Dia Mundial do Coração: o que está nas suas mãos?

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Este é o "Tratar da Saúde" da Rádio Observador com o doutor João Marques Santos, médico de família dos Centros de Saúde CUF. Olá, doutor. Bom dia.
Olá, bom dia, Maria João.
Hoje assinalamos o Dia Mundial do Coração e a dúvida é: ter um problema no coração é uma questão de azar, de velhice ou temos mesmo algum controle sobre a situação?
Sim, na verdade, temos mesmo muito a fazer pelo nosso coração. Pensamos que os fatores de risco que podemos modificar são cerca de 80% das doenças cardiovasculares prematuras, por exemplo, o infarto ou AVC. Isto pode perfeitamente ser evitado.
80% é um número brutal. Isto significa que a genética não conta assim tanto?
Conta, mas de facto o estilo de vida é que é o mais decisivo. O coração raramente fica comprometido por acaso e vai acumulando aqui um impacto das nossas escolhas de vida ao longo dos anos.
Mas como é que percebemos que algo vai mal? Felizmente, não é frequente termos dor no coração.
Sim, felizmente, e isso é verdade. Por isso é que alguns problemas de saúde, como hipertensão ou o colesterol elevado, são aquilo a que nós chamamos os inimigos silenciosos, as doenças silenciosas. Não dão aviso prévio até já ser um bocadinho tarde.
E como é que se detetam esses problemas, doutor?
Medindo. Com análises de rotina, verificando a tensão arterial pelo menos uma vez por ano com o médico de família, e ter uma consulta regular. Ou então, e isto é um detalhe muito importante, medir em casa ou na farmácia com alguma regularidade. É um gesto muito simples e que ocupa minutos e que salva muitas vidas.
Sim, e quando o coração dá sinal de alarme, como é que distinguimos uma dor normal da dor de um infarto?
Sim, a dor típica do infarto é sentida como um aperto ou uma sensação de pressão forte no peito, como se tivéssemos uma pedra em cima do peito.
E essa dor depois espalha-se pelo resto do corpo?
Sim, frequentemente vai irradiar para o braço esquerdo, para o pescoço, para a mandíbula ou até para as costas e para o estômago. É muito comum também ter outro tipo de sintomas, como suores frios, falta de ar, tonturas ou até náuseas.
E o que é que se é fazer nesse exato momento? É ir logo para o hospital?
O importante é não conduzir, nem ir de meios próprios. Portanto, o primeiro passo e o mais importante é ligar para o 112. Isto vai ativar uma equipa de emergência, que logo no local vai encaminhar a pessoa diretamente para uma unidade hospitalar correta e ganhar muito tempo. Eu tenho um professor de faculdade que dizia que tempo é miocárdio e de facto isto salva-nos o coração.
Temos mesmo de evitar chegar a este ponto. No dia a dia, para quem quer começar hoje, o que a evidência provou que funciona de verdade e que melhora a saúde do nosso coração?
Há dois grandes pilares, que são a alimentação e o movimento. A dieta mediterrânica, na verdade, continua a ser a melhor amiga do nosso coração. Mais sopa, mais fruta, mais peixe e mais azeite.
E menos sal, imagino.
Claro, também muito menos. Em Portugal ainda consumimos quase o dobro do sal que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde. E trocar o sal por ervas aromáticas, por exemplo, reduz drasticamente a tensão arterial e protege o nosso coração.
Então e em relação ao exercício, precisamos de nos inscrever no ginásio?
É uma opção mais completa, mas no entanto, para benefício cardiovascular, basta caminhar, por exemplo. 30 minutos por dia a um passo ligeiro já reduz drasticamente este risco.
E o tabaco, doutor João, imagino que aqui não haja meio-termo.
Nenhum. É deixar de fumar e é a decisão mais importante na saúde. Apenas um ano depois de fumar, este risco já vai reduzir para metade, como falámos na semana passada.
Então e o estresse e o sono entram nesta contabilidade?
Também bastante. Dormir sete, oito horas e fazer pausas durante o dia vai reduzir a inflamação do corpo, ajuda a controlar a pressão arterial e aliás, algumas patologias também afetam a qualidade do sono, vão afetar também a nossa tensão arterial e a saúde cardiovascular, por exemplo, a apneia do sono.
E doutor João, para quem nos está a ouvir agora, em casa, no carro, já no trabalho, qual é o desafio prático para hoje?
Uma coisa muito simples: escolher apenas uma mudança para esta semana. Agendar uma medição de tensão arterial, cortar no sal ou fazer uma caminhada no final do dia. Cuidar do nosso coração não exige perfeição, exige sim consistência. E progressivamente ir introduzindo as outras mudanças que falámos.
Desafio aceito, portanto é cuidar do seu coração ainda hoje. Doutor João, muito obrigada. Até amanhã.
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