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Sunday, November 8, 2026

ONU diz que mudanças climáticas ameaçam 90 milhões de refugiados e deslocados

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Quase 90 milhões de pessoas deslocadas à força no mundo vivem em países altamente expostos aos impactos das mudanças climáticas, incluindo secas severas, inundações e calor extremo. O número representa três em cada quatro indivíduos obrigados a deixar suas casas por conflitos, violência ou perseguição, segundo um novo relatório da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Apesar da dimensão do problema, os países frágeis e afetados por conflitos recebem apenas cerca de 10% do financiamento climático global, de acordo com o levantamento. O descompasso entre a exposição aos riscos e a distribuição dos recursos é um dos principais alertas do relatório Sem Escapatória III, divulgado às vésperas da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), prevista para começar na próxima semana, em Antalya, na Turquia.

O documento chama a atenção para uma sobreposição de crises: milhões de pessoas que já foram obrigadas a abandonar suas comunidades encontram, nos locais onde buscam proteção, condições ambientais que dificultam a reconstrução de suas vidas. Em muitos desses territórios, a infraestrutura e os recursos disponíveis para adaptação climática são limitados.

“As pessoas refugiadas enfrentam uma dupla injustiça. Forçadas a fugir de conflitos que não causaram, agora estão na linha de frente de uma crise climática para a qual contribuíram muito pouco”, afirmou Antón Leis García, alto comissário adjunto de Operações do ACNUR.

O relatório reúne relatos de oito representantes de comunidades deslocadas que enfrentam diretamente os impactos climáticos. A partir dessas experiências, a agência defende que as populações afetadas participem das decisões sobre políticas de adaptação e sobre a destinação dos recursos internacionais.

Mudanças climáticas ameaçam até o retorno dos refugiados para casa

A exposição aos eventos extremos não se limita aos locais de acolhimento. O relatório aponta que mais de dois terços dos refugiados que retornaram aos seus países durante o primeiro semestre de 2026 voltaram para territórios altamente vulneráveis aos riscos climáticos.

O dado levanta dúvidas sobre a sustentabilidade desses retornos, especialmente em regiões onde a recuperação após conflitos depende do restabelecimento de moradias, sistemas de abastecimento de água e atividades econômicas.

Na Síria, por exemplo, quase 4 milhões de pessoas deslocadas retornaram recentemente. No entanto, a redução da disponibilidade de águas subterrâneas e os impactos de eventos climáticos extremos representam obstáculos adicionais à recuperação do país.

Em maio de 2026, inundações ao longo do rio Eufrates danificaram residências e provocaram novos deslocamentos de milhares de pessoas.

O caso evidencia um dos desafios apontados pelo ACNUR: o retorno ao país de origem não significa necessariamente o fim da vulnerabilidade. Em territórios afetados simultaneamente por conflitos e eventos climáticos, as famílias podem ser obrigadas a deixar suas casas novamente.

Calor extremo pode atingir assentamentos por mais de 200 dias ao ano

Além das inundações e secas, o avanço das temperaturas representa uma ameaça crescente para populações refugiadas, especialmente na África subsaariana.

Segundo as projeções apresentadas pelo ACNUR, até 2050, um em cada três assentamentos de refugiados na região poderá enfrentar pelo menos 100 dias de calor intenso por ano.

Mais da metade dos locais analisados poderá registrar ao menos 50 dias adicionais de calor intenso anualmente.

Em alguns assentamentos da Etiópia, como Helaweyn, essas condições poderão persistir por mais de 200 dias ao ano.

A exposição prolongada ao calor aumenta os riscos à saúde, compromete atividades econômicas e pode reduzir a capacidade de permanência das famílias nos territórios onde encontraram proteção.

O problema também se soma ao avanço dos deslocamentos associados a eventos meteorológicos extremos. Na última década, desastres relacionados ao clima provocaram mais de 255 milhões de deslocamentos internos no mundo, o equivalente a aproximadamente 70 mil por dia.

Na África Oriental, as projeções indicam que inundações severas associadas a um episódio muito intenso de El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial, podem provocar entre 770 mil e 3 milhões de deslocamentos de pessoas na Somália, no Quênia, no Sudão do Sul e em Uganda até o fim de 2026.

A região já enfrentou episódios semelhantes. Em 2023, as inundações deslocaram mais de 2 milhões de pessoas, incluindo famílias que precisaram abandonar suas moradias repetidas vezes.

