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Thursday, October 22, 2026

Antes da cadeira de CEO, ela foi diretora de RH: 'Foi a experiência que mais me ensinou a liderar'

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Antes de chegar à presidência da Beiersdorf no Brasil, multinacional alemã dona das marcas Nivea e Eucerin, Ana Bógus passou por diferentes empresas e áreas de negócios, incluindo marketing, vendas e recursos humanos. Mas foi justamente a experiência de dois anos e meio como diretora de RH que, segundo ela, mais contribuiu para prepará-la para a cadeira de CEO.

"Foi a maior experiência que eu tive, a que mais me ajudou a sentar na cadeira de CEO", afirma a executiva em entrevista ao De Frente com CEO, videocast da EXAME que entrevista os principais líderes empresariais do Brasil.

Com 23 anos de carreira no setor de bens de consumo, Bógus começou sua trajetória na Nestlé, passou 12 anos na Kimberly-Clark, liderou a operação da Havaianas e, no fim de 2023, chegou à Beiersdorf, tornando-se a primeira mulher a assumir a presidência da companhia no Brasil.

A experiência no RH aconteceu durante sua passagem pela Kimberly-Clark, antes de assumir, em 2012, a presidência da operação da multinacional no Chile.

Até então, sua carreira havia sido construída principalmente em áreas diretamente ligadas aos resultados comerciais. No RH, porém, ela descobriu uma nova maneira de exercer a liderança.

"A posição de RH te leva para um lugar de liderança por influência, não liderança por hierarquia", diz.

Segundo a executiva, enquanto nas áreas de marketing e vendas os resultados dependiam diretamente de suas ações, em recursos humanos era necessário influenciar outros líderes para que as mudanças acontecessem.

"Eu saí desse lugar de ação e fui para um lugar de influência. Realmente aprendi a liderar influenciando as pessoas, liderar através das pessoas", afirma.

A experiência também mudou sua percepção sobre o papel estratégico do RH dentro das empresas. Hoje, na presidência da Beiersdorf, Bógus considera a área uma das principais parceiras na tomada de decisões.

"RH está sentado do meu lado esquerdo o tempo inteiro. É o meu braço do coração", diz.

Para ela, a área de recursos humanos, ao lado do CEO, tem uma das visões mais completas sobre o funcionamento da companhia, especialmente em um ambiente corporativo no qual os departamentos podem acabar trabalhando de maneira isolada.

De primeira gerente mulher à presidência de uma multinacional

Nascida em São Paulo, filha de pai descendente de libaneses e mãe descendente de portugueses, Ana Paula Bógus atribui parte de sua trajetória profissional a duas características que aprendeu em casa: curiosidade e coragem.

A mãe, que trabalhava como bibliotecária, decidiu mudar de profissão depois dos 50 anos e se tornou sommelier, atividade que exerceu até os 76. O pai começou a empreender aos 19 anos e construiu o próprio negócio.

"Meu pai tem o lema da coragem e curiosidade. A resiliência dele é um exemplo para mim", afirma.

A carreira de Bógus começou na Nestlé, na área de trade marketing, onde, segundo ela, se tornou a primeira mulher a ocupar uma posição de gerência. Depois de seis anos, ingressou na Kimberly-Clark, companhia na qual permaneceu por 12 anos e assumiu posições de liderança na América Latina.

Ao longo dessa trajetória, ocupou diferentes cargos antes exercidos apenas por homens, experiência que considera uma responsabilidade para abrir caminho a outras profissionais.

"É uma grande responsabilidade ser a primeira, de fazer daquela posição uma posição de impacto, uma posição de exemplo para que muitas outras possam vir e que deixe de ser notícia", diz.

Além da curiosidade e da coragem, a executiva aponta uma terceira característica que considera fundamental para chegar à liderança: construir conexões genuínas.

Muitas oportunidades profissionais, segundo Bógus, surgiram a partir de recomendações de antigos gestores e pessoas com quem trabalhou.

