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Saturday, September 26, 2026

O que o desastre no Nepal nos diz sobre os riscos para o Brasil e os Andes

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Para quem vive no Brasil, uma avalanche no Himalaia pode parecer um desastre distante. Mas o que aconteceu no Nepal há um mês deveria nos fazer olhar para mais perto, para os Andes.
Em 26 de agosto, um deslizamento de gelo e rocha próximo ao Langtang Lirung desencadeou um fluxo de água, sedimentos e detritos, destruindo infraestrutura e comunidades ao longo dos vales, deixando centenas de mortos e milhares de desaparecidos.

Eventos assim resultam de fatores geológicos, sísmicos, hidrológicos e climáticos combinados. Mas há algo que não podemos ignorar: o aquecimento global está transformando as regiões de alta montanha, alterando geleiras, permafrost, encostas, rios e lagos. E isso não se limita ao Himalaia. Os Andes também enfrentam uma transformação acelerada.

Imagens de satélite permitem monitorar essas mudanças e reconstruir séries históricas. Mapas do MapBiomas mostram a dimensão da perda nos Andes: entre 1985 e 2024, a superfície de geleiras diminuiu 60% na Bolívia, 48% no Equador e 63% na Colômbia. A Venezuela foi o primeiro país andino a perder todas as suas geleiras permanentes. No Chile, onde se concentra a maior parte da superfície glaciar dos Andes, foram perdidos mais de 344 mil hectares entre 1998 e 2025.

O Peru perdeu 54% de sua superfície de geleiras entre 1985 e 2025, mais de 111 mil hectares. Entre 2000 e 2025, a área de lagunas de origem glaciar aumentou 52%, de 2,4 mil para 3,7 mil hectares.
A paisagem das montanhas está mudando. À medida que as geleiras recuam, novos corpos d’água se formam em áreas antes ocupadas pelo gelo. O aquecimento também descongela o permafrost, deixando encostas mais suscetíveis a desprendimentos capazes de gerar fluxos de água, sedimentos e detritos que percorrem grandes distâncias pelos vales.

O Peru já conhece esse risco. Áncash concentra a maior superfície de lagunas de origem glaciar no país e tem histórico marcante de aluviões. Em 1941, um desprendimento de gelo atingiu a laguna Palcacocha e provocou um grande fluxo de água, gelo e sedimentos que destruiu parte de Huaraz, matando cerca de 1.800 pessoas. Em 1970, um terremoto desencadeou o desprendimento de gelo e rocha do Huascarán, que em poucos minutos sepultou Yungay. Cerca de 20 mil pessoas morreram e apenas 300 sobreviveram. Em 2025, um deslizamento no nevado Vallunaraju provocou inundação e fluxo de detritos, matando duas pessoas e atingindo dezenas de casas.

Esses fatos mostram a dimensão humana desses eventos: uma transformação na montanha pode, em minutos, atingir uma cidade inteira. Os Andes são fundamentais para a segurança hídrica de milhões de sul-americanos. Cidades, agricultura, geração de energia e ecossistemas dependem dos sistemas hídricos que nascem nessas montanhas.

Para o Brasil, essas geleiras também importam: parte delas está nas cabeceiras de rios que alimentam a bacia amazônica, e pesquisas brasileiras mostram a conexão entre o ciclo hidrológico amazônico e as geleiras andinas. Nos países andinos amazônicos, mais da metade da superfície glaciar já foi perdida em quatro décadas. Ainda precisamos entender como essa redução poderá alterar a dinâmica das águas entre os Andes e a Amazônia.

O monitoramento por satélites permite acompanhar essas transformações, identificando onde as geleiras diminuem, onde a água aumenta e onde as mudanças são mais aceleradas. Esses dados ajudam a prevenir desastres, salvar vidas e orientar o planejamento hídrico.

O Nepal e o Peru nos lembram que processos naturais de grande magnitude já ocorreram e continuarão ocorrendo nas regiões de alta montanha. No contexto das mudanças climáticas, compreender como essas transformações se conectam aos sistemas hídricos e às populações será cada vez mais importante para os países andinos e também para o Brasil.

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