Os radicais que agridem palestinianos, imprensa e diplomatas

Chega primeiro um cliente, que lhe manifesta solidariedade de forma contida: “Que Deus te recompense por esta perda!” Chega a seguir uma patrulha de três soldados das Forças de Defesa Israelitas: pedem e fotografam as identificações da equipa do Observador, perguntam o que estamos ali a fazer, quem estamos a entrevistar, com quem mais vamos falar — eles dizem que não podem prestar declarações mas avisam que a história tem dois lados. (Um dos militares, em vez de falar de Ronaldo, como é habitual nos pontos de controlo quando os soldados descobrem portugueses, diz que já esteve no Boom Festival, em Idanha-a-Nova.)
Nem de propósito, os militares vão-se embora e logo a seguir um jovem judeu de tranças compridas e roupa rústica estaciona o carro mesmo em frente, do outro lado da estrada, sai da viatura e fica a olhar para o dono do café. Muaad estremece nervosamente a tentar, sem sucesso, disfarçar o medo: “Foi ele, esse mesmo. Esse homem roubou-me quatro vezes e incendiou o meu quiosque. Está tudo registado nas câmaras. O que posso fazer? O que posso fazer? Sinto-me num estado de total impotência.”
O colono radical atravessa a estrada e vai ajeitar uma a uma as dezenas de bandeiras de Israel, endireitando os mastros cravados no chão e desfraldando os panos com o símbolo azul de Israel. “Estes não atacam agora. Não são do tipo que ataca assim de frente, não tenham medo”, assegura Muaad, ele próprio amedrontado. “É só para provocar, pura provocação”, diz, tentando autoconvencer-se de que não haverá perigo de ataque físico.
O jovem judeu, abordado pelo Observador, diz apenas que não fala inglês. E rejeita comunicar através de uma app de tradução automática para o hebraico. Mas prossegue esta espécie de bullying: aproxima-se de Muaad enquanto o dono do café está a ser fotografado e posa mesmo atrás dele, a rir, e a desenhar com os dedos o V da vitória.
Depois pega no seu telemóvel, um aparelho de aspeto antiquado, que propositadamente não deve permitir acesso à internet para evitar distrações imorais: os smartphones estão interditos entre os “jovens das colinas”, exceto para fins operacionais ou de propaganda. Faz uma chamada a apelar aos seus companheiros para se juntarem a ele: “Venham, venham para aqui! Vá lá, venham ver o que está aqui!” O colono atravessa de novo a estrada para junto do carro, identificado com ajuda de Inteligência Artificial como sendo um Toyota Corolla do fim dos anos 90. Os outros elementos do seu grupo não aparecem, e ele acaba por ir-se embora.
Os dois ministros que vivem em colonatos e os carros do governo para os “jovens das colinas”
As ações violentas mais extremas dos “jovens das colinas” suscitam controvérsia na sociedade israelita, havendo largos setores e políticos com notoriedade que não se reveem nos métodos e lamentam as consequências para a imagem de Israel. Já em 2024, Ronen Bar, chefe do Shin Bet (Serviços de Informação e Segurança Interna de Israel), tinha enviado uma carta a Netanyahu onde alertava que a violência dos “Jovens das Colinas” se transformou em “terrorismo judaico” e constitui um perigo real para Israel, com a “cumplicidade e incentivo” de ministros do governo. Referia-se a dois apoios políticos de peso na extrema-direita: o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir. Ambos vivem em colonatos na Cisjordânia, o primeiro perto de Quduum, o segundo em Hebron.
Além de defenderem a ação dos jovens colonos radicais, levam o governo a apoiá-los materialmente, oferecendo a estes postos avançados ilegais dezenas de veículos todo-o-terreno e equipamentos de proteção, como drones e óculos de visão noturna.
Duas destas cerimónias de entrega de equipamento contaram com a presença do próprio ministro das Finanças, que elogiou o esforço destes jovens pioneiros no alargamento do território, citado pelo Times of Israel. O equipamento é justificado como sendo de proteção dos israelitas que estão “na linha de frente”, isolados e por isso mais expostos a ataques violentos — há artigos regulares na imprensa israelita e estatísticas atualizadas pelo governo sobre as vítimas de violência palestiniana. Mas os equipamentos distribuídos pelo governo acabam por ser usados pelos colonos radicais também para vigiar os palestinianos vizinhos e realizar incursões junto das suas casas e terras para os ir intimidando e convencendo a deixar as aldeias.
Os “jovens das colinas” desconfiam das instituições estatais de Israel, exceto para receber estas ajudas materiais previstas no orçamento.
O funcionário que desviava alunos mal comportados para os colonatos ilegais
Relatórios oficiais pedidos pelo governo apontam para a existência de cerca de 800 jovens radicalizados a viver em colonatos ilegais, dos quais cerca de 300 são suspeitos de envolvimento em atos violentos, segundo estimativas da polícia israelita.
Alguns dos elementos dos “jovens das colinas” têm apenas 12 e 13 anos. As raparigas são uma minoria no grupo, mas existem — e há até vídeos que as mostram a invadir casas de palestinianos. Muitos destes miúdos chegam aos colonatos depois de abandonarem a escola e ficam a guardar rebanhos e em turnos de vigilância para proteção do colonato. Outros estão ali por convicção ideológica e religiosa e provêm de famílias que partilham os mesmos valores e sentem orgulho por os filhos estarem a participar desta forma no alargamento e reconquista territorial de Israel.
Não há uma hierarquia clara que articule todos os postos avançados ilegais onde vivem os “jovens das colinas”, nem sequer dentro de cada posto. A liderança é normalmente assumida pelo elemento mais velho, um jovem adulto.
Pertencem a uma corrente do sionismo religioso. Têm uma vida muito mais modesta e ligada à terra do que a dos palestinianos que combatem. Por exemplo, vivem em casas de madeira, caravanas ou mesmo tendas. Estão totalmente desligados do sistema de ensino. Ocupam o tempo a cultivar a terra, ou a construir ou reconstruir habitações e a aprofundar estudos religiosos. Não têm relação com a internet nem com as novas tecnologias, exceto para questões operacionais.
Yoram Sorek, coordenador da Organização Não Governamental “Olhar a Ocupação nos Olhos”, confronta-se regularmente com os “jovens das colinas”. Já foi espancado, já apanhou gás pimenta, já lhe roubaram as máquinas de filmar. Diz ao Observador que os postos avançados ilegais são administrados por um adulto, que obtém o orçamento, recebe os veículos e garante a articulação com o exército”.
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