Nuremberga e Budapeste

1. O século XX teve muitas tragédias. Teve também muitos “salvadores”. É uma coincidência curiosa (para quem acredita nestas coisas): quanto mais um regime promete salvar o homem, mais depressa começa a prendê-lo, deportá-lo, calá-lo ou matá-lo quando o homem, esse ser ingrato, se recusa a ser “salvo”.
Foi assim com o estalinismo. Foi assim com o nazismo. Não eram a mesma coisa. Só a preguiça histórica, que é irmã gémea da ignorância, os meteria no mesmo saco. Mas, quando o assunto é a relação entre o poder e a pessoa, aproximavam-se mais do que os respetivos catecismos gostariam de admitir. O nazismo fez da raça, do antissemitismo e de uma suposta hierarquia biológica o centro da sua visão do mundo. O estalinismo falou em luta de classes, revolução, coletivização, “kulaks”, inimigos do povo. Linguagens diferentes, alvos diferentes, histórias diferentes. Mas uma pergunta fica: que fizeram ambos ao homem quando o homem se atravessou no caminho da “verdade” oficial? A resposta não é bonita.
2. Estaline teve a sua coletivização forçada, as deportações, os expurgos, a polícia política, o Gulag, a fome. Camponeses inteiros foram transformados em “kulaks”, palavra providencial que permitia deixar de ver um homem, uma mulher, cinco filhos, uma casa, uma vida, para passar a ver apenas um “inimigo de classe”. A coletivização forçada trouxe deportações em massa, uma brutal desorganização da agricultura e fomes que mataram milhões. A revolução, pois claro, precisava de avançar. E, quando a “grande marcha da História” avança, parece haver sempre uns pobres diabos debaixo das rodas que estragam a fotografia oficial.
Hitler tinha outra cartilha. O judeu passou a ser “raça inferior”, ameaça, contaminação, inimigo. Vieram a exclusão, os guetos, as deportações, os campos, os fuzilamentos, as câmaras de gás. Seis milhões de judeus foram assassinados no Holocausto. Milhões de outras pessoas (Roma, prisioneiros de guerra soviéticos, polacos, pessoas com deficiência e outros grupos) foram também perseguidas e mortas pelo regime nazi e pelos seus aliados e colaboradores.
Convém repetir: não é a mesma História. Mas é a mesma habilidade de retirar ao outro o nome para, logo a seguir, lhe retirar os direitos. Primeiro a palavra, depois o homem.
3. Outubro de 2026 traz-nos duas datas que merecem mais do que a comemoração sonolenta do costume, meia dúzia de coroas de flores, três discursos de circunstância e o inevitável “nunca mais” que, tantas vezes, dura só até à sobremesa. A 1 de outubro passam oitenta anos sobre o veredicto do Tribunal Militar Internacional de Nuremberga. Dos vinte e dois dirigentes nazis levados a julgamento, dezanove foram condenados e três foram absolvidos. Ali se julgaram crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. E a 23 de outubro passam setenta anos sobre o início da Revolução Húngara de 1956. Estudantes e milhares de cidadãos saíram à rua contra o regime comunista e a presença soviética. Durante alguns dias pareceu possível respirar. Mau costume, pelos vistos, porque a 4 de novembro as forças soviéticas avançaram sobre a Hungria com tanques, tropas e a conhecida pedagogia das armas para esmagar a revolução.
Nuremberga não é Budapeste. Auschwitz não é o Gulag. O Holocausto não é a coletivização estalinista. Quem precisa de apagar as diferenças para fazer uma comparação começou mal. Mas quem pretende impedir qualquer comparação começou pior. Porque a comparação não está no número das vítimas, não está na raça contra a classe, não está na camisa castanha contra a estrela vermelha. Está numa coisa muito mais simples e, por isso mesmo, muito mais séria: na relação entre o poder e a pessoa.
4. O totalitarismo começa quando alguém (Estado, partido, chefe, comité, “vanguarda”, pouco importa o nome da irmandade) decide que possuir a Verdade. Toda. Inteira. E, naturalmente, sem direito de recurso. A partir daí a discordância deixa de ser discordância: é traição; o adversário deixa de ser adversário: é inimigo; a crítica deixa de ser crítica: é sabotagem. E a censura, a prisão, o exílio, a deportação, a violência deixam de ser crimes e passam a chamar-se “defesa da revolução”, “necessidade histórica”, “salvação nacional”, ou qualquer outra dessas expressões asseadas com que o poder gosta de perfumar a porcaria (perdoem o eufemismo) que faz.
A alfaiataria política sempre teve bons costureiros. É assim que começa o pior. Não começa, necessariamente, pela bala. Começa pela palavra que torna a bala aceitável. “Kulak”. “Inimigo do povo.” “Raça inferior.” “Traidor.” “Parasita.” Metam-lhe um rótulo, tirem-lhe um rosto, convençam os outros de que ele já não é bem um dos nossos e metade do trabalho está feito. Esta é a lição mais incómoda de Nuremberga e Budapeste. Não que Hitler e Estaline tenham sido iguais (não foram, ainda que os possamos considerar, e perdoem a imagem mental, nádegas do mesmo traseiro totalitário), mas que nenhum projeto político pode receber carta branca para esmagar uma pessoa em nome do futuro, da raça, da classe, da nação, da revolução ou de qualquer outro altar onde, desde sempre, os homens gostam de sacrificar outros homens. Porque o problema do poder absoluto é, afinal, muito simples: nunca se acha suficientemente absoluto. E quando deixa de encontrar limites, encontra sempre novas vítimas.
5. Oitenta anos depois de Nuremberga. Setenta anos depois de Budapeste. Que aprendemos? Que o poder gosta muito de falar em “homem novo”, “sociedade nova”, “mundo novo”. O homem velho, de carne, sangue, medo, família e liberdade, é que costuma pagar a conta. Quo vadimus? A História já respondeu algumas vezes. E respondeu caro. Convém não lhe pedir nova explicação.
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