Outro grupo particularmente exposto é o de pessoas apátridas, aquelas que não são reconhecidas como nacionais por nenhum Estado conforme sua legislação.

Segundo o ACNUR, quase 90% dos 4,7 milhões de apátridas do mundo vivem em países classificados com riscos climáticos altos ou extremos. A ausência de reconhecimento legal pode dificultar o acesso à assistência humanitária e a programas de adaptação, ampliando a vulnerabilidade diante de desastres.

Financiamento climático chega a uma parcela limitada dos países mais vulneráveis

A distribuição desigual do financiamento climático é um dos principais pontos levantados pelo ACNUR para as negociações da COP31.

Embora países afetados por conflitos abriguem grandes contingentes de refugiados e deslocados internos, recebem aproximadamente um décimo dos recursos globais destinados à ação climática.

Essa diferença limita a capacidade de financiar medidas de adaptação, como infraestrutura de abastecimento de água, sistemas produtivos mais resistentes a secas e inundações e melhorias nas condições de moradia.

O relatório também aponta a necessidade de direcionar investimentos para regiões de retorno dos refugiados. Sem condições ambientais e econômicas que permitam a reconstrução das comunidades, o retorno pode não ser sustentável no longo prazo.

“A adaptação climática em áreas frágeis e afetadas por deslocamentos é uma questão de sobrevivência”, disse Leis García.

Para o representante do ACNUR, os recursos precisam alcançar os territórios onde as necessidades são maiores, com investimentos em meios de subsistência e soluções que reduzam o risco de novos deslocamentos.

A discussão envolve ainda uma mudança na abordagem internacional: a passagem de respostas concentradas na assistência humanitária emergencial para programas de adaptação de longo prazo, capazes de atender tanto refugiados quanto comunidades que os acolhem.

No Brasil, projeto em Belém reúne refugiados indígenas e setor privado

O relatório também apresenta iniciativas de adaptação climática desenvolvidas com a participação de comunidades refugiadas em diferentes países.

Entre os exemplos estão sistemas de abastecimento de água movidos a energia solar no Sahel, práticas agrícolas adaptadas às condições climáticas em Uganda e projetos de restauração de terras e manguezais na Colômbia.

No Brasil, as ações mencionadas incluem agricultura comunitária, energia limpa e modelos de moradia sustentável.

Um dos exemplos é o Centro de Sustentabilidade de Outeiro, em Belém, no Pará, projeto que reúne o ACNUR, a prefeitura da capital paraense, a empresa de tecnologia solar e armazenamento de energia LONGi, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e o Conselho Warao Ojiduna, representante da comunidade indígena refugiada Warao.

A iniciativa envolve a construção e ampliação do espaço, que teve suas atividades aprimoradas durante a COP30, realizada em Belém.

A articulação reúne poder público, setor privado, organizações da sociedade civil e pessoas refugiadas em torno de uma iniciativa local de sustentabilidade. O projeto é citado pelo ACNUR como exemplo de participação das comunidades deslocadas na construção de respostas aos desafios climáticos.

A agência afirma que trabalha com governos e parceiros para ampliar iniciativas desse tipo, combinando medidas de adaptação ambiental com estratégias voltadas à autonomia econômica das populações atendidas.

O que o ACNUR vai cobrar na COP31?

Com a COP31 programada para ocorrer em Antalya, o ACNUR pretende levar às negociações três demandas centrais: a inclusão de refugiados e deslocados nos planos climáticos nacionais e nos mecanismos de financiamento; a ampliação dos investimentos de adaptação em regiões frágeis e afetadas por deslocamentos; e a criação de soluções de longo prazo com participação das comunidades locais.

A escolha da Turquia como sede acrescenta uma dimensão à discussão, já que o país está entre os que mais acolhem refugiados no mundo.

Para a agência, as negociações representam uma oportunidade de incorporar as necessidades dessas populações às políticas climáticas internacionais, inclusive na definição de prioridades para a distribuição dos recursos.

“As pessoas refugiadas estão na linha de frente da crise climática, mas também fazem parte da solução”, afirmou Leis García.

O desafio colocado à conferência é transformar esse reconhecimento em mecanismos de financiamento e políticas de adaptação que alcancem regiões onde conflitos, deslocamento forçado e eventos climáticos extremos já se sobrepõem.

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