Presidente do Náutico fala sobre salários atrasados, busca por recursos e luta contra a queda

E em meio a busca por receitas, o presidente Bruno Becker concedeu, em São Paulo, uma entrevista exclusiva ao ge para falar sobre a situação financeira do clube.
De forma transparente, o dirigente revelou qual o atual débito do clube com os atletas, como está o trabalho para sanar os atrasos, e o impacto que a proibição das bets pelo Governo Federal e da não liberação do dinheiro referente à quebra de contrato com a Arena de Pernambuco teve no orçamento.
Bruno Becker comentou também sobre os protestos dos jogadores na semana passada, que não concentraram antes da partida contra o Novorizontino (derrota por 2 a 0) e se negaram a dar entrevistas. Mas, por fim, se mostrou otimista quanto a permanência do Náutico na Série B.
Restando cinco rodadas, o time tem seis pontos de vantagem para a zona de rebaixamento e encara na próxima segunda-feira o Goiás, fora de casa.
Bruno Becker, presidente do Náutico, em coletiva no CT — Foto: Rafael Vieira/CNC
Veja os principais pontos da entrevista:
Objetivamente o que o Náutico deve hoje ao elenco profissional?
A gente tem a imagem vencida em 20 de agosto e a imagem vencida em 20 de setembro. Temos a CLT vencida agora no início de outubro. E tem a moradia que venceu-se no final de setembro. Então de uma forma geral, são duas imagens, uma CLT e uma moradia.
Para os atletas remanescentes do ano passado, a gente tinha parcelas em aberto dos acordos que a gente fez no ano passado. E que acordos são esses? Parcelas da rescisão, do décimo terceiro, férias. Fizemos esse acordo com sete ou oito atletas. Existia um atraso maior dessas parcelas, mas na semana passada, a gente conseguiu pagar, amortizar. Um grupo teve essas parcelas quitadas, porque tinha um parcelamento menor. Outra parte, a gente está com uma parcela em aberto. Mas valores de menor expressão.
Mas do principal, do que traz esse peso maior, é o que eu disse no início. São duas imagens, uma moradia e uma CLT.
Como está a busca por recursos para quitar esses débitos?

Presidente do Náutico fala sobre busca de receitas para fechar 2026
Essa semana, aqui em São Paulo, eu já tive três reuniões para trabalhar com antecipação de recebíveis. Existe a perspectiva de amanhã (esta quinta-feira) a gente fechar uma operação. Não é uma operação de crédito, não é propriamente uma antecipação.
O Náutico tem valores a receber. Por exemplo, em 2024 e 2025, nós fizemos o feirão de sócios, que gerou, por exemplo, em novembro do ano passado, R$ 3,2 milhões, se eu não me engano. E esse ano, a gente novamente vai realizar um novo feirão. Só que a conta do clube não espera chegar o feirão. Mas eu posso fazer uma operação dizendo, me antecipe esse valor do feirão, porque daqui a um mês, um mês e meio, eu vou ter a receita e eu lhe devolvo. Então, isso é um caminho.
Time do Náutico contra o Goiás pela Série B — Foto: Marlon Costa/AGIF
Um outro caminho que a gente estava seguindo e que foi noticiado até pelo presidente Evandro (Carvalho, da Federação Pernambucana) era os dos 6 milhões que o Náutico queria receber. Mas com essa proibição das bets, esse caminho foi suspenso. Então, a perspectiva que a gente tinha de receber esse valor no final de setembro não se concretizou. E aí, a gente teve que ir para um plano B, um plano C.
Outro exemplo são os direitos comerciais de televisionamento do ano que vem. Enquanto a gente não estiver matematicamente garantido a permanência na Série B, eu não consigo negociar os direitos de transmissão do ano que vem. A partir do momento que a gente consegue, eu já posso pleitear um bônus de assinatura, já posso pleitear um valor mais alto, que eu trago uma parte de uma parcela agora para arrumar alguns compromissos.
Então existem vários caminhos que a gente vem buscando, vem trabalhando. Mas às vezes isso leva um tempo maior do que a gente espera. Mas o Náutico vai ter que trabalhar nesse sentido, de ter ou uma receita extraordinária ou ter uma antecipação de alguma receita para poder fechar as contas. Isso é algo que quase todos os clubes precisam fazer.
Há algum prazo para algum pagamento ainda essa semana?
Todo mundo quer, inclusive eu, que isso seja resolvido com maior brevidade possível, para a gente ter a tranquilidade do dia a dia do clube. Mas não tem como eu cravar. O que eu posso dizer é que o dia aqui em São Paulo houve avanços. Amanhã de manhã (nesta quinta), no início da manhã, a gente segue com essas reuniões para tentar destravar. Se não tudo, uma parte, para a gente começar os pagamentos. Então, é no dia a dia. Mas eu estaria muito mais preocupado se a gente não tivesse as alternativas.
Qual o tamanho do impacto da proibição das bets na receita do clube?

