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Sunday, November 8, 2026

A seca na Itália que ameaça um negócio de US$ 2,3 bilhões escondido debaixo da terra

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A produção de trufas na Itália, que podem custar até 4 mil euros por quilo, enfrenta dificuldades provocadas pelo calor extremo e pela falta de chuvas. A queda na oferta preocupa produtores de um dos principais países do comércio internacional do produto, justamente quando o mercado global está em expansão.

Segundo a consultoria Fortune Business Insights, o mercado mundial de trufas, avaliado em US$ 1,1 bilhão em 2025, deve alcançar US$ 2,32 bilhões até 2034, com crescimento médio anual projetado de 8,6%.

A Itália tem participação relevante nesse negócio, com US$ 65,4 milhões em exportações e US$ 61,6 milhões em importações, segundo o Observatório da Complexidade Econômica (OEC). O desafio agora é manter a oferta diante de condições climáticas cada vez mais adversas.

No Piemonte, no norte do país, a temporada detrufas negras de outono, iniciada em outubro, começou abaixo das expectativas. O verão de 2026 foi o mais quente já registrado na região, com temperaturas que chegaram a 40 °C no fim de julho.

Marco Boido, de 49 anos, comerciante de trufas e proprietário de restaurante em Alessandria, afirma que a oferta está muito abaixo do esperado.

“Começamos a temporada de maneira terrível, estamos com menos de 50% da produção. Este ano, são muito menores e mais aromáticas, é verdade”, disse em entrevista à AFP.

A dificuldade também é sentida por quem percorre as florestas em busca dos fungos subterrâneos. Giuseppe Esposito, de 69 anos, passou quase cinco horas acompanhado de Átila, seu cão farejador de sete anos, nos bosques próximos a Pietra Marazzi, no Piemonte.

O resultado foram apenas duas pequenas trufas. “A lua está perfeita e, no entanto, só encontrei duas pequenas esta noite”, lamentou o italiano, que atribui a escassez à falta de chuvas em julho e agosto.

As trufas são encontradas na natureza com o auxílio de cães farejadores treinados para identificar o aroma característico desses fungos subterrâneos. Historicamente, porcos também eram utilizados na busca.

A produção de trufas na Itália

As mudanças climáticas estão alterando o calendário de coleta das trufas, tradicionalmente encontradas em áreas úmidas e sombreadas.

Segundo Fabio Cerretano, presidente da federação de associações de coletores de trufas, a falta de umidade no solo prejudicou o desenvolvimento de diferentes variedades, incluindo a trufa negra de outono.

Desde 2024, o Piemonte vem adiando a abertura da temporada de coleta em razão das mudanças nas condições climáticas.

A preocupação também se estende à trufa branca de Alba, uma das variedades mais valorizadas do mercado, encontrada principalmente em áreas do Piemonte e em outras regiões italianas.

Coletores relatam que o calor fora de época secou margens de riachos e vales tradicionalmente úmidos. Os melhores exemplares têm sido encontrados em regiões montanhosas mais frescas, onde a umidade foi preservada.

Para Boido, a persistência da seca pode alterar a própria geografia da produção. “Se esta seca continuar, haverá cada vez menos na nossa área”, afirmou, ao prever um possível deslocamento das trufas para outras regiões.

Concorrência de plantações espanholas

A coleta de trufas é uma atividade tradicional nas comunidades rurais italianas e foi reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural imaterial.

O país reúne mais de 70 mil coletores licenciados, conhecidos como tartufai ou trifolau, que utilizam cães treinados para localizar os fungos escondidos sob o solo.

Para muitos desses profissionais, a atividade representa uma fonte complementar de renda. Ganhos anuais de até 7 mil euros provenientes da coleta contam com isenção tributária, conforme as regras citadas para o setor.

Mas o negócio vem passando por uma transformação. Além das trufas silvestres, cresce a importância das plantações comerciais, nas quais árvores são inoculadas com fungos para estimular o desenvolvimento das trufas em suas raízes.

A Espanha se tornou uma concorrente importante nesse segmento, especialmente na produção de trufas negras. O país investiu em grandes áreas cultivadas, ampliando a oferta e reduzindo custos de produção.

Na Itália, a transição para um modelo de produção mais estruturado enfrenta resistência. Em 2025, o governo tentou reformar a legislação do setor para estimular a atividade, mas a proposta sofreu oposição de coletores tradicionais e permaneceu bloqueada no Senado.

Entre a pressão climática e a concorrência de produtores que investem no cultivo comercial, a Itália enfrenta o desafio de preservar sua tradição sem perder competitividade em um mercado internacional em expansão.

Para Giuseppe Esposito, entretanto, a atividade continua sendo mais do que uma fonte de renda. Ex-caçador, ele afirma que a emoção de encontrar uma trufa supera a das antigas caçadas.

“Quando você sente o aroma da trufa, quando o cão começa a cavar, fica ali e não solta, você o vê se cansar, mas continua cavando a pele arrepia”, conta.

A tradição segue viva nas florestas italianas. O desafio agora é garantir que ela continue economicamente viável diante de temporadas cada vez mais imprevisíveis.

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