Você vai mudar mais do que imagina, mostra estudo de Harvard com 19 mil pessoas
RESUMO | Quase todo mundo reconhece que mudou muito nos últimos dez anos, mas aposta que vai mudar pouco nos próximos dez. Pesquisadores de Harvard e da Universidade da Virgínia chamaram o fenômeno de ilusão do fim da história, em estudo com cerca de 19 mil pessoas publicado na revista Science. O erro aparece em todas as idades e afeta personalidade, valores e gostos. Ele tem até custo: os participantes aceitavam pagar 61% a mais para ver no futuro a banda de que gostam hoje. Para quem está escolhendo os primeiros caminhos da carreira, o dado lembra que a pessoa que vai viver essas escolhas ainda está em formação.
Pergunte a alguém de 30 anos o quanto ele mudou desde os 20, e a resposta provavelmente será “muito”. Pergunte o quanto vai mudar até os 40, e a resposta tende a ser “pouco”. A diferença entre as duas respostas tem nome: ilusão do fim da história. O fenômeno foi descrito em 2013 na revista Science por Jordi Quoidbach e Daniel Gilbert, da Universidade Harvard, e Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia, a partir de questionários respondidos por cerca de 19 mil pessoas de 18 a 68 anos.
Em todas as faixas etárias, os participantes disseram ter mudado bastante na década anterior e previram mudar relativamente pouco na seguinte. Segundo os autores, as pessoas enxergam o presente como um ponto de virada, o momento em que finalmente se tornaram quem serão pelo resto da vida.
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Como os pesquisadores mediram a mudança
O desenho do estudo compara dois grupos. Uma pessoa de 20 anos, por exemplo, previa quanto mudaria até os 30. Outra, de 30, contava quanto tinha mudado desde os 20. Se as previsões fossem precisas, as duas respostas deveriam ser parecidas. Não eram: quem previa o futuro sempre estimava menos mudança do que quem olhava para o passado.
O efeito apareceu em três dimensões:
- Personalidade, medida por um questionário de traços como abertura, responsabilidade e estabilidade emocional.
- Valores, os princípios que cada pessoa considera mais importantes na vida.
- Preferências, como música, tipo de férias, comida, hobby e até o melhor amigo.
Os pesquisadores também conferiram se o problema estava na memória. Para isso, compararam os relatos de mudança com dados de outro levantamento americano, que acompanhou as mesmas pessoas por dez anos. Os relatos sobre o passado bateram com a mudança real. As previsões sobre o futuro ficaram abaixo dela.
O efeito diminui com a idade, mas não some nem depois dos 50 anos.
61% a mais por um show
A ilusão tem consequência prática. Em um dos experimentos, os participantes disseram quanto pagariam, daqui a dez anos, para ver um show da banda de que mais gostam hoje: em média, US$ 129. Outro grupo disse quanto pagaria agora para ver a banda de que mais gostava dez anos atrás: US$ 80.
A diferença, de 61%, mostra que as pessoas pagam caro para garantir no futuro um gosto que, muito provavelmente, vai mudar. Para os autores, a ilusão leva as pessoas a pagar caro hoje por oportunidades de satisfazer, no futuro, gostos que provavelmente não vão durar.
Por que caímos nessa
Os pesquisadores levantam duas explicações. A primeira é que as pessoas gostam de quem são no momento: acham a própria personalidade atraente, os valores admiráveis e as preferências sensatas. Também gostam de acreditar que se conhecem bem.
A segunda é que imaginar uma mudança futura é mais difícil do que lembrar uma mudança passada. Segundo os autores, as pessoas confundem a dificuldade de imaginar a mudança com a improbabilidade de ela acontecer.
“A história, ao que parece, está sempre terminando hoje”, escrevem os pesquisadores no artigo.
O que isso muda nas escolhas de carreira
O estudo não trata de trabalho, mas a lógica se aplica a decisões que muita gente toma cedo: o curso da faculdade, a primeira área de atuação, o tipo de empresa onde quer construir carreira.
Quem escolhe aos 20 anos tende a decidir como se a pessoa de 30 fosse ter os mesmos gostos e prioridades. A pesquisa sugere que não terá. Isso não torna as escolhas de hoje erradas. Torna arriscado tratá-las como definitivas.
Algumas atitudes ajudam a levar o achado em conta:
- Olhe para trás antes de olhar para frente. Listar o que mudou nos últimos cinco anos, em interesses, amizades e objetivos, dá uma medida mais realista do quanto você ainda pode mudar.
- Prefira decisões que deixam portas abertas. Habilidades que servem a vários caminhos, como comunicação, análise de dados e idiomas, rendem mesmo se o objetivo mudar.
- Revise o plano de tempos em tempos. Um plano de desenvolvimento feito hoje é uma hipótese, e pode ser atualizado quando você mudar.
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Autoconhecimento também é saber que você muda
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