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Tuesday, September 29, 2026

Sertanejo usa plantas e animais para prever chuvas no RN

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Na zona rural de Caicó, a 267 km de Natal (RN), o sertanejo Francisco Elpídio de Medeiros, 76, consulta os oráculos da natureza para tentar medir se o El Niño vai afetar o período chuvoso no distrito de Palma, onde mora.

"Profeta da chuva", ele estudou até a 8ª série, mas conta ter amplo conhecimento do ambiente após 50 anos de observações.

No início do mês a reportagem o encontrou, numa manhã de sol a pino, perto de um pé de jurema. Em um dos galhos, ele nota o nascimento de vários botões que se transformarão em folhas.

"Essa planta captou a umidade do ar e deve ter ‘carregação’ [chuva] em até dois, três dias", conta. No dia seguinte, caiu uma chuvinha pela manhã.

Apesar das previsões feitas por meteorologistas, confia mais no que lhe diz a natureza. O sítio onde vive com a família tem 85 hectares e fica no meio da caatinga. Lá mantém, com outra propriedade anexa, um pequeno rebanho de gado leiteiro e planta feijão, milho, batata-doce e melancia.

A área é usada pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba) para pesquisas sobre o bioma. Elpídio diz que, além da jurema, o xiquexique é outra planta que "nunca falha" na previsão.

"Se na coroa surgirem tufos brancos indicando o nascimento de flor, é certeza que chove", diz. Ele conta que as espécies têm um tipo de "antena" biológica usada para captar a umidade do ar e assim anunciam a "carregação".

Planeta em Transe

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O homem que usa o empirismo para acompanhar o comportamento dos animais, plantas e fenômenos atmosféricos para prever chuva é um dos personagens mais tradicionais do interior nordestino.

Em janeiro, vários deles se reuniram em Quixadá, no Ceará, para o 30º Encontro dos Profetas da Chuva. A maioria previu chuvas regulares em 2026, no "inverno" dos estados da região (que vai do início do ano até maio ou junho). A profecia se confirmou —até porque o El Niño, que costuma trazer seca para o Nordeste, começou a ganhar força no segundo semestre.

No Rio Grande do Norte, o acumulado de precipitação foi de 404,4 milímetros de fevereiro a abril, apenas 5,8% acima da média esperada de 382,3 milímetros, segundo dados da Emparn (Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte).

O volume foi insuficiente para melhorar a situação do açude Itans, o principal de Caicó, com volume atual de 0,33%, ainda segundo a Emparn.

Elpídio explica que o comportamento de animais também sinaliza se haverá chuva. Se a ave siriema acasala em novembro, se o cupim reveste sua "casa" ou se aumenta o enxame da abelha eichu, a chuva vem.

Outro conhecimento em seu arsenal tem a ver com as chamadas cinzas de setembro, uma bruma que costuma ser avistada nos morros da região no início das manhãs. "Se as cinzas forem boas nos seis primeiros dias de setembro, vai ter chuva nos seis primeiros meses do ano. E as cinzas só foram fracas no dia 2, ou seja, apenas fevereiro pode ter chuva irregular", afirma.

Mudança climática na caatinga

As consequências do aquecimento global já atingem a região, mas o pequeno produtor rural diz acreditar que não há risco de a caatinga virar um deserto como alguns estudos especulam. "Existem plantas resistentes que garantem a sustentação do bioma".

"Veja a quantidade de pedra que tem no solo: o vento nunca consegue levar para longe as sementes. Elas engancham nas frestas das pedras e ficam protegidas", explica o sertanejo. "Uma semente de angico, por exemplo, pode passar até dez anos ali, entocada. Quando cai uma chuvinha ela floresce. Aqui teve seis anos de seca. Quando choveu o que nasceu de pé de jurema foi um absurdo".

O aumento da aridez na caatinga é apontado por cientistas como uma das consequências das mudanças climáticas causadas pelas atividades humanas, o que aumenta as chances de desertificação. Uma alteração dessa magnitude provocaria a migração e extinção de espécies, além de impactar a disponibilidade de água e modificar parâmetros meteorológicos.

O sertanejo cita outro vigor do semiárido: as plantas de raízes profundas como o umbuzeiro, o juazeiro e o angico. "Elas conseguem achar minirreservas de água a 5, 7 metros de profundidade".

Em um umbuzeiro do sítio, os pesquisadores da UEPB calcularam que na raiz estavam acumulados 300 litros de água, suficiente para três anos de sobrevivência.

O trabalho agricultor não tem ajudado apenas a pesquisa da universidade. Nos últimos anos, ele recolheu milhares de sementes de 40 tipos de plantas e depois doou a ONGs ambientalistas.

Chico Elpídio encerra suas tarefas ao anoitecer. Vai descansar para acordar no dia seguinte às 4h e verificar a névoa dos morros.

Não deixa de observar os sinais da natureza. Até o final do ano, saberá se vai chover o suficiente em 2027 ou será um "inverno atrapalhado", como os sertanejos chamam a precipitação irregular.

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