O activista

O activista reconhece-se facilmente: sendo activo, nada faz. O activista activa. Activa causas a eito, aquelas para que foi activado. Passa de uma para outra, indiferente ao conteúdo de cada uma delas. É o don Juan das causas: põem-lhe uma à frente e não resiste – desata a activar. Mas não activa sozinho. O activista olha sempre em seu redor. Só activa em grupo. Sem testemunhas é como uma flor a que falta água; cabisbaixo, murcha, seca, fenece – não se chega a dar por ele. Com boas razões. O activista não se interessa por nada, só pelo aspecto formal das causas, do qual faz parte ser a causa do grupo de activistas onde o activista activa – em bom rigor, o activista existe somente no plural. Os activistas existem colectivamente num ritual análogo ao de algumas espécies de macacos que se catam uns aos outros, fortalecendo dessa forma os laços sociais. Assim que sente o grupo e o grupo o sente a ele, o activista activa intensamente. Activa a torto e a direito. Activa como se não houvesse amanhã. Porque o activista é histriónico. Vive no espectáculo e vive no presente. Daí passar de uma causa para outra, entregando-se à mais recente como se entregara à mais antiga. O activista esquece-se de si. As suas paixões são novas como o primeiro dia da Criação. Mas também são velhas. Porque o activista, espantadíssimo por o mundo ser mundo, quer alvoroçá-lo. A causa é sempre urgente. Da máxima importância. Como ele mesmo, que assim se tornou igualmente importante, predizendo o apocalipse ou pregando a salvação. Como Atlas, carrega o mundo às costas. Põe e dispõe – tudo depende dele como não depende de mais ninguém. Depois do activista activar, o mundo entra nos eixos. Ele é o princípio e ele é o fim. E assim se repete a cada activação – virginalmente novo e velho como os tempos. O seu presente é atemporal. Falece-lhe por isso a memória. O que fez ontem ignora-o hoje. O amanhã da causa desconhece-o também. A sua vontade é mera veleidade, um sopro, um fogacho, a poeira que uma rabanada de vento levanta por um instante. O activista é o vampiro emocional do tempo: suga-lhe o presente e deita fora a casca. Sempre moralíssimo, o activista é o parasita do sofrimento alheio, que lhe serve apenas como estímulo para um pequeno frisson sentimental, que se desvanece sem deixar memória, como os vapores do álcool com a chegada da madrugada. O activista é leve – nada lhe pesa. A sua irresponsabilidade é soberana. É por isso que está sempre disponível para a golpada seguinte. Para ele, o tempo é a sucessão de presentes calafetados – nada entra, nada sai. O activista é uma mónada que não exprime nada. Desligado do mundo, o activista é um nefelibata. E, no entanto, existe. Existe apenas contado. Por isso, o activista aparece sempre para os outros. Aliás, essa é a sua função única: aparecer. Aparece quando os meios de comunicação social falam dele, aparece na petição assinada e aparece quando há malta que ele vai animar. Mas aparece mais. Aparece porque vive no futuro prefeito. Terá sido. O activista vive a sua autobiografia. É assim que aparece a si mesmo. É a unidade sintética da sua apecepção: o eu terei sido deve poder acompanhar todas as suas representações. No fim do tempo que projecta – terá sido. Terá sido rebelde. Terá sido uma pedrada no charco. Terá sido a lufada de ar fresco. É de crer que até terá sido a luz ao fundo do túnel. Tudo nele é triste, tudo nele é kitsch. Conta já hoje com o que contará a si mesmo amanhã. O activista é a sua própria instituição de crédito e é o seu próprio devedor. O Napoleão do ego, que activa mas é incapaz de uma verdadeira acção, extasia-se e consola-se com a sua versão de pacotilha da frase atribuída ao imperador francês: Et pourtant, quel roman que ma vie !
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