Jockey de SP propõe parque, projeto para aumentar sócios e quitar dívida bilionária
Associados do Jockey Club de São Paulo aprovaram em assembleia extraordinária na terça-feira (13) as tratativas para a quitação das dívidas e para o projeto de remodelação do hipódromo da zona oeste em parceria com o BTG Pactual. O resultado foi unânime, com 69 votos favoráveis.
A proposta abrange a ampliação de atrativos para trazer novos associados, a implantação de parque de uso público no interior da pista de turfe —com acesso por passagem subterrânea —, e a possível quitação de R$ 1,3 bilhão em dívidas tributárias, trabalhistas e cíveis (valor sem atualização).
O plano decorre de acordo firmado, em 25 de setembro, com o BTG, que financiaria o pagamento das dívidas. A maior delas é com a Prefeitura de São Paulo, que seria reduzida de R$ 871 milhões para R$ 228 milhões, segundo a entidade, mediante adesão a edital que dá desconto de até 90% em juros e multas de devedores que desistirem de ações de contestação.
O pagamento para o maior desconto precisa ser à vista e até 30 de outubro. Em nota, a gestão Ricardo Nunes (MDB) respondeu que a dívida atual da entidade é de R$ 912,5 milhões. Também destacou que não há registro oficial de adesão ao programa para devedores até o momento. As adesões estão abertas até 15 de outubro.
Procurados pela reportagem, o clube e o BTG não quiseram comentar. A estimativa é de que o espaço comporte até 14 mil frequentadores após a implantação das mudanças.
O que pode mudar no Jockey
O objetivo da nova diretoria do clube é transformá-lo em um grande centro de lazer e entretenimento, com eventos de diferentes portes, comércio e atividades variadas, inspirando-se em exemplos dos Estados Unidos, da Austrália, do Japão e de outros países. Recentemente, o Jockey recebeu torneio internacional de tênis. A intenção é que sejam mantidas as corridas de cavalos.
O projeto prevê o pagamento ao BTG com recursos obtidos por meio do lançamento de novos títulos de associação. Hoje, são cerca de 580 sócios, ante 8 mil nos anos 1990, de acordo com o Jockey.
Entre mudanças planejadas para os sócios, estão boulevard gastronômico, alameda comercial e novas "experiências de convivência", sem detalhamento por ora.
A parte do parque de uso público é de 85 mil m², incluindo quadras esportivas, lagos, bosque sensorial, circuito de caminhada, parques infantis, espaço pet e estrutura para eventos ao ar livre, entre outros atrativos.
A proposta retoma parte de projeto apresentado em 2017 pelo Jockey, também com concentração do uso público no centro da pista e com acesso por passagem subterrânea. O masterplan daquele momento era assinado pelos escritórios de arquitetura e urbanismo Levisky Arquitetos Estratégia Urbana e Königsberger Vannucchi, os mesmos mencionados em apresentação feita pela entidade.
Um 'novo Jockey', diz presidente
Presidente do Jockey, Vicente Renato Paolillo, defendeu na Câmara Municipal que a ideia é de um "novo clube". A declaração ocorreu na terça-feira, durante sessão da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investiga como gestões anteriores destinaram incentivos públicos para o restauro de patrimônio tombado.
Ele é parte da nova diretoria, que assumiu em fevereiro. Aos vereadores, defendeu o acordo, mas destacou que a entidade e a prefeitura têm discordado sobre o valor da dívida, o que é alvo de judicialização há anos.
Por sua vez, o conselheiro Renato Junqueira explicou que se busca solução definitiva para a recuperação do espaço. "O turfe não vai sobreviver sozinho", disse, sobre a ampliação das atividades.
Ele acrescentou que as mudanças serão "no capricho", a fim de valorizar o título de associado, e reforçou que é um projeto de longo prazo. Também afirmou que a viabilidade depende de entendimento com a prefeitura, para regularização, licenças e novo cálculo para cobranças futuras de taxas e impostos —principalmente IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) e ISS (Imposto Sobre Serviços).
Não foi detalhado cronograma de obras. De acordo com Junqueira, o déficit operacional foi de R$ 14,2 milhões em 2025.
Na CPI, vereadores manifestaram opiniões distintas. O presidente da comissão, Gilberto Nascimento (PL), afirmou que a proposta pode ser uma "luz no fim do túnel".
"Espero que aconteça", declarou. Destacou, contudo, que o projeto não interfere no andamento da comissão —instalada em novembro de 2025 e, em setembro, prorrogada por mais 120 dias.
Em discordância, o vereador Roberto Tripoli (PV) se manifestou contrariamente à continuidade do turfe, destacando que corridas com apostas foram proibidas por lei municipal em 2024 (posteriormente declarada inconstitucional pela Justiça).
Além disso, criticou o desconto da dívida do clube —permitido por lei aprovada pelos vereadores em 2026. Por outro lado, considerou positiva a parte sobre a área de uso público.
Parque é discutido há pelo menos uma década
O hipódromo foi inaugurado em 1941 na Cidade Jardim. Com o agravamento da crise do clube, a discussão sobre a transformação em parque ganhou espaço especialmente na última década.
Em 2017, o Jockey propôs implantação de parque no interior da pista. Estudos da prefeitura concluíram por volta de 2020, entretanto, que seria "inviável", por restrições funcionais, de tombamento, altos custos de implantação e manutenção em área alagadiça —porém em cenário de transformação em equipamento público (não privado de uso público).
O tom mudou nos últimos anos, especialmente desde 2023, com embates da entidade com a gestão Nunes e o então presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União Brasil). O prefeito defendeu a transformação integral em parque e que a área seria de domínio municipal em caso de encerramento do turfe.
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