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Friday, October 9, 2026

Pacientes com dengue chegam em estado mais grave às UTIs do SUS do que na rede privada, diz estudo

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Adultos com dengue que chegam às UTIs da rede pública são mais jovens que os da rede privada, mas apresentam quadro mais grave. Um em cada cinco precisou ser intubado no primeiro dia de UTI, ante 4 em cada 100 nos hospitais privados, segundo estudo publicado em agosto no Journal of Critical Care.

O levantamento, feito por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita e do IDOR (Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino), analisou internações de adultos com dengue em UTIs de 2015 a 2024. Para os autores, a maior gravidade na rede pública pode estar relacionada a uma demora maior para chegar à terapia intensiva.

Essa é uma hipótese, já que o estudo não mediu o intervalo entre o início dos sintomas e a internação. "O que o estudo nos permite afirmar é que os pacientes internados nessas unidades eram mais graves do que os admitidos em hospitais privados", diz o intensivista Luciano Azevedo, pesquisador do Einstein e autor principal do artigo.

A análise usou duas bases: o registro UTIs Brasileiras, que reúne hospitais públicos e privados, e o Datasus, com internações do SUS ou de UTIs conveniadas ao sistema público. No registro, foram 32.016 internações e 2.593 mortes (8,1%). Eram 3.682 internações e 889 mortes na rede pública e 28.334 internações e 1.704 mortes na privada.

O Datasus reúne dados de 1.610 hospitais ligados ao SUS e registrou 11.241 internações e 2.091 mortes (18,6%). As bases não foram somadas porque um mesmo paciente pode aparecer mais de uma vez ou nas duas fontes.

No registro UTIs Brasileiras, a idade mediana dos pacientes da rede pública era de 50 anos, contra 54 na privada. Ainda assim, eles chegavam com mais sinais de falência de órgãos. Nas primeiras 24 horas de UTI, 22,4% precisaram de medicamentos para sustentar a pressão arterial, ante 5,3% na rede privada. A hemodiálise foi necessária em 4,7%, contra 1,3%.

O cardiologista Henrique Fonseca, pesquisador do Einstein e coautor, diz que o paciente da rede pública muitas vezes passa por UBS (Unidade Básica de Saúde) e UPA (Unidade de Pronto Atendimento) antes de chegar ao hospital, enquanto quem tem plano tende a ir direto ao pronto-socorro. Segundo ele, esse percurso pode contribuir para a chegada em estado mais grave.

"Como a vaga é escassa, ele fica no sistema esperando a regulação. Nesse momento, ele não está no ambiente de terapia intensiva", afirma Azevedo.

No registro UTIs Brasileiras, a maior taxa de morte foi entre os pacientes que precisaram de vasopressores, medicamentos que ajudam a manter a pressão arterial, no primeiro dia de UTI. Nesse grupo, 54,6% morreram durante a internação. O uso desses medicamentos indica choque circulatório, quando a circulação não consegue levar sangue suficiente aos órgãos.

O risco aumentou com a idade. No registro, a mortalidade foi de 3,5% entre menores de 40 anos, 6,3% entre 41 e 65 e 14,4% entre maiores de 65. No Datasus, as taxas foram de 10%, 18% e 30%, respectivamente.

Segundo Fonseca, idosos podem ter maior risco por apresentarem menor reserva fisiológica e mais doenças cardíacas ou pulmonares.

O protocolo do Ministério da Saúde já prevê atenção diferenciada para maiores de 65 anos, gestantes, bebês e pessoas com doenças como diabetes, hipertensão e insuficiência renal. Mesmo sem sinais de alarme, esses pacientes devem ficar em observação até o resultado dos exames e retornar para reavaliação diária.

A dengue é transmitida pela picada da fêmea infectada do mosquito Aedes aegypti. A doença costuma começar com febre alta, que dura de dois a sete dias. A fase crítica geralmente ocorre quando a febre cede, entre o terceiro e o sétimo dia após o início dos sintomas.

Nesse período, podem surgir sinais de alarme como dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramento de mucosas, tontura ao levantar e sonolência ou agitação. Segundo o Ministério da Saúde, o choque pode se instalar rapidamente e levar à morte em 12 a 24 horas.

Em 2025, o Brasil registrou 1.821 pessoas mortas pela infecção. Mais de 1,4 milhão de pessoas tiveram a doença. Fonseca considera a vacinação em massa a principal forma de reduzir casos, sobretudo os graves, mas afirma que a oferta ainda não permite imunizar toda a população.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou a vacina do Instituto Butantan de dose única em novembro de 2025 para pessoas de 12 a 59 anos. O imunizante começou a ser aplicado no SUS em janeiro, na população de 15 a 59 anos de três municípios, e depois foi estendido a profissionais da atenção primária.

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A vacinação, porém, está suspensa desde junho, com investigação em andamento de casos graves associados temporalmente à vacina, incluindo duas mortes.

A outra vacina da rede pública, a Qdenga, da farmacêutica japonesa Takeda, segue sendo aplicada em adolescentes de 10 a 14 anos. Nenhuma das duas está indicada para idosos, a faixa etária de maior risco no estudo.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

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