"As conexões genuínas são o motor de crescimento pessoal e profissional de cada um de nós", afirma.

Veja também: A nova fórmula da Nivea para crescer no mundo vem do Brasil: ‘Já somos o 2º maior mercado’, diz CEO

Os 1.137 comentários que fizeram a CEO mudar sua liderança

Apesar da experiência acumulada em grandes empresas, Bógus conta que enfrentou um desafio inesperado quando assumiu a presidência da Beiersdorf no Brasil.

"O maior desafio fui eu mesma", afirma.

Antes de chegar à multinacional alemã, a executiva havia passado por uma startup e pela liderança da Havaianas, experiências que exigiam velocidade, agilidade e decisões rápidas.

Ao assumir uma companhia centenária, levou consigo esse mesmo ritmo de gestão.

No início de 2024, a Beiersdorf estava sem dois executivos importantes nas áreas de vendas e marketing. Bógus passou então a acompanhar diretamente gestores intermediários, fazendo perguntas e buscando acelerar mudanças.

O problema apareceu meses depois. Em novembro daquele ano, uma pesquisa interna de clima organizacional trouxe 1.137 comentários dos funcionários. Para a presidente, o resultado mostrou que sua maneira de liderar precisava mudar.

"Foi o meu maior balizador de que não estava funcionando daquela forma", afirma.

A executiva decidiu buscar ajuda de um mentor que a acompanha há quase 25 anos, iniciou um processo de coaching e passou a estudar neurociência para entender melhor suas próprias reações e comportamentos.

Também retomou a rotina de exercícios físicos, que havia deixado de lado durante aquele ano.

"Foi uma jornada de pausa para ganhar potência", diz.

A experiência reforçou uma das principais lições que havia aprendido na área de recursos humanos: a importância de ouvir as pessoas e construir um ambiente em que os funcionários tenham liberdade para apresentar opiniões, inclusive quando discordam da liderança.

"Se você está ali com muita força ou muito fechada para receber feedback, o time não vai poder te ajudar e você vai estar se sentindo sozinho", afirma.

A abertura para receber críticas e pedir ajuda, segundo Bógus, foi decisiva para mudar sua atuação à frente da companhia ao longo de 2025 e 2026.

Veja também: ‘Saúde não é só física, é também mental e social’, diz presidente do Grupo Fleury

'A vida não é sobre equilíbrio, é sobre prioridades'

Além dos desafios comerciais, Bógus considera a saúde mental uma das principais responsabilidades dos líderes atualmente.

Para ela, criar um ambiente de segurança psicológica, no qual os funcionários possam apresentar ideias e participar das decisões, é essencial para melhorar a produtividade e os resultados das empresas.

"A grande característica que um líder e um funcionário precisam entender hoje é a relevância da saúde mental para que as companhias possam performar", afirma.

Essa preocupação também aparece em sua rotina pessoal.

Mãe de um adolescente de 15 anos, a executiva procura manter uma agenda que inclua exercícios físicos cinco vezes por semana, momentos em família e uma rotina de cuidados com a pele.

Na Beiersdorf, trabalha presencialmente três dias por semana, seguindo o modelo híbrido adotado pela companhia. Também procura encerrar o expediente até as 19 horas para passar mais tempo com a família.

"A vida não é sobre equilíbrio. A vida é sobre prioridades", afirma.

Para ela, mais importante do que tentar dividir o tempo igualmente entre trabalho e vida pessoal é estar presente nas atividades escolhidas.

Essa filosofia também se aplica à liderança. Durante viagens profissionais, por exemplo, Bógus procura aproveitar o tempo com os vendedores e demais funcionários para conversar e conhecer melhor suas experiências, em vez de permanecer respondendo mensagens no celular.

Ao olhar para sua trajetória, a executiva afirma que continua seguindo um conselho recebido do pai ainda na infância.

"Se os outros podem, você também pode. Filha, seja curiosa e tenha confiança."

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