Presidente do Náutico fala do impacto do fim das bets
Não só o Náutico, como todos os clubes, estão buscando repor essa perda financeira. Mas é bom lembrar, a gente tem um contrato ainda. Esse contrato do Náutico com a patrocinadora master não foi rescindido. Porque existe uma incerteza ainda se essa medida provisória vai permanecer ou não.
Então, a gente tem que ter prudência também e fazer esse cálculo. Não se arvorar em rescindir o contrato para repor com um valor mais baixo. Porque daqui a 10, 15, 20 dias, ou um mês, essa medida provisória pode não ter mais efeito, ou haver uma decisão judicial, e a gente perder um contrato maior de um parceiro antigo do clube. Estamos atento a isso. E a gente está em um trabalho de buscar outros patrocinadores para outros locais da camisa para que a gente consiga compensar.

Presidente do Náutico fala sobre bloqueio do dinheiro da Arena de Pernambuco
Impactou muito. Quando a gente fez a montagem do orçamento, a gente contava com esse débito da Arena e por uma razão simples. Primeiro, a gente tinha certeza de que conseguiríamos avançar, porque o direito Náutico é muito bom. E não é o direito de ser o credor do valor, é o direito de receber já o valor. Então a gente colocou no orçamento.
Ah, mas foi arriscado colocar? Veja, analisando agora e voltando no tempo, depois da obra pronta, fica mais fácil. Mas, se a gente não coloca esse orçamento, eu ia ter que fazer uma folha de 1 milhão de reais e talvez hoje a gente estivesse lá embaixo da tabela. Talvez já estivéssemos com a vida resolvida negativamente.
Sede do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) do Recife — Foto: Divulgação
Talvez a gente não tivesse feito um primeiro quadrimestre que gerou um calendário para o ano que vem. São escolhas. Talvez se não tivéssemos colocado esse dinheiro na Arena e tivéssemos sido mais conservador, a gente estivesse numa situação financeira mais desafiadora do que está hoje. Sem perspectiva, sem poder antecipar nada, sem calendário, sem nada.
Então houve sim esse pacto, é claro. Com R$ 8 milhões na conta do clube, mesmo que houvesse autorização do Conselho para usar 30% desse valor, a gente praticamente quitaria o que está em aberto.
Você espera conseguir essa liberação ainda este ano?
Eu não descarto ser esse ano. Mas, também, eu preciso ser sincero e dizer que, se ficar para o ano que vem, também não me surpreende, pelo ritmo do judiciário. O judiciário tem seus contornos, seus meandros, seus prazos. Não é algo que está dentro do nosso controle. O que está dentro do controle do Náutico, para agilizar isso, a gente tem que ir fazendo.
Como o senhor viu o protesto dos jogadores na semana passada, com a não concentração para o jogo contra o Novorizontino e a decisão de não mais darem entrevistas?

Presidente do Náutico fala sobre protesto dos jogadores por salários atrasados
Veja, insatisfação tem que haver, é natural. Insatisfação por não receber e pelo tamanho do atraso. E existe a insatisfação também por parte do clube, da diretoria, de minha parte, por não estar conseguindo honra o que é obrigação nossa.
Agora, existe também a percepção e a seriedade da condução do clube. O movimento foi legítimo dos atletas quando se resolveu não concentrar antes do jogo e não ter entrevistas. Mas se foi ponderado, conversado, e se viu que aquilo ali de fato não modifica o empenho da diretoria em buscar as soluções. Isso não deslegitima o movimento, mas também está claro que isso não acelera a função do clube.
Então isso é um assunto já página virada. Existe a boa vontade, o foco e a seriedade de todo mundo de fazer um jogo com o Goiás, competindo, pegando para conseguir pontuar, conseguir os três pontos. Nós temos cinco jogos, são cinco decisões.
Temos os problemas, mas a confiança que a gente vai reverter é maior do que qualquer problema. A insatisfação tem que ter. Mas a gente não pode, por conta dessa insatisfação, perder o foco na solução dos problemas.
Para terminar, o presidente garante que o Náutico não será rebaixado?

Presidente do Náutico fala sobre manutenção do clube na Série B
O presidente do Náutico garante que o Náutico vai trabalhar para não cair. A gente está a seis pontos da zona de rebaixamento. Então só dependemos de nós para não cair. E a gente falhar em algo que só depende de nós parece que é algo que não pode estar no radar.
Temos que trabalhar para manter o Náutico na Série B. E eu vejo um ambiente para isso, apesar da insatisfação, apesar das críticas, que ajuda a gente a atingir os nossos objetivos, principalmente quando só depende de nós. E a gente não pode falhar e não vai falhar em relação a isso.
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