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Friday, September 11, 2026

“Não é normal ter dor de cabeça”

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Estima-se que 8 a 15% dos cidadãos dos países ocidentais sofrem de enxaqueca, o que faz desta uma patologia mais frequente do que doenças como asma ou diabetes1. Ainda assim, a enxaqueca não é vista nem entendida por todos como uma doença, levando, muitas vezes, a que não se compreenda as limitações e incapacidades de quem sofre dela. Filipe Palavra, neurologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias (SPC), desmistifica esta doença neurológica recorrente que, em alguns doentes, pode tornar-se crónica.

Enxaqueca ou apenas dor de cabeça?

“Desde logo, importa reforçar que não é normal ter dor de cabeça”, refere Filipe Palavra, presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias. O que significa que a simples presença deste sintoma deve ser motivo mais do que suficiente para procurar ajuda médica. Mas ter enxaqueca não é o mesmo do que ter uma mera dor de cabeça: a enxaqueca é “uma síndrome neurológica complexa e recorrente (que evolui por crises), com impacto significativo no funcionamento da pessoa, a nível pessoal, social, familiar e laboral/escolar. Uma dor de cabeça ocasional, ligeira e sem outras características, é muito diferente de uma doença neurológica complexa”, explica Filipe Palavra.

Contudo, o neurologista ressalva que as enxaquecas não se manifestam todas de igual forma: desde logo, podemos distinguir enxaqueca com aura de enxaqueca sem aura. Isto é, um período da crise em que podem manifestar-se sinais neurológicos focais, como alterações da visão, da sensibilidade e da linguagem, de forma transitória e que dão, depois, lugar à dor. Mas tal não significa que quem sofre de enxaquecas tenha de ter sempre crises com aura; pelo contrário, de acordo com o presidente da SPC, é até mais comum não se ter aura. Outros tipos de enxaqueca são a episódica, “que ocorra em menos de 15 dias por mês, e a crónica, quando a pessoa tem dor de cabeça em pelo menos 15 dias por mês, durante mais de três meses, com características de enxaqueca em pelo menos oito desses dias”, diferencia Filipe Palavra.

Filipe Palavra, presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias

Características das crises de enxaqueca

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“Dor de intensidade moderada ou elevada, muitas vezes pulsátil, que pode piorar com a atividade física e ser acompanhada de náuseas, vómitos e sensibilidade à luz, ao som ou, por vezes, a cheiros. Algumas pessoas têm ainda uma aura normalmente antes da crise, com sintomas neurológicos transitórios, sobretudo alterações visuais, mas também da sensibilidade (‘formigueiros’), alterações da linguagem ou outros sintomas.”

Fonte: Filipe Palavra, neurologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias

Impacto na qualidade de vida

“A enxaqueca pode ter um impacto muito grande e frequentemente muito maior do que aquilo que é visível”, refere Filipe Palavra. É que, durante uma crise, quem sofre desta doença pode ficar incapaz de trabalhar, estudar, conduzir, cuidar dos filhos ou simplesmente manter uma atividade normal, exemplifica Filipe Palavra.

“Mas o problema não termina quando a dor desaparece. Existe também o tempo perdido, a antecipação da próxima crise e a necessidade de organizar a vida em função de uma doença que é, no limite, imprevisível.” Não é por acaso que as cefaleias são consideradas a segunda maior causa de anos vividos com incapacidades2.

A dor do estigma

Se por um lado quem sofre de enxaqueca sabe o quão incapacitante pode ser, por outro, quem nunca passou por uma crise desta doença tende a desvalorizar os sintomas sentidos por estas pessoas. “O estigma mais frequente resulta da ideia de que a enxaqueca ‘é apenas uma dor de cabeça’”, refere Filipe Palavra. Além disso, o facto de não ser uma doença visível (como uma ferida ou fratura) leva a que a gravidade nem sempre seja entendida por terceiros. “É mais fácil para a sociedade aceitar a presença de uma bota gessada ou de uma bengala, como marcas efetivas de uma doença (nem que seja transitória e seja qual for a sua natureza) do que compreender que alguém de aspecto perfeitamente saudável possa ter uma crise de enxaqueca que a impeça de se levantar da cama”, exemplifica. “Isso pode levar familiares, colegas de trabalho ou até profissionais de saúde a considerar que a pessoa está a exagerar, que é pouco resistente à dor ou que simplesmente não quer cumprir as suas responsabilidades. É uma percepção profundamente injusta.”

Este estigma pode ter ainda consequências na forma como quem sofre de enxaquecas encarar a importância do tratamento: “A doença provoca incapacidade, a incapacidade é desvalorizada, a pessoa sente-se incompreendida, e isso pode dificultar a procura e a manutenção de cuidados e tratamento adequados.”

