Como vai Trump marcar o 11 de Setembro, 25 anos depois?

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Está no ar o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o major General Farnam Moura. Bom dia.
Olá, bom dia a todos.
Bem-vindo, General. Depois de vários meses de interrupção, a administração Trump parece ter pegado de novo no dossiê da guerra entre a Federação Russa e a Ucrânia. No fim de semana, os dois enviados de Donald Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, estiveram em Moscovo e também em Kiev para conversações de alto nível. General, eleições à porta, será que é uma das razões para o retomar do esforço de mediação? Quais foram as primeiras impressões?
Surpresa. Não estávamos à espera disto, porque nenhuma das partes, a Federação Russa ou a Ucrânia, tinha manifestado qualquer tipo de flexibilidade ou de abertura para reabrir outra vez este processo. Aliás, parecia-nos a nós todos que Donald Trump esperava que a guerra produzisse os seus efeitos de horror sobre as respetivas sociedades, para que os respetivos líderes políticos pudessem flexibilizar, aceitar a mediação, as condições, os planos que iam ser propostos. Ora, nós não temos nenhuma indicação, nem de Kiev, nem do Kremlin, de que qualquer uma das partes estivesse disponível para alterar aquilo que era a sua posição inicial. Aliás, é muito interessante porque Putin no dia 1 de setembro, disse o seguinte sobre as negociações: "Nós não podemos negociar com a Ucrânia, porque a Ucrânia é um Estado terrorista". No dia 3 de setembro, vem dizer que isto é um assunto que só pode ser resolvido entre a Ucrânia e a Federação Russa, e os Estados Unidos e a China podem, quando muito, ajudar neste processo. As duas declarações no espaço de dois dias mudaram. "Não pode, porque a Ucrânia é..." E o segundo: "Eu só posso resolver isto dialogando com a Ucrânia". Portanto, as partes não mostraram nada. Por que é que Trump avançou aqui? Eu acho que aqui a teoria da conspiração é que vence e a que tem mais possibilidade de ser encarada como verdadeira. Trump precisa que se fale de paz. Nós estamos muito perto das eleições intercalares, precisa que se fale de paz e não de guerra. E portanto, trazer outra vez o assunto da paz na Ucrânia é, para Trump, um desenvolvimento que pode ser interessante do ponto de vista da sua programação mediática neste período que decorre até às intercalares. Pode ser isto. Na verdade, nós não conhecemos a proposta e não sabemos se houve realmente aqui alguma evolução em termos da proposta apresentada pelos americanos. Esta era a questão da oportunidade, mas depois há duas outras questões que são também importantes neste assunto: a questão da formalidade e a questão do conteúdo. A questão da formalidade é muito importante aqui. É muito importante, porque se conseguiu um cessar-fogo temporário para que houvesse condições para que a delegação norte-americana fossem recebidos de um lado e do outro. Ora, até se conseguiu que a Federação Russa interrompesse os seus bombardeamentos sobre Kyiv, para proporcionar a chegada em avião dos delegados norte-americanos para falar com o Zelensky. O que fez a Federação Russa no dia anterior ao início desse cessar-fogo? Bombardeou os aeroportos de Kyiv, no sentido de os tornar inoperacionais para que eles não pudessem chegar de avião. Isto é, Moscovo, isto é um ato de maldade pensada. Queria que em Moscovo eles fossem recebidos com toda a dignidade, com toda a estabilidade política, que sentissem um ambiente de tranquilidade e segurança, mas que essa cena não fosse repetida em Kiev.
Estabilidade e segurança.
Não, em Kiev não podiam chegar de avião porque era muito perigoso, tinham que ir de comboio. Nota-se aqui que, na verdade, há uma maldade planeada muito intensa. Depois, segunda questão sobre a formalidade. É a questão de que Moscovo adora Jared e Steve.
É muito íntimo, muito próximo.
