A aristocracia arruinada: o futuro político da classe média

Durante anos habituámo-nos a medir o progresso de Portugal através dos salários, do emprego, do crescimento económico e da inflação. Mas talvez esses indicadores já não expliquem totalmente o país que temos à frente dos olhos.
Basta observar o quotidiano das grandes áreas urbanas. Colégios privados, casas em zonas valorizadas, férias no estrangeiro, automóveis de gama média e alta e padrões de consumo que sugerem prosperidade. No entanto, uma pergunta incómoda impõe-se: quantas destas famílias vivem exclusivamente dos rendimentos que auferem todos os meses?
Uma parte crescente desse conforto não assenta apenas no trabalho atual. Assenta em património acumulado pelos pais e avós, em heranças, em ajuda financeira familiar e, muitas vezes, em crédito. A investigação europeia mostra que as transferências intergeracionais desempenham um papel crescente na distribuição da riqueza, sendo responsáveis por uma parcela substancial da desigualdade patrimonial em vários países desenvolvidos.
Portugal não está sozinho. Espanha, Itália e Grécia fazem parte do chamado modelo familiarista de bem-estar, no qual a família desempenha funções que, no Norte da Europa, são frequentemente asseguradas pelo Estado. Os pais e os avós financiam a entrada para a habitação, apoiam os filhos durante os períodos de desemprego e ajudam a sustentar os netos.
Os números ajudam a perceber a dimensão do fenómeno. Em Itália, mais de 67% dos jovens entre os 18 e os 34 anos vivem com os pais, reflexo da dificuldade em alcançar autonomia económica. Em Espanha, muitos jovens trabalhadores gastam mais de metade do rendimento com a habitação nas grandes cidades. Na Grécia, durante a crise da dívida soberana, as pensões dos avós tornaram-se o principal sustento de inúmeras famílias. Quando essas pensões foram reduzidas, o impacto social foi devastador.
Portugal é um caso particularmente interessante porque reúne os problemas do Sul da Europa com salários significativamente mais baixos. A geração que trabalhou entre os anos 80 e o início dos anos 2000 beneficiou da valorização imobiliária, da expansão do ensino superior e de décadas de convergência económica com a Europa. Muitos conseguiram acumular património. Os seus filhos herdaram não apenas bens, mas também expectativas.
O problema surge quando essas expectativas encontram uma realidade económica diferente. Os jovens adultos enfrentam hoje preços da habitação historicamente elevados, carreiras mais instáveis e uma crescente dificuldade em transformar qualificações académicas em prosperidade material.
É aqui que surge aquilo a que poderíamos chamar a aristocracia arruinada.
Não se trata de pobreza. Trata-se de uma classe média que mantém hábitos, gostos, qualificações e expectativas de conforto, mas cuja base económica se tornou progressivamente mais frágil. O carro é financiado. A entrada da casa exige ajuda familiar. A educação privada dos filhos é frequentemente suportada pelos avós. As férias sobrevivem através do crédito ou do património acumulado pelas gerações anteriores.
Enquanto existir riqueza herdada, o modelo funciona. Mas nenhuma sociedade pode viver indefinidamente da riqueza criada pelos seus pais.
A investigação académica mostra que esta realidade tem consequências políticas. O estudo The Anxious Middle Class: Risk of Downward Mobility and Support for Radical Right Parties across Western Europe, da economista Judith Derndorfer, conclui que o receio da mobilidade descendente e da perda de estatuto social está associado ao crescimento do apoio a partidos radicais em treze países da Europa Ocidental.
Historicamente, a radicalização política raramente nasceu apenas da pobreza. Surge sobretudo quando a realidade deixa de corresponder às expectativas. Durante décadas, muitas famílias portuguesas conseguiram preservar o seu estatuto social graças à ajuda dos pais e dos avós. Essa rede familiar funcionou como um amortecedor invisível das fragilidades da economia portuguesa.
Mas a questão decisiva está na geração seguinte. À medida que as heranças se esgotarem, os patrimónios forem divididos e desaparecer a geração que acumulou riqueza, muitos portugueses deixarão de ter a ajuda que permitiu sustentar um determinado modo de vida. Pela primeira vez, uma parte significativa da classe média terá de viver apenas daquilo que consegue ganhar.
É precisamente dessa geração que poderá surgir a maior radicalização política. Não da geração que recebeu ajuda, mas da geração que deixou de a receber. Pessoas educadas com expectativas de mobilidade ascendente, mas confrontadas com salários insuficientes, habitação inacessível e um nível de vida inferior ao dos seus pais.
Talvez esta seja a verdadeira transformação silenciosa da sociedade portuguesa. A clivagem decisiva das próximas décadas poderá não ser entre esquerda e direita, nem sequer entre ricos e pobres. Poderá ser entre os últimos herdeiros de um país que acumulou riqueza e os primeiros filhos de um país que já a consumiu.
Porque uma sociedade pode viver durante algum tempo da riqueza dos seus pais. O que não pode fazer indefinidamente é substituir a criação de riqueza pelo consumo do património herdado.
E, mais cedo ou mais tarde, descobrirá que os avós não são uma política económica.
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