Cris, Gio e a bênção na capela em Fátima

A imagem de Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez diante do painel que decora o fundo do altar na Capela da Casa de Retiros Nossa Senhora das Dores, parte da estrutura física que recebe peregrinos no Santuário de Fátima, é a que ilustra o exclusivo que faz a capa da versão digital da Vogue. Cinco dias antes de oficializarem a união que dura há 10 anos, o casal já sabia que depois do casamento civil, realizado na sala da casa da família em Cascais, seguiria para Fátima, “onde o padre vai fechar um pequeno santuário e dar-lhes uma bênção“, escreveu a jornalista britânica Gaby Wood.
Nas fotografias do alemão Juergen Teller, o público tem um vislumbre do que terá sido esta cerimónia religiosa. Sentados no banco da capela estão Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo Jr., Mateo, Georgina Rodríguez, Alana Martina, Eva e Bella Esmeralda, diante do padre, outro Ronaldo, este Araújo, capelão do Santuário de Fátima, no que a Vogue descreve como “a família sentada para a missa”. Georgina, por sua vez, terá afirmado à publicação que dentro da capela, que visitou naquela ocasião pela primeira vez, sentiu “uma paz e uma energia difíceis de descrever”: “Não precisava de mais nada: o meu marido, os meus filhos, a minha casa, a nossa fé e o nosso amor”. Mas, afinal, Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez casaram-se na Igreja?
Não se sabe quem mais poderá ter estado presente nem detalhes, como se o padre terá abençoado o casal dentro da capela ou o tipo de celebração realizada. O Observador contactou o Santuário de Fátima, que explicou que as capelas “estão ao serviço dos peregrinos, que as podem reservar para diferentes celebrações“, mantendo a privacidade tão valorizada por Cristiano e Georgina, sem especificar o tipo de cerimónia realizada pelo casal. “Para celebrações particulares, basta contactar os serviços do Santuário de Fátima e expor o que se pretende. Em função das características do grupo, o Santuário reservará a capela mais apropriada”, completa a comunicação do Santuário, em resposta enviada ao Observador, sobre em que casos e moldes tais bênçãos acontecem.
Bênção no dia do casamento civil
Apesar de não ficar explícito, o artigo da Vogue não menciona um “casamento religioso”, optando apenas por classificar a celebração em Fátima como uma “bênção”. “A palavra bênção é muito lata no universo ideológico da Igreja”, explica ao Observador o Padre João Basto, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo e um dos autores do podcast As Histórias da Bíblia. “Bênçãos dentro da Igreja existem muitos tipos. Em Fátima é muito famosa a Bênção dos Carros, no Norte é muito famosa a Bênção dos Animais”, comenta o sacerdote, destacando que a palavra “pode significar simplesmente, ir à missa, dado que a missa em si mesma termina com uma bênção.”
O padre também explica que uma bênção pode ser previamente agendada ou acontecer de forma espontânea, num contexto mais informal. Contudo, pelos olhos da Igreja, tal não é o mesmo que um matrimónio. “O casamento é um sacramento e a bênção não é um sacramento“, explica João Basto. “Um matrimónio exige um processo em que sejam asseguradas algumas condições”, destaca, dando como exemplo a necessidade de as pessoas terem a “liberdade para contrair o matrimónio, ou seja, não serem coagidas a casar”. “E isto tem de ser atestado”, afirma, exemplificando as diferenças no processo, que dura em média quatro meses e ainda demanda os registos do casamento civil e outros documentos do casal, além da publicitação prévia. Formalidades que não são tão restritas no primeiro caso. “Qualquer pessoa pode receber uma bênção, mas embora não seja um sacramento, também implica uma consonância da vida da pessoa com aquilo que são os ensinamentos e a visão evangélica da Igreja.”
Enquanto Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez não terão, aparentemente, nenhum impedimento para contraírem o matrimónio perante a Igreja, as bênçãos podem ser vistas por outros casais, como homossexuais ou divorciados, como uma forma de celebrar a união dentro da religião, apesar de não viverem numa relação aprovada pela Igreja Católica. Em 2023, a Santa Sé publicou uma declaração, aprovada pelo Papa Francisco e assinada pelo prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, o cardeal Victor Manuel Fernández, que autoriza os padres a oferecer bênçãos espontâneas e não litúrgicas a casais “irregulares” ou do mesmo sexo, sem que tal valide o seu estatuto perante a Igreja. O documento, conhecido por Fiducia supplicans, destaca que tais bênçãos não devem ser “ritualizadas” nem se podem tornar um “ato litúrgico ou semilitúrgico, semelhante a um sacramento.” O texto diz ainda que, “para evitar qualquer forma de confusão ou escândalo, quando a oração de bênção é pedida por um casal em situação irregular, mesmo que seja expressa fora dos ritos prescritos pelos livros litúrgicos, esta bênção nunca deve ser dada em conjunto com as cerimónias de uma união civil, e nem mesmo em ligação com elas. Nem pode ser realizada com roupas, gestos ou palavras próprias de um casamento”, exemplificando que a bênção pode acontecer em contextos “como uma visita a um santuário, um encontro com um sacerdote, uma oração recitada em grupo ou durante uma peregrinação.”
No caso de Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez, a bênção realizou-se no dia do casamento civil, e se os dois não usavam roupas de casamento, pelo menos a noiva estava de branco. A agora mulher do jogador português vestiu um coordenado de saia e blazer da Gucci, casa italiana que vestiu toda a família — e que testemunhou o romance entre os dois nascer e aflorar há uma década, na boutique da Calle Serrano de Madrid.
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