Já utilizo os nomes próprios, porque é a forma como eles se tratam agora entre si. Jared e Steve são queridos de Moscovo. O que Moscovo ficou furioso desta vez é que eles iam a Kyiv, coisa que ainda não tinha acontecido antes. Do ponto de vista formal, Moscovo não gostou nada desta iniciativa. O que é que Moscovo gosta? Moscovo considera que Jared e Steve são os seus negociadores. Isto é, eu só me relaciono com estes. Para Kyiv que vá o general Kellogg, porque o general Kellogg não tem influência nenhuma sobre Donald Trump. Estamos a ver aqui a diferença. É tratar bem estes dois. Estes são os meus. Para tratar os assuntos da Ucrânia, não vão estes dois, até podem ser eventualmente convencidos de que a Ucrânia tem razão. Não, vai o general Kellogg, que não tem influência nenhuma sobre Trump. O último aspecto tem a ver com a tristeza das primeiras palavras de Steve Witkoff relativamente a este encontro com Com Putin, porque há muitas versões, mas eu trouxe esta que me parece que corresponde à realidade. Disse Steve Witkoff: "Presidente Putin, muito obrigado por nos receber. Nós estávamos sentados lá fora há bocadinho, eu, o Jared, o Kiril e o Yuri". Já diz tudo. "Estivemos a falar sobre quando nos reformarmos, nos vamos lembrar de todas estas incríveis histórias e memórias, e a memória destes momentos consigo estarão certamente no topo da lista". Eu espero que os nossos ouvintes tenham escrito isto, que esta é a fórmula de bajulação mais perfeita que alguém alguma vez desenvolveu. Estes são os enviados dos Estados Unidos. Os Estados Unidos não precisam de se pôr de gatas quando vão a Moscovo. E portanto, isto marca também um bocadinho tudo aquilo que foi esta encenação deste plano que foi apresentado em Moscovo. Relativamente ao conteúdo, nós não conhecemos o plano, não sabemos se houve alguma alteração substantiva relativamente a planos anteriores. Sabemos que a consequência disto é que, no final, Donald Trump deveria telefonar a Zelensky e a Putin. Sabemos da conversa com Putin, da conversa com Zelensky, não sabemos relativamente. Sabemos relativamente pouco, nem sabemos se verdadeiramente existiu. Depois disto não houve mais nada. Entretanto, há as eleições, não houve desenvolvimento, não houve apresentação de calendário, não houve relações, não houve marcação de conversações futuras, não sabemos nada. Houve aqui um golpe mediático, grande, trouxe o tema da paz e da Ucrânia outra vez, mas não sabemos se isto tem mais algum desenvolvimento.
Entretanto, na semana passada demos aqui conta do surto de hostilidades que resultou da destruição pelos norte-americanos de estruturas de lançamento de minas navais iranianas na ilha de Larak. Entretanto, esta semana houve ataques contra navios dos Estados Unidos e a destruição de vários petroleiros ligados ao Irão. General Arno Moreira, que consideração podemos fazer sobre estes últimos desenvolvimentos no Médio Oriente?
Na semana passada nós tínhamos aqui relatado o surto de atividade de violência entre Irão e os Estados Unidos, que tinha resultado da descoberta pelos Estados Unidos de sistemas lançadores de minas navais instalados na ilha de Larak pela Guarda Revolucionária. Isso deu depois origem a um conjunto de retaliações feitas pelo Irão. Mas esta semana as hostilidades são de natureza um bocadinho diferente. Por quê? Porque tiveram início por causa da tentativa do Irão de atingir navios norte-americanos. Os navios norte-americanos não são apenas aqueles que nós temos visibilidade e que fazem o bloqueio naval. Há também navios norte-americanos no Golfo a escoltar petroleiros para um lado e para o outro. E houve uma tentativa, houve pelo menos duas tentativas, o CENTCOM fala em duas tentativas em dois dias seguidos, de utilizando mísseis balísticos, atingir embarcações, navios de guerra dos Estados Unidos. Ora, os Estados Unidos não podiam ficar também indiferentes a isto. E então responderam como? Encontraram aqui uma moeda de troca. Aliás, até o formularam verbalmente. Cada vez que houver um ataque a um navio de guerra dos Estados Unidos, os Estados Unidos vão afundar petroleiros ligados, de alguma maneira, à capacidade do Irão de exportar petróleo. E portanto, da primeira vez que os navios norte-americanos foram atacados, houve o afundamento de três petroleiros ligados ao negócio do petróleo iraniano. Da segunda vez que foram atacados, no dia seguinte, houve o afundamento mais cinco. Isto é, depois ter perdido a sua marinha, a componente militar, o Irão agora começa a perder a sua marinha mercante, o que tem influência não apenas no decurso desta