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Sunday, November 8, 2026

O lobby vende o apartamento. O que o diferencia?

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Você já entrou em um prédio e teve vontade de morar ali antes mesmo de conhecer o apartamento? Eu entendo perfeitamente essa sensação.

Às vezes é a arquitetura. Outras, a iluminação, uma obra de arte, uma poltrona que dá vontade de sentar ou simplesmente a sensação de que tudo foi pensado para receber bem.

O lobby tem esse poder. Ele encanta e antecipa a experiência de morar naquele endereço.

E existe uma coisa que acho fascinante: quanto melhor um espaço funciona, menos percebemos a quantidade de decisões que foram necessárias para chegar ali.

Um lobby bem pensado começa muito antes da escolha de uma poltrona. Começa com uma pergunta: quem vai viver aqui?

Parece simples, mas pense comigo.

Um edifício familiar em Botafogo, uma torre de compactos em São Paulo e um empreendimento de praia podem ser igualmente sofisticados. Mas seus moradores têm rotinas, expectativas e necessidades completamente diferentes.

Eu chamo isso de vocação do empreendimento.

E há um exemplo que adoro usar para explicar essa ideia.

Você conhece o Porsche Design Tower, em Sunny Isles Beach, na região de Miami? O prédio ficou famoso pelo Dezervator, um sistema de elevadores que leva o morador, dentro do próprio carro, até uma garagem privativa junto ao apartamento.

Sim, o carro vai com você até o seu andar!

Faz todo o sentido para um público que valoriza automóveis, privacidade e exclusividade. O que me encanta ali é a coerência entre o que o empreendimento promete e a experiência que entrega. O exemplo vai além do lobby, claro, mas o princípio vale para a entrada: a chegada precisa fazer sentido para quem vai morar ali.

Corte do Porsche Design Tower, com o sistema Dezervator no centro do empreendimento

Corte do Porsche Design Tower, com o sistema Dezervator no centro do empreendimento (Divulgação/Divulgação)

E é nos detalhes mais discretos que essa coerência aparece de verdade. Vou contar alguns que aprendi a observar, muitos deles com a hotelaria.

Quando chego a um hotel, demoro a subir para o quarto. Gosto de ficar uns minutos no lobby, só olhando. Quem senta, quem espera, onde as pessoas param sem saber para onde ir. Um lobby conta muito sobre um lugar.

A espera

A primeira coisa que aprendi a observar foi a espera.

Nos anos 1980, um estudo clássico sobre a psicologia das filas, do consultor David Maister, contou a história de um grupo hoteleiro que recebia reclamações sobre a demora dos elevadores. A solução não foi trocar os elevadores. Foi instalar espelhos ao lado deles. Simples, né? As pessoas se distraíam se olhando, e as reclamações caíram. A espera era a mesma. A sensação, não.

Agora pense no lobby de um prédio residencial. Quase ninguém senta ali, até o dia em que precisa esperar: o carro de aplicativo, a visita, o filho que está descendo. Quantos lobbies são pensados para esse momento? A poltrona está virada para a rua, para você ver o carro chegar? Tem luz boa para ler uma mensagem? Tem uma mesinha para apoiar a bolsa?

A portaria

A segunda é a portaria.

Em 2007, o Hyatt abriu em Londres o primeiro Andaz sem balcão de recepção. O hóspede era recebido por alguém de pé, com um tablet na mão, e o lobby passou a se chamar sala de estar. Parece um detalhe, mas não é: um balcão alto separa quem recebe de quem está chegando.

Lobby do Andaz London, do Hyatt, primeiro hotel da bandeira sem balcão de recepção

Lobby do Andaz London, do Hyatt, primeiro hotel da bandeira sem balcão de recepção (Divulgação/Divulgação)

Não estou dizendo que os prédios devem tirar a portaria, longe disso. Mas a altura do balcão, o lugar onde o porteiro fica e o que ele enxerga dali mudam completamente a sensação de quem chega. Percebem a diferença sutil entre ser recebido e ser controlado?

O cheiro e a poltrona

A terceira quase nunca aparece num memorial descritivo: o cheiro.

A Westin perfumou seus lobbies com uma fragrância de chá branco. Os hóspedes gostaram tanto que centenas pediram para comprar, e a rede acabou lançando uma linha para casa. O cheiro virou parte da marca.

Qual é o cheiro do lobby do seu prédio? Se a resposta for “produto de limpeza” ou, pior, “depende do horário da coleta de lixo”, tem uma conversa importante para acontecer.

E a quarta é do meu mundo, o mobiliário: a poltrona.

A poltrona mais bonita do catálogo pode ser baixa e funda demais. Linda na foto e um desafio para a moradora de oitenta anos que precisa se levantar dela sozinha. Braço firme, altura certa de assento, tecido que aguenta mala encostando e criança subindo. Ninguém comenta quando acerta. Todo mundo sente quando erra.

Por isso valorizo tanto as conversas entre incorporadores, arquitetos e especialistas em mobiliário desde o início do projeto. O incorporador conhece o mercado e o comprador. O arquiteto traduz essa proposta em espaços, materiais e experiências. E quem trabalha com mobiliário traz o conhecimento de conforto, resistência, manutenção e uso real. Quando esses olhares se encontram cedo, as escolhas ganham consistência.

Existe ainda uma referência do varejo que sempre me acompanha. Paco Underhill, pesquisador do comportamento do consumidor e autor de Vamos às Compras!, descreveu a chamada zona de descompressão: os primeiros passos depois da entrada de uma loja, quando ainda estamos nos adaptando ao ambiente e quase não prestamos atenção em nada.

Gosto de levar essa ideia para os edifícios. O que sentimos nos primeiros metros de um lobby? A entrada é intuitiva? Sabemos para onde seguir? O espaço acolhe ou intimida?

Não existe uma fórmula única para um lobby diferenciado. Ele pode ser monumental ou intimista, contemporâneo ou cheio de referências locais. Pode impressionar pela arquitetura ou conquistar pelo acolhimento. Voltamos à tal vocação do empreendimento.

O fundamental é que as escolhas façam sentido juntas, e para as pessoas que vão viver ali.

Porque, quando compramos um imóvel, também estamos escolhendo a experiência de chegar em casa. A espera, o cumprimento do porteiro, o cheiro, a poltrona.

O lobby pode conquistar o comprador na primeira visita. O segredo está em continuar encantando quem mora ali, todos os dias.

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