Exame para revelar a idade real do corpo vira aposta de R$ 160 milhões da dona do Delboni e Alta
RESUMO +
Após faturar R$ 11,17 bilhões em 2025, a Dasa, maior empresa de medicina diagnóstica do Brasil, prevê mais de R$ 160 milhões em receitas em cinco anos com produtos de longevidade do Alta Diagnósticos, sua marca premium. A estratégia inclui exame de idade biológica por telômeros, núcleo de memória, check-ups segmentados, acompanhamento metabólico e ampliação dos serviços domiciliares.
Longevidade virou o assunto do momento.
Exames para entender como o corpo envelhece, alimentação personalizada, acompanhamento do metabolismo e serviços para preservar a saúde por mais tempo entraram no radar de médicos, empresas e consumidores.
O movimento acompanha uma mudança simples: as pessoas vão viver mais. E uma parcela delas está disposta a gastar para tentar viver melhor.
A maior empresa de medicina diagnóstica do Brasil está com os dois olhos nessa tendência. A Dasa, dona de marcas como Delboni, Lavoisier, Sérgio Franco e Alta Diagnósticos, registrou receita líquida de vendas e serviços de 11,17 bilhões de reais em 2025.
Agora, quer usar o Alta, sua bandeira voltada ao público premium, para avançar em exames, check-ups e serviços ligados à longevidade.
Há dinheiro nessa conta. A empresa estima um potencial de captura de mais de 160 milhões de reais em receita nos primeiros 5 anos com novos produtos relacionados ao envelhecimento saudável. Uma das primeiras novidades é um exame que compara a idade biológica do organismo com a idade cronológica a partir da análise dos telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos.
“Vivemos hoje no mercado um hype gigante onde se fala de longevidade com todo tipo de coisa. E optamos, nas nossas discussões estratégicas, por buscar soluções que tivessem rigor técnico. O exame dos telômeros é um exemplo disso”, afirma Claudia Cohn, diretora executiva do Alta Diagnósticos e diretora de negócios institucionais da Dasa.
O plano vai além de um novo exame.
O Alta quer aumentar a oferta de serviços, ampliar o atendimento fora de suas unidades e criar produtos para diferentes momentos da vida. A expansão física continuará, mas a companhia vê mais espaço para crescer levando exames e outros procedimentos até casas, escritórios e condomínios.
Por que a longevidade entrou no radar da Dasa
A demografia ajuda a explicar a aposta.
Segundo projeções do IBGE citadas pela companhia, a população brasileira com mais de 60 anos deve triplicar até 2050. A Dasa também afirma que os gastos em saúde da população com mais de 50 anos somaram 247 bilhões de reais em 2024 e podem crescer mais de 120% até 2044.
É uma mudança que afeta diretamente o negócio de diagnósticos. Uma população mais velha tende a conviver por mais tempo com doenças crônicas e precisa acompanhar indicadores de saúde com maior frequência.
Mas há outro movimento acontecendo ao mesmo tempo. Uma parcela dos consumidores passou a buscar exames antes do aparecimento de uma doença. Quer entender metabolismo, riscos genéticos, saúde cognitiva e sinais associados ao envelhecimento.
É justamente esse público que o Alta tenta capturar.
“Tem que olhar as tendências do mercado”, afirma Claudia. “A gente tem o crescimento tradicional da solicitação do médico, mas também tem demandas. Tivemos digitalização e muitos pacientes fazem agendamentos digitalmente. Temos tanto a experiência quanto soluções diagnósticas e procedimentos para que esse paciente seja bem cuidado.”
A estratégia coloca o Alta no encontro de dois mercados: o de medicina diagnóstica e o de wellness, conjunto de produtos e serviços voltados ao bem-estar e à manutenção da saúde.
A Dasa, porém, tenta estabelecer uma fronteira para essa atuação. Claudia afirma que o laboratório não pretende ocupar o lugar do médico que acompanha o paciente.
