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Monday, September 28, 2026

Na Índia, estudantes ganharam voz enquanto jornalistas perdem a deles

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Em maio, o presidente da Suprema Corte da Índia comparou "jovens" desempregados a "baratas". "Alguns se tornam parte da mídia, outros se tornam criadores em redes sociais? e começam a atacar todo mundo." Mais tarde, disse que suas palavras se dirigiam apenas a pessoas com diplomas falsos.

O esclarecimento não fez diferença. A "barata" já tinha escapado do contexto e pousado sobre uma geração que rapidamente passou da frustração à ousadia.

Em Boston, o estudante indiano Abhijeet Dipke criou o Cockroach Janta Party (algo como "Partido Popular das Baratas"), um meme satírico para os "desempregados, preguiçosos e cronicamente online", brincando com o nome do partido governista, o Bharatiya Janata Party. A página logo passou de 22 milhões de seguidores.

Mas o meme só virou movimento porque a raiva já estava ali.

O vazamento de uma prova de admissão para cursos de medicina havia levado ao suicídio pelo menos 17 estudantes, e irregularidades na reavaliação de exames escolares deixaram outros milhares no limbo. Esse luto e essa raiva ocuparam o Jantar Mantar, em Délhi, por sete semanas. Estudantes fizeram greve de fome. A internet foi cortada. O fornecimento de comida e água foi estrangulado. Em 20 de julho, manifestantes que exigiam a renúncia do ministro da Educação tentaram marchar até o Parlamento. A polícia disparou bombas de gás lacrimogêneo e balas de chumbo. Cassetetes atingiram cabeças. Mas rostos ensanguentados continuaram gritando palavras de ordem.

Um fósforo tinha sido aceso.

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As grandes emissoras e os grandes grupos de mídia tradicionais, que prosperam com dinheiro do governo e cada vez mais funcionam como megafones da propaganda do partido no poder, marcaram a ferro os manifestantes como arruaceiros atiradores de pedras. Jovens influenciadores e repórteres de pequenas redações independentes entraram nos protestos com celulares e câmeras, gravando, questionando, transmitindo ao vivo. Os jornalistas da mídia tradicional se recolheram às suas câmaras de eco, alheios ao que acontecia, enquanto os manifestantes reagiam:

"Godi Media waapis jao." (Fora, mídia chapa-branca.)

A imagem do partido governista, construída ao longo de anos e à custa de milhões de rúpias, foi furada por memes, rimas e cantigas irreverentes. Crianças de cidades e aldeias viraram repórteres de brincadeira, usando garrafas como "microfones" para exigir escolas e professores onde não havia nenhum. Comediantes de stand-up que passaram anos pisando em ovos reencontraram suas piadas.

O que acontece quando a imprensa deixa de cobrar o poder e outros precisam fazer o trabalho dela? E esse movimento histórico conseguiu resgatar a liberdade de imprensa que a Índia perdeu?

Ainda não.

Em poucos dias, posts e reels dos protestos, ou críticos ao governo, começaram a sumir das redes sociais. A Seção 69A da Lei de Tecnologia da Informação da Índia dá ao governo amplos poderes para ordenar que as plataformas removam conteúdos com base em critérios tão elásticos quanto "soberania" e "segurança nacional", num processo blindado do escrutínio público por regras de confidencialidade. O Indian Express revelou que, de março a julho de 2026, o governo indiano enviou às plataformas uma ordem de bloqueio por minuto.

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Mas a remoção de conteúdo é só uma das armas.

Boletins de ocorrência. Processos criminais. Investigações fiscais e por lavagem de dinheiro. Apreensão de celulares e laptops. Anos em tribunais. Um sistema legal que permite que o próprio processo se torne a punição.

Liberdade de imprensa não é só a liberdade de publicar informação. É a liberdade de obtê-la. A Lei de Direito à Informação foi enfraquecida. O acesso a documentos do governo diminuiu.

E ainda há a vigilância. Uma jornalista não é livre só porque pode publicar. Ela precisa de fontes que acreditem poder falar sem ter ligações ou mensagens monitoradas. Não é preciso censurar uma reportagem se é possível torná-la impossível de apurar.

E quem vai sobrar para fazer reportagem?

Visito universidades onde estudantes de jornalismo me dizem, cada vez mais, que não querem ser jornalistas. Não perderam a vontade de contar histórias nem de questionar a autoridade. Fazem isso furiosamente no Instagram, no YouTube e em outros lugares. O que perderam foi a fé no jornalismo como uma profissão em que se pode construir uma vida.

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Não há liberdade de imprensa enquanto uma jovem de 23 anos não puder escolher o jornalismo como carreira e esperar que ele pague seu aluguel.

Não há liberdade de imprensa enquanto os leitores não entenderem que as redações independentes sobrevivem de suas assinaturas e de sua atenção, e não da boa vontade do governo.

Não há liberdade de imprensa quando um punhado de plataformas é a única rede de distribuição de uma reportagem e o Estado mantém o poder de derrubá-la.

Não há liberdade de imprensa enquanto jornalistas locais são mortos pelas histórias que insistem em contar.

Não há liberdade de imprensa enquanto o capitalismo de compadrio for dono das redações.

O Cockroach Janta Party provou algo real neste verão: o medo tem prazo de validade. Um cidadão com um celular pode documentar uma injustiça. Um comediante pode furar a propaganda. Estudantes podem obrigar o poder a ouvir. Mas eles não podem, e não deveriam ter de, substituir a infraestrutura do jornalismo.

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Um verão viral de dissidência não faz uma imprensa livre. Uma imprensa livre se constrói com o trabalho enfadonho, caro e nada glamoroso de redações capazes de sobreviver sem bajular o poder, e de jornalistas que possam se dar ao luxo de fazer da reportagem o trabalho de uma vida.

A barata pode ser famosa por sobreviver a quase tudo. O jornalismo não deveria ter de passar por isso.

*Ritu Kapur é uma líder da mídia indiana. É cofundadora, diretora-geral e CEO da Quint Digital Limited, empresa controladora do The Quint.

Este artigo de opinião integra a campanha do Dia Mundial do Jornalismo, uma iniciativa para mostrar o valor do jornalismo promovida pelo World Editors Forum, o Project Kontinuun e a Canadian Journalism Foundation.

O UOL incentiva o jornalismo profissional por meio da campanha Defenda a Verdade. Clique aqui para saber mais.

Veja outros textos da campanha:

Uma nova ameaça à liberdade de imprensa

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Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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