O que ninguém falou sobre o debate

Nesta campanha, já tampamos tanto o nariz que vale a pena mais essa vez.
Além do nariz, tampe os ouvidos, para não enjoar.
Mareado foi como Lula começou o debate.
Um nervosismo inesperado para um veterano em saias-justas.
Terno abotoado. Parecia, por vezes, meio justo mesmo.
Lula estava amarrado no primeiro bloco.
A gravata apertada deu o efeito contrário ao pretendido.
O presidente parecia mais formal. Menos elegante. Old-fashioned.
O acessório listado é um velho conhecido dos brasileiros.
Azul, verde e amarelo. Está manjado. Escolhido a dedo por sua personal stylist, Janja da Silva.
O PT quer recuperar as cores que perdeu para a direita nos últimos anos.
Flávio optou pelo visual Faria Lima. Sem gravata. Camisa branca.
O figurino ressaltou a diferença de idade e mandou mensagens.
Luvas eles não usaram. Mas boxearam quase o tempo todo.
Seja por palavras, seja por gestos.
Nem uma, nem duas, nem três.
Lula colocou o dedo em riste várias vezes.
Deve ser difícil para quem tem alguém até para abrir a porta da sala não poder decidir com um tapa na mesa.
E, nessa experiência de assistir ao debate sem o som da TV, ver Lula, de 1,68 m, apontar o indicador para Flávio, de 1,80 m, gerava a impressão de uma luta desigual, que só se equilibrou quando Flávio achou que ia arrasar.
Virou uma sombra do presidente pelo estúdio.
Ria, gesticulava, macaqueava e estava sempre em quadro quando Lula falava.
A estratégia para desestabilizar um craque.
Mexeu com os nervos de vários.
Sidônio Palmeira, responsável pela campanha, estava apoplético.
Janones, com arritmia.
Haddad chegou a dar um tapinha na cara do deputado eleito Lucas Pavanatto.
E Janja teve uma crise de rinite alérgica.
Atchim!
A mesma alergia que aflige Lula nos momentos mais críticos. Ele coça a palma da mão.
Flávio sorri de novo. Ironia pouco elegante.
O eleitor percebeu.
Flávio bate palmas.
Passou do ponto.
Lula para um segundo para pensar.
Um silêncio que parecia durar horas.
E rebate com uma frase inspirada.
É a vez de Flávio apontar o dedo. Dessa vez, para a câmera para a qual Lula devia olhar.
O presidente está irritado.
Toma mais um gole de água.
Não contei quantos copos foram.
Mas ouvi de um publicitário uma observação que achei pertinente.
Lula deve ter saído do debate louco para fazer xixi.
Apertado de novo.
Lula foi apertado.
Flávio também.
Mas o estúdio era enorme.
E os dois candidatos, em alguns momentos, ficaram pertinho. Ao alcance de um selinho.
Mais fácil uma mordida.
Janja não mordeu, mas, por dentro, deve ter rosnado para a maquiadora da Band que tentou tirar o brilho da careca de Lula.
A primeira-dama logo despachou a moça:
"Não precisa."
E lá foi Lula para o ar, sem maquiagem e com o lábio mordido. No sentido figurado, é lógico.
Ele estava desconfortável.
Na plateia, todos estavam.
Além de uma atmosfera que se podia cortar com faca, uma guerra sem palavras.
A linguagem não verbal dos candidatos falou mais do que os próprios candidatos, que pouco disseram sobre o que realmente interessava.
Na sexta-feira, na Globo, tem mais.
Será?
Reportagem
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