“Para a longevidade, nós não somos uma solução completa. Somos um apoio diagnóstico para o médico que trata, cuida e trabalha longevidade. Somos uma parte de um elo”, afirma.
Um exame para descobrir a idade do corpo
A principal novidade dessa frente é o exame de Idade Biológica por Comprimento de Telômero.
Os telômeros são estruturas que protegem as extremidades dos cromossomos e tendem a encurtar ao longo da vida. O exame busca estimar a idade biológica do organismo e compará-la à idade registrada na certidão de nascimento.
O teste chega ao Alta por meio de uma parceria com a espanhola Life Length, especializada na análise de telômeros.
A proposta não é dizer quanto tempo uma pessoa vai viver. Segundo Claudia, a informação deve servir como mais um indicador para o médico definir estratégias individualizadas de acompanhamento.
“Ele é muito personalizado, o que traz a possibilidade de um trabalho personalizado junto ao seu médico e aos profissionais que cuidam”, afirma. “Esse nicho que usa o Alta está muito demandante de coisas desse tipo, que sejam personalizadas e menos pela estatística de ‘você tem uma probabilidade de ter isso ou aquilo’.”
A incorporação do teste também conecta o Alta à Dasa Genômica, braço do grupo dedicado a análises genéticas e genômicas. A divisão possui mais de 750 exames cadastrados.
De memória a canetas emagrecedoras
A estratégia de longevidade não começou com os telômeros.
O Alta criou, por exemplo, um núcleo de memória para investigar alterações cognitivas e sinais que podem estar relacionados a doenças como Alzheimer e outras demências.
O serviço reúne neurologista clínico, psicólogo e testes específicos. O objetivo é produzir informações para que o médico responsável pelo paciente consiga definir os próximos passos.
“Existem pequenos sinais em que não há entendimento do que aquele sinal significa. A depressão pode até ser um primeiro sinal e sintoma de algumas doenças”, afirma Claudia. “Nosso núcleo da memória tem neurologista clínico, psicólogo, vários profissionais e testes específicos que ajudam no diagnóstico.”
Outro caminho são os check-ups segmentados.
O Alta oferece desde check-up executivo até avaliações voltadas a atletas. A intenção é criar pacotes menos genéricos e mais relacionados ao perfil e ao momento de cada cliente.
Até o avanço das canetas emagrecedoras entrou na conta.
A companhia possui o Genera Metabolic, exame voltado ao acompanhamento do metabolismo. A ideia é reunir informações que possam ser usadas pelo médico para acompanhar pacientes, inclusive aqueles que utilizam medicamentos para perda de peso.
“Nós temos um acompanhamento para que o médico tenha todos os parâmetros históricos necessários”, afirma Claudia.
Menos laboratórios, mais serviços
O Alta nasceu dentro da Dasa em 2013 como uma tentativa de ocupar o segmento premium de diagnósticos. Hoje são 20 unidades: 15 em São Paulo e 5 no Rio de Janeiro.
A marca também leva parte de seus serviços até o cliente. Além da coleta de exames, oferece em domicílio procedimentos como ultrassom, eletrocardiograma e infusão, de acordo com a disponibilidade e indicação de cada serviço.
A próxima fase de crescimento deve aprofundar esse modelo.
“A gente pretende crescer em serviços”, afirma Claudia. “Vamos ampliar os serviços domiciliares até pelas tendências. A gente vê esse nicho da população em alguns condomínios e locais importantes.”
Novas unidades continuam no radar, mas não devem ser a principal alavanca de expansão.
“Vamos crescer em unidades também, mas menos em número de unidades do que em prestação de serviços e serviços de conveniência”, afirma.
Por enquanto, o foco geográfico continua em São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo Claudia, há demanda para levar o Alta a outras cidades, mas a empresa entende que ainda existe espaço para avançar nas duas praças onde já opera.
A terceira fase do Alta
A mudança também revela um novo papel do Alta dentro da Dasa.
Claudia divide a trajetória da marca em três momentos. Primeiro veio a criação e a adaptação da própria Dasa ao mercado premium. Depois, uma fase de abertura de unidades para alcançar escala. Agora, a companhia entrou em uma etapa mais seletiva.