guerra, mas sobretudo no futuro e na capacidade do Irão de recuperar outra vez aquilo que é a sua economia fundada no petróleo. Portanto, o Irão está neste momento, depois de ter perdido a sua marinha, a perder também a sua marinha mercante. Ora, o Irão está a traçar uma fase muitíssimo complicada do ponto de vista económico e teve que fazer deslocar para as bombas de gasolina forças armadas, porque é preciso recordar que aquilo que aconteceu quando foi a sublevação popular, aconteceu na sequência de um aumento da gasolina. A gasolina é muito barata, de qualquer maneira, aparentemente terá passado praticamente para o dobro. E isto traduziu-se numa insatisfação popular imensa e obrigou as autoridades iranianas a reforçar o seu sistema de prevenção e de repressão junto dos locais onde esses protestos podem acontecer, que é junto do sítio onde as pessoas vão ter que meter gasolina. E em resumo, estamos agora numa fase um bocadinho diferente, que é uma fase em que o Irão procura desesperadamente afundar, danificar, causar vítimas no sistema norte-americano de bloqueio e de escolta através do estreito. Para isso tem utilizado mísseis de natureza balística, mas fala-se crescentemente na possibilidade da Federação Russa poder fornecer ao Irão tecnologia que permita ao Irão ter mísseis de cruzeiro supersônicos, que já constituem um outro nível de ameaça. Uma coisa é utilizar mísseis balísticos para acertar em navios que estão em movimento, outra coisa é utilizar um míssil de cruzeiro a velocidades supersónicas cuja intercepção é muito mais difícil. E, portanto, estamos agora neste jogo. E enquanto a Federação Russa se prepara para ajudar o Irão a destruir navios de guerra norte-americanos, os americanos põem-se de gatas em Moscovo a dizer que serão as melhores memórias que alguma vez poderão escrever quando passarem à reforma.
Na conferência de imprensa conjunta que os enviados de Trump deram com Zelensky, em Kiev, algumas das palavras de Jared Kushner foram interpretadas como uma cortina de fumo. O genro de Trump falou na procura de uma solução win-win, isto é, uma solução em que todos ganham, mas, General, é assim tão simples transpor uma máxima que é da economia para a guerra?
Pois não é nada fácil e é uma cortina de fumo realmente imensa que aqui se lançou. Eu percebo que estes dois enviados, em função daquilo que é o seu passado e presente e futuro ligado aos negócios imobiliários, tenham trazido para as negociações uma linguagem, que é a linguagem que eles utilizam normalmente para aquilo que são as suas funções ligadas à parte do desenvolvimento económico e dos investimentos. Simplesmente. Este é um problema inicial. Estas pessoas não estão preparadas para a diplomacia de alto nível e muito menos para ir negociar com gente muito experiente como aquela que está em Moscovo. E, portanto, ao trazer esta linguagem do: "Vamos arranjar uma solução em que todos ganhem", não é evidente que isso corresponda sequer ao desígnio moral inicial desta guerra, que era não premiar o agressor. Então vamos dar um win também a Putin. O que nós estamos a dizer, ou o que Jared Kushner disse, na verdade, foi: "Nós também temos que premiar a Federação Russa por ter agredido e invadido 20% do território da Ucrânia". Isto é muito difícil de aceitar neste nível de negociação. E, portanto, fala-se crescentemente em acrescentar a esta equipa de negociação ou substituir esta equipa de negociação pelo diretor da CIA, Ratcliffe, que Moscovo não vê com bons olhos.
Claro, porque é que será? General Álvaro Morais, hoje é dia 11 de setembro e por isso também aqui no "Domínio da Guerra", relembramos o que se passou há precisamente 25 anos nos Estados Unidos e que mudou de forma radical a forma como olhamos para o mundo.
É. Nós não podíamos deixar de passar aqui na nossa análise no "Domínio da Guerra", o 11 de setembro de 2001 e hoje o nosso ponto de mira até vai ser mais desenvolvido do que normalmente é. Mas a data merece essa atenção. No dia 11 de setembro de 2001, eu estava a trabalhar num quartel da NATO, em Madrid, na área da intelligence. E de repente, um sargento norte-americano que fazia parte da equipa de intelligence, aparece nos vários gabinetes a gritar e a dizer: "Venham ver, há um avião que embateu numa das Torres Gémeas". E nós fomos para o sítio onde havia televisão, que era na sala de fontes não classificadas, assistir incrédulos àquela imagem do embate de um avião na Torre Gémea. Entre todas as pessoas que estavam ali na sala, estava lá a equipa praticamente toda da intelligence. A sensação era esta: mas que estupidez!
