Vorcaro disse que falaria com 'sua turma' para manter Otto Lobo na presidência da CVM, diz jornal
Brasília O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, apoiou Otto Lobo na presidência da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), responsável por regular o mercado de capitais no país, e disse que falaria com "sua turma" para manter o dirigente no cargo, segundo mensagens da Polícia Federal obtidas pelo jornal O Globo.
"Vamos fazer acontecer", disse o ex-banqueiro ao advogado Ciro Soares, que o procurou para tratar do assunto. Em nota enviada à Folha, o chefe da autarquia disse não ter "conhecimento nem ingerência sobre conversas privadas de terceiros" e que nunca teve relações ou procurou apoio de Vorcaro.
"Lobo foi sabatinado e aprovado para a presidência da CVM no Senado em 20 de maio de 2026, ou seja, dois meses após a autarquia já ter respondido às denúncias de fraude criando o Grupo de Trabalho do Banco Master, Reag e Entidades Conexas (GT)", diz o comunicado da assessoria de imprensa.
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A equipe de Ciro Soares disse que o advogado nunca marcou reunião de Otto Lobo com senadores ou quaisquer outras pessoas. "É importante destacar que o advogado não atua na CVM", afirmou.
As mensagens obtidas pela PF foram trocadas entre Vorcaro e o advogado em 19 de julho do ano passado, apenas um dia após o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento, renunciar ao cargo por motivos pessoais. À época, Otto Lobo assumiu a chefia do órgão de forma interina.
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Em um dos diálogos, Ciro Soares disse que tinha sido procurado por Lobo para pedir ajuda para conseguir o apoio do senador Otto Alencar (PSD-BA), que faz parte da comissão do Senado responsável por sabatinar os indicados à CVM –a CAE (Comissão de Assuntos Econômicos).
"Me ligaram aqui agora. Elogiando vc até a Lua", escreveu Soares. Na sequência, ele enviou um áudio para o ex-banqueiro em que afirma que Lobo teria dito que queria ficar na presidência da CVM e relata elogios ao dono do Master.
"O Otto da CVM é muito meu amigo e gosta de você [Vorcaro]. Até falou comigo que chama você de ‘leãozinho da montanha’. Eu falei: ‘Gostei do apelido, viu’. E ele [Otto Lobo] falou: ‘Sim, o leãozinho da montanha, o moleque é danado, trabalhador", disse Ciro Soares, de acordo com a transcrição do áudio.
"Ótimo ele. Tem que colocar ele. Na presidência", respondeu Vorcaro, enquanto o advogado disse: "Muito. Sim".
Folha Mercado
Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.Procurado pela reportagem, Otto Alencar disse, por meio de sua assessoria, que nunca esteve com o chefe da Comissão de Valores Mobiliários, que "não tem nenhuma relação com a manutenção dele na presidência da CVM, nem articulou reunião nem nada semelhante para tal".
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O advogado também disse que levaria Otto Lobo até o então líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que deixou o cargo após ser alvo de operação da Polícia Federal por envolvimento no caso Master.
"Dani, vou trabalhar pra isso. Não te contei o que o cara fez antes de sair. Ele fez uma sacanagem [...] Falei com Otto que pode contar comigo e vou levá-lo ao Senado. Vou levar no Jaques e trabalhar para esse cara ficar. A gente tem que trabalhar junto nisso", disse Ciro Soares a Vorcaro.
"Ele é muito ponta firme e que bom que ele gosta de você [...] Brinquei com ele também e falei: ‘Olha, ele é o filho que o senador… Quem mexer com esse menino aí tá fodido’", completou. O ex-banqueiro, então, disse que faria "acontecer" e acionaria "sua turma" para isso –sem detalhar a quem se referia.
"Por vc, irmão. Toca de um lado, eu toco do outro", disse Soares.
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A defesa de Jaques Wagner negou a existência de encontro para tratar do comando da CVM e disse que o parlamentar não pode responder por conversas de terceiros, "da qual não participou e desconhece o contexto em que ocorreu".
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O senador ainda repetiu que não tem nenhuma relação com Daniel Vorcaro e que nunca atuou em favor dos interesses do Master. Ele é suspeito de ter recebido pagamentos do banco, por meio da empresa da nora do parlamentar e de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões.
"Além disso, em 19/07/2025, data informada pela reportagem, ninguém precisava 'falar com alguém' para Otto Lobo assumir a presidência da CVM. A renúncia de João Pedro Nascimento foi anunciada em 18/07/2025, e a assunção do diretor mais antigo é automática, conforme previsto em lei", diz a nota assinada por Pablo Domingues.
A permanência de Otto Lobo à frente da comissão foi aprovada, em maio, pelo Senado, depois de quase cinco meses depois da indicação feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Foram 31 votos favoráveis a 13 contrários. Na CAE, ele passou com apoio de 19 senadores e foi rejeitado por quatro, dos 23 que votaram.
Quando Lula encaminhou o nome de Lobo ao Senado, a indicação foi mal recebida por parte do mercado financeiro, porque decisões tomadas por ele teriam beneficiado Vorcaro. O presidente da comissão nega.
Ligada ao Ministério da Fazenda, a CVM é responsável pela supervisão do mercado de capitais, como negociações de ações, fundos de investimentos e debêntures.
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O caso Master evidenciou as discussões sobre a capacidade de fiscalização da comissão, que no último ano fechou com queda de julgamentos. Em audiência à CAE, o então presidente interino, João Accioly, disse que a autarquia sabia de possíveis irregularidades da instituição de Vorcaro desde antes de 2022 e que as apurações poderiam ter sido mais rápidas se não houvesse um acúmulo de processos por pessoas.
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