“O Alta veio ganhando relevância dentro da Dasa. A primeira onda foi uma onda de aculturamento para trabalhar nesse segmento. A segunda foi de expansão e crescimento natural, que precisava acontecer para ter um mínimo de capilaridade”, afirma Claudia.
A terceira etapa muda o foco.
“Essa terceira onda que nós estamos vivendo é uma onda em que a gente estuda muito mais onde crescer com serviços que hoje são demandados e incorporados”, afirma.
É nesse ponto que longevidade e luxo se encontram na estratégia da companhia.
O público que a marca disputa já conta com laboratórios e hospitais de referência à disposição. Por isso, colocar máquinas mais modernas dentro de uma unidade não basta. A disputa passa pela conveniência, pelo atendimento, pela personalização dos exames e, sobretudo, pela confiança dos médicos que prescrevem os testes.
A própria Dasa tem escala para sustentar essa tentativa. O grupo afirma atender mais de 44 milhões de pacientes, reunir mais de 40 marcas de medicina diagnóstica e genômica e realizar mais de 450 milhões de exames por ano. São 840 unidades espalhadas por 13 estados e pelo Distrito Federal.
A briga pelo cliente premium
A longevidade também coloca o Alta em um mercado disputado por grupos que enxergam o consumidor de maior renda como uma oportunidade de aumentar a oferta de serviços.
Para Claudia, o desafio é fazer com que o cliente permaneça ligado à marca mesmo em um cenário no qual seus dados de saúde poderão circular com mais facilidade entre diferentes empresas.
Ela cita o avanço do open care, modelo de compartilhamento e interoperabilidade de informações de saúde, como uma mudança que tende a diminuir o peso do histórico de exames como ferramenta de fidelização.
“No passado, muitas pessoas ficavam em um player por causa dos seus dados: ‘meus exames estão ali’. Isso vai acabar”, afirma. “Então é realmente o vínculo com a marca, com a experiência e, principalmente, talvez eu possa colocar como motivo principal, a referência médica.”
'Perguntas frequentes'
Quanto a Dasa espera faturar com produtos de longevidade? +
A Dasa estima um potencial de mais de R$ 160 milhões em receitas nos primeiros cinco anos com novos produtos relacionados ao envelhecimento saudável.
Como funciona o exame de idade biológica do Alta Diagnósticos? +
O exame analisa o comprimento dos telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos, para estimar a idade biológica do organismo e compará-la à idade cronológica. O teste chegou ao Alta Diagnósticos por meio de uma parceria com a espanhola Life Length.
O exame de telômeros indica quanto tempo uma pessoa vai viver? +
Não. Segundo Claudia Cohn, diretora executiva do Alta Diagnósticos e diretora de negócios institucionais da Dasa, o resultado deve servir como um indicador para o médico definir estratégias individualizadas de acompanhamento.
Por que a Dasa decidiu investir no mercado de longevidade? +
Segundo projeções do IBGE citadas pela Dasa, a população brasileira com mais de 60 anos deve triplicar até 2050. A companhia afirma ainda que os gastos em saúde das pessoas com mais de 50 anos somaram R$ 247 bilhões em 2024 e podem crescer mais de 120% até 2044.
Quais serviços de longevidade o Alta Diagnósticos oferece? +
O Alta Diagnósticos reúne exame de idade biológica, núcleo de memória, check-ups segmentados e o Genera Metabolic, voltado ao acompanhamento do metabolismo. O núcleo de memória conta com neurologista clínico, psicólogo e testes para investigar alterações cognitivas e sinais associados a Alzheimer e outras demências.
Como o Alta Diagnósticos pretende expandir sua atuação? +
O Alta Diagnósticos pretende ampliar exames e procedimentos em casas, escritórios e condomínios, além de abrir novas unidades de forma mais seletiva. Segundo Claudia Cohn, o foco geográfico permanece em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde a marca possui 20 unidades.
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