As polêmicas sem fim do futebol mostram por que o jornalismo importa


2026 estava destinado a ser um grande ano de manchetes sobre futebol. Até agora, correspondeu às expectativas: a Copa do Mundo masculina rendeu glória e polêmica, às vezes em doses iguais. Mas as capas dos jornais e as páginas de esporte também foram dominadas por questões fora de campo, em especial pelos atos de quem tem a missão de governar o esporte mais popular do mundo. Sem jornalismo profissional, só saberíamos quando já fosse tarde demais.
Foi graças a jornalistas, inicialmente do The Times e do Financial Times, que se revelou a proposta do presidente da FIFA, Gianni Infantino, de vender a Copa do Mundo. Avaliada em US$ 20 bilhões, a subsidiária FIFA Forward Enterprise (FFE) administraria os direitos comerciais e operacionais de todas as competições da entidade. Com a meta de captar junto a investidores 20% do valor da empresa (US$ 4,2 bilhões), o plano na prática entregaria o futebol a interesses privados.
Só um pequeno círculo interno sabia da ideia. A FIFA não havia feito nenhum anúncio público, e até alguns dos principais dirigentes da entidade só souberam do plano pela imprensa. Poucos dias depois de ele vir a público, diante da pressão crescente de todos os cantos do mundo do futebol, inclusive de muitas federações filiadas à própria FIFA, o plano foi abandonado.
Mas a história não vai desaparecer.
Abandonado não é o mesmo que enterrado. Tampouco desapareceram as falhas de governança que tornaram possível uma tentativa tão danosa.
As críticas à proximidade de Infantino com o governo dos Estados Unidos são amplas. Vieram antes da Copa (basta lembrar o Prêmio da Paz da FIFA, em dezembro de 2025), durante o torneio (o presidente americano ligou pessoalmente para Infantino para anular o cartão vermelho de um jogador dos EUA) e depois dele (uma das figuras centrais do projeto FFE era Joshua Kushner, irmão do genro do presidente americano). Diante disso, o escrutínio certamente vai continuar.
Jornalistas não desistem fácil. Vão continuar investigando o sigilo em torno dos negócios da FIFA, porque o público tem o direito de saber como, e no interesse de quem, o futuro do futebol está sendo desenhado, e para onde vão os bilhões de dólares que o esporte movimenta.
Mesmo assim, quase nada dessa persistência virou manchete. As reportagens que trouxeram o plano à tona, assim como o trabalho que vai manter a história viva, passam quase totalmente despercebidas.
As organizações jornalísticas são muito boas em contar as histórias dos outros, mas não chegamos nem perto disso ao contar as nossas. Esse é um dos motivos pelos quais, todo 28 de setembro, organizações jornalísticas do mundo inteiro se unem para celebrar o World News Day: para tornar visível o trabalho investido em cada reportagem.
A investigação sobre a FIFA é um exemplo claro. Passei a maior parte da vida no jornalismo e sei quanto esforço uma reportagem dessas exige, e como é raro o público ver o que acontece nos bastidores.
Alguém teve de perceber, investigar, checar e então publicar os fatos. Jornalistas fazem esse trabalho meticuloso sobre a FIFA há anos, uma investigação construída sobre a anterior. É isso que torna possível um nível de escrutínio como esse.
E, embora o futebol ofereça um exemplo bastante vívido, que interessa a bilhões de pessoas, a necessidade de informação verificada hoje alcança literalmente todos os desafios da sociedade.
Vivemos uma época de policrise, em que guerras, mudanças climáticas, pressões sobre a democracia e disrupção tecnológica se sobrepõem, se reforçam e se alimentam umas das outras. As pessoas precisam de mais do que um fluxo infinito de informação. Precisam de fatos em que possam confiar, de contexto que as ajude a entender o que está acontecendo e de um jornalismo que cobre o poder, esteja ele no governo ou nos escritórios de uma federação esportiva.
O avanço da inteligência artificial torna essa tarefa ainda mais urgente. A IA não produz informação confiável: ela a herda. Por trás de cada resposta confiável gerada por IA, alguém teve antes de descobrir a informação, checá-la e assumir responsabilidade pessoal e legal por ela. A história da FIFA é um exemplo claro. Nenhum algoritmo deu esse furo, porque ainda não havia nada para resumir. Nenhum comentarista, criador de conteúdo ou influenciador também. Alguém teve de ir atrás antes que qualquer pessoa confirmasse que havia ali uma história. Nenhuma máquina e nenhum comentarista podem fazer isso por nós. Esse é o trabalho do jornalista.
Não vou fingir que nosso setor sempre mereceu a confiança do público, nem que a conquistamos igualmente em todos os lugares. Erramos. Às vezes demoramos a nos corrigir. Mas ninguém mais ia contar a você sobre o plano da FIFA, e acho que vale lembrar disso na próxima vez em que você se perguntar se o jornalismo merece sua confiança e seu apoio.
É claro que o bom jornalismo vai muito além do esporte. Uma família que decide o que fazer diante de um incêndio florestal devastador depende do mesmo elemento básico em que os torcedores confiavam antes de a história da FIFA vir à tona: que alguém, em algum lugar, checou antes de publicar. Essa diferença, entre um fato que alguém verificou e outro que ninguém verificou, molda aquilo em que acreditamos e, muitas vezes, como agimos. Vale para um alerta de evacuação, o anúncio de um cessar-fogo, a convocação de uma eleição ou uma vacina contra uma nova pandemia.
O World News Day existe porque vale a pena explicar essa diferença de forma clara e em voz alta. Não para pedir sua lealdade, mas para mostrar o trabalho por trás das manchetes, que normalmente fica invisível. O que acontecia em campo estava à vista de todos, mas foram os jornalistas que abriram as portas atrás das quais as verdadeiras decisões estavam sendo tomadas, longe do interesse público. É por isso que peço que você pense nisso agora, antes que a próxima crise chegue e você sinta que não tem a quem recorrer. O jornalismo existe para trazer os fatos que definem o que importa. Para entender melhor o mundo, escolha o jornalismo confiável.
Este artigo de opinião integra a campanha do Dia Mundial do Jornalismo, uma iniciativa para mostrar o valor do jornalismo promovida pelo World Editors Forum, o Project Kontinuun e a Canadian Journalism Foundation.
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