Combater o estigma de quem sofre de enxaqueca

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Nem todas as pessoas que não sofrem de enxaqueca a encaram como uma verdadeira patologia, achando que quem tem crises de enxaqueca está a exagerar ou tem pouca tolerância à dor. Este é um estigma que importa ser combatido. Para tal, é necessário:

  • Garantir literacia em saúde e disseminar informação fidedigna;
  • Reforçar e explicar que a enxaqueca é uma doença neurológica;
  • Reforçar que a incapacidade causada pela enxaqueca é real;
  • Reconhecer que a enxaqueca tem outras manifestações clínicas além da dor de cabeça, e todas com elevado impacto na qualidade de vida da pessoa com o diagnóstico.

Fonte: Filipe Palavra, neurologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias

Enxaqueca e depressão: uma relação próxima

Não é especulação. É uma realidade comprovada: a enxaqueca e a depressão estão relacionadas. “Se uma pessoa ouve repetidamente que ‘é só uma dor de cabeça’, pode começar a desvalorizar os próprios sintomas, a sentir culpa por faltar ao trabalho ou por não conseguir cumprir determinadas tarefas, e, progressivamente, a esconder a doença. Isso pode favorecer o isolamento, fazer crescer a ansiedade, baixar a autoestima e conduzir à depressão”, exemplifica Filipe Palavra.

De acordo com o neurologista, esta relação entre enxaqueca e depressão não tem apenas um sentido; ela é bidirecional, uma vez que as pessoas com enxaqueca apresentam maior risco de depressão, mas a presença de depressão também pode aumentar a vulnerabilidade e o impacto da enxaqueca. O presidente da SPC vai mais longe, referindo que, provavelmente, existirão mecanismos biológicos partilhados entre as duas doenças, “relacionados com circuitos cerebrais envolvidos na dor, na regulação emocional e no processamento de estímulos”, aos quais se junta o impacto psicológico e social de viver com uma doença recorrente e imprevisível. Por isso, Filipe Palavra defende que “tratar a depressão é fundamental para melhorar as queixas atribuíveis à enxaqueca e vice-versa”. Contudo, o tratamento da enxaqueca não tem de ser diferente pelo facto de haver depressão associada. O importante, refere o neurologista, é “tratar simultaneamente as duas condições e escolher, sempre que possível, tratamentos que sejam favoráveis para ambas”.

Primeiros sintomas de enxaqueca: como reagir

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Caso sofra de enxaqueca, Filipe Palavra, neurologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias, aconselha a não esperar que a dor atinja a sua intensidade máxima, devendo seguir-se, idealmente, o plano de tratamento definido com o médico, tratando, assim, a crise, numa fase inicial. Além disso, o neurologista aconselha ainda:

  • Retirar, temporariamente, estímulos que agravem a crise, como luz intensa, ruído ou atividade física;
  • Evitar a utilização excessiva de medicamentos abortivos da crise, uma vez que pode contribuir para o desenvolvimento de cefaleia por uso excessivo de medicação;
  • Estar devidamente hidratado;

Caso as crises sejam frequentes, não aumentar a quantidade de medicamentos abortivos de crise, mas, antes, discutir, com o médico, a pertinência de um tratamento preventivo.

Tratamentos e inovações terapêuticas

“A enxaqueca não tem cura, mas tem tratamento”, relembra Filipe Palavra. Se tratar a crise é fundamental, também é certo que nem sempre é suficiente para muitas pessoas que sofrem de enxaqueca. A abordagem deve, segundo o neurologista, combinar três aspetos cruciais: “Tratamento agudo da crise, prevenção das crises (havendo indicação para tal) e identificação/gestão dos fatores que podem agravar a doença.” Mas mais do que tudo, e como cada pessoa é um caso, o neurologista ressalva que é essencial que a escolha dos medicamentos a usar seja individualizada, tendo em conta a frequência das crises, a incapacidade gerada, a existência de outras doenças, as preferências da própria pessoa a quem se oferece o tratamento e as características específicas de cada fármaco.

Filipe Palavra considera que estamos a viver uma “verdadeira mudança de paradigma no tratamento da enxaqueca”, destacando três grandes acontecimentos:

  • Surgimento de tratamentos focados na CGRP, a molécula-chave na origem da enxaqueca. Desta forma, passou a usar-se anticorpos e pequenas moléculas (os gepants) para evitar-se crises, passando a haver tratamento específicos para a enxaqueca — até então, muitos medicamentos preventivos tinham sido originalmente criados para outras doenças;
  • Aprovação da utilização da toxina botulínica tipo A, sobretudo para a enxaqueca crónica;
  • Evolução dos tratamentos específicos para a crise.

Mas para Filipe Palavra, a maior invenção não reside apenas num novo medicamento, mas antes na mudança de conceito: “Hoje, podemos aspirar não apenas a reduzir a dor, mas a devolver à pessoa com diagnóstico de enxaqueca a sua vida normal. O objetivo deve ser cada vez mais um tratamento personalizado, precoce e orientado para aquilo que realmente importa ao doente — recuperar dias de vida, atividade, trabalho, estudo e relações familiares, com qualidade.

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