Remédio aprovado nos EUA pode evitar perda muscular com canetas emagrecedoras
Os Estados Unidos aprovaram um novo medicamento que atua diretamente sobre a perda muscular em pacientes com atrofia muscular espinhal (AME). Chamado apitegromabe, o tratamento bloqueia a ação da miostatina, proteína que limita o crescimento dos músculos.
De acordo com comunicado divulgado na última sexta-feira, 9, o medicamento, comercializado como Isembyld, foi autorizado para adultos e crianças a partir de 2 anos com AME que já recebem tratamento direcionado ao gene SMN2.
Além do uso aprovado, o apitegromabe também é estudado para outra finalidade: preservar massa muscular durante o emagrecimento. Um ensaio de fase 2 publicado na revista científica Nature Medicine avaliou a combinação do medicamento com tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, em adultos com sobrepeso ou obesidade.
Nesse estudo, a perda total de peso foi semelhante entre os grupos, mas os participantes que receberam apitegromabe perderam menos massa magra. O uso para obesidade, no entanto, ainda não foi aprovado.
Como o apitegromabe age contra a perda muscular
O apitegromabe é um anticorpo monoclonal desenvolvido para interferir na ação da miostatina, proteína que funciona como um mecanismo de controle do crescimento muscular.
A miostatina reduz a produção de novas proteínas musculares, favorece a degradação das já existentes e inibe células-tronco envolvidas na reparação e no crescimento do músculo.
O medicamento se liga à forma ainda inativa dessa proteína e impede sua ativação. Com isso, a estratégia busca atuar diretamente sobre o músculo. Essa característica diferencia o tratamento das terapias já utilizadas contra a atrofia muscular espinhal, que atuam sobre mecanismos ligados à origem genética da doença.
Como a AME afeta os músculos
A atrofia muscular espinhal é uma doença genética rara que afeta cerca de um em cada 10 mil nascidos vivos. A condição está associada a uma alteração no gene SMN1, responsável pela produção de uma proteína essencial para a sobrevivência dos neurônios motores.
Essas células nervosas partem da medula espinhal e transmitem aos músculos os comandos necessários para a contração. Quando falta a proteína produzida pelo SMN1, os neurônios motores deixam progressivamente de funcionar. Sem receber os estímulos adequados, os músculos enfraquecem e sofrem atrofia.
Tratamentos existentes atuam sobre o gene SMN2, que normalmente produz uma versão defeituosa da proteína. As terapias corrigem esse processo para aumentar a quantidade da proteína necessária à sobrevivência dos neurônios motores.
Mesmo com esses tratamentos, pacientes em estágios mais avançados ainda podem apresentar limitações motoras importantes. O apitegromabe adota uma estratégia diferente ao direcionar sua ação ao próprio músculo.
Estudo avaliou tratamento durante um ano
A eficácia e a segurança do Isembyld foram avaliadas em um ensaio clínico de 52 semanas, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. A pesquisa incluiu 188 participantes, com idades entre 2 e 21 anos, que não conseguiam se movimentar ou caminhar de forma independente. Todos já recebiam uma terapia aprovada direcionada ao gene SMN2.
Os participantes foram divididos para receber apitegromabe nas doses de 10 mg/kg ou 20 mg/kg, por infusão intravenosa, ou placebo. A aplicação ocorreu uma vez a cada quatro semanas durante aproximadamente um ano.
A análise principal considerou 156 participantes com idades entre 2 e 12 anos. Ao final do período, o grupo que recebeu 10 mg/kg de apitegromabe apresentou melhora na função motora, enquanto houve declínio no grupo placebo.
Os participantes tratados também tiveram probabilidade mais de duas vezes maior de apresentar uma melhora considerada clinicamente significativa em comparação com aqueles que receberam placebo.
Entre as reações adversas mais comuns apareceram infecções do trato respiratório superior, vômitos, tosse, outras infecções virais, dor de cabeça, gastroenterite e faringite. Também foi observado aumento do risco de fraturas, inclusive graves.
Medicamento também é testado com Mounjaro
A preservação muscular também passou a ser investigada durante o tratamento da obesidade com tirzepatida. Em um estudo de fase 2, 102 adultos com sobrepeso ou obesidade foram divididos em dois grupos. Um recebeu apenas tirzepatida durante 24 semanas. O outro recebeu tirzepatida combinada ao apitegromabe pelo mesmo período.
O medicamento experimental foi administrado por infusão intravenosa a cada quatro semanas. Para permitir a comparação, o grupo que utilizou somente tirzepatida recebeu placebo. Ao final das 24 semanas, a perda total de peso foi semelhante nos dois grupos. A composição dessa redução, porém, foi diferente.
A massa magra representou 14,6% do peso perdido entre os participantes que receberam apitegromabe, ante 30,2% no grupo placebo. Em média, o primeiro grupo perdeu 1,9 kg menos de massa magra, resultado que correspondeu a uma preservação 54,9% maior.
Uso para obesidade ainda depende de novos estudos
Os resultados sobre preservação de massa magra vieram de um ensaio clínico de fase 2. Portanto, a autorização concedida pela FDA não inclui o tratamento da obesidade. Para que o apitegromabe possa receber uma eventual aprovação para essa finalidade, ainda são necessários estudos de fase 3.
A Scholar Rock busca parcerias para avançar nessa etapa e avaliar o medicamento para preservação e recuperação de massa muscular associada à perda de peso quando combinado à tirzepatida.
O estudo de fase 2 também registrou taxas semelhantes de eventos adversos nos dois grupos. Os dados disponíveis, porém, ainda não representam uma autorização para utilizar o medicamento com o objetivo de preservar músculos durante o emagrecimento.
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