Novos tratamentos contra o câncer de pulmão aguardam o papa Leão 14
O papa Leão 14 talvez tenha tido sorte por ter desenvolvido câncer de pulmão agora, e não há seis anos atrás. Os tratamentos mudaram tanto que, segundo especialistas, são quase irreconhecíveis.
Para muitos pacientes, o câncer de pulmão já não é o diagnóstico tão sombrio que foi no passado, afirma Karen Knudsen, CEO do Parker Institute.
"Muitas pessoas têm essa reação instintiva ao câncer de pulmão —a de que ele pode ser rapidamente fatal—, mas essa percepção está um pouco ultrapassada, sobretudo quando a doença é detectada precocemente", diz Lecia Sequist, oncologista torácica do Mass General Brigham Cancer Institute.
"Estamos realmente diante de um paradigma totalmente novo no câncer de pulmão: os pacientes vivem muito mais, e as taxas de cura são maiores do que há 10 ou 20 anos."
O câncer de pulmão ainda é a principal causa de morte por câncer tanto entre homens quanto entre mulheres, matando mais de 124 mil americanos por ano.
Mas a taxa de mortalidade hoje é metade da registrada na década de 1990. Em parte porque menos pessoas fumam, mas também porque os tratamentos desenvolvidos recentemente estão funcionando.
O câncer de Leão, um adenocarcinoma, foi descoberto durante um exame médico de rotina. Os médicos do papa removeram um lobo de seu pulmão na terça-feira (13) e estão realizando novos exames para determinar se há necessidade de outros tratamentos e, em caso afirmativo, quais.
Robert Merritt, cirurgião torácico do Wexner Medical Center da Universidade Estadual de Ohio, mostra-se otimista.
"O fato de a cirurgia ter sido oferecida ao papa como tratamento principal indica que, muito provavelmente, o tumor está em estágio inicial, foi detectado precocemente e pôde ser completamente removido por cirurgia", afirma. "Na maioria dos casos, há uma possibilidade razoável de cura completa."
Ainda assim, é quase certo que os médicos do papa realizarão testes genéticos no tumor. A partir daí, disseram especialistas, seu tratamento e prognóstico passarão a fazer parte desse novo mundo de terapias contra o câncer de pulmão.
Um primeiro passo é determinar quais mutações podem estar impulsionando o crescimento do câncer. Há cerca de 14 ou 15 mutações genéticas frequentemente encontradas no câncer de pulmão, segundo Roy Herbst, especialista na doença e diretor do instituto de câncer do Dartmouth College.
A mais comum é uma mutação em um gene chamado EGFR. Há seis anos, não existiam medicamentos direcionados para combatê-la quando a doença estava em estágio inicial, diz Herbst. Com o tempo, os tumores desenvolvem resistência a esses medicamentos, mas eles podem proporcionar anos de vida aos pacientes.
David Barbie, chefe de oncologia torácica do Dana-Farber Cancer Institute, afirma que, se um paciente tem câncer de pulmão em estágio dois —o que significa que a doença se espalhou para os linfonodos ou que o tumor tem mais de quatro centímetros— e recebe quimioterapia após a cirurgia, o risco da doença voltar cai de 40% para 30%. Mas o uso de um medicamento que ataca mutações no EGFR reduz esse risco para 10%.
O EGFR não é a única mutação genética que pode ser combatida com medicamentos direcionados. Outras incluem genes como ALK, RET e ROS1. E os medicamentos continuam apresentando melhoras.
Alguns pacientes apresentam mutações em outro gene, o KRAS, que podem ser atacadas por uma nova e promissora classe de medicamentos atualmente em estudos clínicos.
Barbie afirmou que, se um tumor tivesse uma mutação específica, como uma no EGFR, os médicos poderiam usar exames de sangue para verificar se a cirurgia inicial realmente eliminou todo o tumor. Os exames procuram fragmentos de DNA do câncer que circulam na corrente sanguínea. Se forem encontrados, o paciente não está curado e precisa continuar o tratamento, diz Barbie.
Mas, de acordo com Herbst, de 70% a 80% das pessoas que nunca fumaram não têm mutação genética passível de tratamento com medicamento direcionado.
Eles têm outras opções, afirma Knudsen."Há todo um novo mundo sobre o qual ouvimos falar na ASCO", diz ela, referindo-se a uma reunião recente da Sociedade Americana de Oncologia Clínica.
Ela explica que existem anticorpos capazes de identificar um tumor e levar a quimioterapia diretamente até ele. Estudos clínicos com esses medicamentos em pacientes com câncer avançado tiveram "resultados fenomenais", acrescenta.
Há também a imunoterapia. Ela é útil sobretudo para fumantes, cujos cânceres tendem a apresentar tantas mutações que conseguem escapar dos ataques de medicamentos direcionados. Mas essas mutações os tornam vulneráveis ao ataque do sistema imunológico.
Os cânceres usam vários artifícios para se esconder do sistema imune. As imunoterapias, porém, podem retirar o manto que encobre o câncer e permitir que os glóbulos brancos destruam o tumor.
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O problema da revolução nos tratamentos contra o câncer de pulmão é que eles não são oferecidos a um número grande de pacientes. Um levantamento amplo mostrou que 34% dos pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas nunca testaram geneticamente seus tumores.
Outros não têm condições de pagar pelos comprimidos, que podem custar US$ 10 mil ou mais por mês. O Medicare estabelece um teto anual para copagamentos, mas pacientes sem seguro ou com plano de saúde privado podem receber contas de medicamentos capazes de levá-los à falência.
Não há solução fácil, mas os cuidados oferecidos ao papa podem mostrar o que é possível, disseram os especialistas. "Meu sonho é que todos os pacientes com câncer no mundo recebam um tratamento como o dele", afirma Herbst.
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