Como é que isto acontece?
Como é que num dia limpo, sem nevoeiro, sem nuvens, um piloto de um Boeing 767 não vê a Torre Gémea e vai bater. Tem que haver aqui uma outra explicação qualquer. Ele sentiu-se mal, o avião não respondeu, teve um problema, um defeito qualquer. Era esta a tese que entre nós circulava.
Até o segundo avião.
Até o segundo avião, alguns minutos depois, ter embatido na outra Torre Gémea. E nessa altura, aquilo que nós dissemos entre nós foi basicamente isto. Nós estávamos no quartel-general da NATO. A NATO entrou em guerra. Foi essa a expressão que circulou entre todos. Estamos em guerra. E entrámos verdadeiramente em guerra e a NATO acabou por ir também para o Afeganistão. Mas eu trago aqui uma outra história, que é uma história também sobre o que se passou no interior da segunda torre atingida. O avião embateu a meio da torre, sensivelmente a meio da torre, por volta do andar número 80, o piso número 80. E ao fazê-lo, criou duas condições. As pessoas que estavam acima do piso do embate ficaram encurraladas. As pessoas que estavam abaixo do piso do embate, algumas puderam conseguir fugir. Houve quase 3 mil mortos entre os que morreram nas Torres Gémeas, em Washington, DC, etc. Quase 3 mil mortos Eu conto agora muito rapidamente a história de duas pessoas que estavam nesta segunda torre, a torre que foi atingida depois, e que observaram primeiro o embate na primeira torre. Telefonaram aos familiares a dizer: "Está tudo bem conosco, porque o acidente não foi na nossa torre, foi na outra torre. Portanto, estejam descansados." Isto minutos antes de um outro avião ter embatido nessa torre. Estas pessoas trabalhavam acima do piso onde houve o embate. Uma delas estava ligada à Proteção Civil e tinha uma lanterna. Esta pessoa safou-se porque tinha uma lanterna. Os nossos ouvintes que ouçam bem esta história. Safou-se porque tinha uma lanterna. Enquanto os seus companheiros de trabalho decidiram que não era seguro descer porque o embate tinha sido num piso abaixo do sítio onde estavam e fugiram todos para o telhado. Morreram todos.
Claro.
Ele, que tinha uma lanterna, decidiu descer as escadas. 1620 degraus. Pelo caminho, ainda safou uma outra pessoa que gritava por socorro e que estava encurralada. Ainda a foi safar. E depois desceram os dois 1620 degraus. Todos os outros que subiram para o teto acabaram por morrer. Morreram quase 3 mil pessoas neste incidente. E, portanto, lições a retirar disto: primeiro, uma lanterna pode fazer toda a diferença. E portanto, os nossos leitores este fim de semana-
Vão trocar os kits de sobrevivência
...além dos livros escolares, não esqueçam também de comprar uma lanterna com pilhas, porque ela pode ser importante. Depois disto, o 11 de setembro marcou uma alteração na geopolítica mundial e entramos numa fase a que nós chamamos a fase do combate ao terror. Isto é, nós estávamos muito habituados a lidar com Estados, e portanto, um Estado ou uma coligação de Estados contra um outro Estado ou uma outra coligação de Estados, e de repente apareceu na geopolítica mundial um conjunto de atores que não eram Estados. E esta revolução no sistema da geopolítica mundial ainda não terminou. Crescentemente, outros atores que não Estados têm vindo a ganhar poder. A recente visita de Marco Rubio àquilo que são os países da América do Sul, tem muito a ver com o poder que foram ganhando nesses países, as redes de tráfico de droga, os cartéis de droga e a violência que eles trazem, quer para a sociedade americana, quer para as sociedades locais. E, portanto, o 11 de setembro marcou uma alteração muito profunda. Marcou uma alteração porque marcou os americanos e provocou quase 3 mil mortes, mas trouxe também o alerta para o mundo de que há outros atores que não são Estados, mas que podem ser tão perigosos como os Estados.
General Álvaro Moreira, é com a voz embargada que acaba este "Domínio da Guerra".
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