Presidência três vezes.
De lados opostos, as duas conquistaram visibilidade nacional por caminhos a que poucas mulheres têm acesso. Em comum, no entanto, mostram o quanto a notoriedade ainda pesa para que uma mulher chegue competitiva.
O que dirá se algo mudou neste pleito não serão os nomes já conhecidos, mas as milhares de outras candidaturas femininas, a maioria sem a mesma fama, dinheiro e apoio partidário. É nelas que se verá se o consenso captado pela pesquisa sobrevive à urna.
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