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Saturday, September 12, 2026

Fim do dinheiro fácil: por que o venture capital ficou mais seletivo para startups no Brasil

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RESUMO | O mercado brasileiro de venture capital movimentou cerca de R$ 900 milhões em 17 transações no segundo trimestre de 2026, segundo a ABVCAP e a TTR Data. Na comparação anual, o valor investido caiu 10% e o número de operações recuou 22%. Tecnologia da Informação e Serviços Financeiros concentraram a maior parte dos aportes.

Cerca de R$ 900 milhões foram movimentados em venture capital no segundo trimestre de 2026. Os dados são da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), em parceria com a TTR Data.

No período, foram realizados 17 deals, 13 deles com valores públicos. Os dados revelam uma leve retração no segmento na comparação com o mesmo período do ano anterior, quando foram fechados 22 deals que movimentaram R$ 1 bilhão, uma queda de 10% no valor investido e de 22% no número de transações.

“Há uma variação maior nos valores por conta de dois fatores relevantes: o primeiro é que em alguns casos, há deals maiores, que acabam puxando o valor nestes comparativos, e o outro é que nem sempre os valores correspondem ao total de investimentos, porque alguns deals não têm o valor divulgado”, diz Priscila Rodrigues, presidente da ABVCAP.

O relatório ainda mostra que 36,46% das rodadas foram destinadas a Series A, 17,71% para Series B, 2,08% para Series C e 1,04% para Series E. Além disso, 39,58% dos investimentos não tiveram o estágio das startups identificado.

O que causa a retração

O relatório mostra uma leve retração no número de deals em comparação com o mesmo período do ano anterior. Para Priscila, fatores da macroeconomia nacional e global podem contribuir para esse movimento.

“Estamos em um momento com a taxa de juros alta, cenário macroeconômico desafiador e, consequentemente, dificuldades de saídas. Os fundos estão com ciclos mais longos e aguardam os melhores momentos para saídas, para terem bons retornos e poderem investir novamente”, diz.

Há ainda um processo de amadurecimento do ecossistema. “Diferentemente do período entre 2021 e 2022, quando houve um excesso de capital e valuations inflacionados, hoje temos uma indústria de venture capital mais equilibrada, fazendo investimentos mais seletivos e foco em modelos de negócios consolidados e potencial de escalabilidade real”, afirma.

Para onde foram os investimentos

TI e Serviços Financeiros foram os setores que mais receberam aportes durante o segundo trimestre, com, respectivamente, 51,9% e 30,5%.

“No setor de tecnologia, vemos muitas oportunidades relacionadas à digitalização, automação, infraestrutura de software e, cada vez mais, à inteligência artificial. Por isso, há tantas startups focadas nessas soluções”, diz Priscila.

Por outro lado, as fintechs brasileiras já são reconhecidas pela capacidade de inovação, execução e escala, o que faz com que o nicho continue atraindo investidores. “Há empresas que já provaram seu modelo no mercado brasileiro e agora têm condições de expandir regional ou globalmente, além de uma nova geração de soluções que ainda pode transformar diferentes segmentos dos serviços financeiros”, afirma.

Em seguida, aparecem os setores de Saúde (10,5%), Materiais Básicos (3,7%), Consumo (2,7%) e Business Services (0,7%). O Sudeste concentra a maior parte dos valores investidos, com 87,8% do total.

O relatório ainda destaca as maiores operações do trimestre:

  • A Enter, plataforma de agentes de IA para gestão de litígios em massa (EnterOS), captou mais de US$ 100 milhões (R$ 494,51 mi) em Série B liderada pelo Founders Fund, com Ribbit, Sequoia, Kaszek e ONEVC, alcançando valuation de US$ 1,2 bilhão e tornando-se o primeiro unicórnio de IA da América Latina. Foi a maior rodada de VC do trimestre.
  • A Uncover, plataforma de marketing mix modeling com IA fundada em 2021, captou Série A de R$ 80 milhões com ABSeed Ventures, Cloud9 Capital e Scale-Up Ventures, para expansão internacional (EUA) e aceleração tecnológica.
  • A Memed, plataforma de prescrição digital, captou R$ 80 milhões em rodada 100% primária co-liderada por DGF Investimentos e BridgeOne, com a DNA Capital, para acelerar engenharia, produto e a incorporação de IA à jornada de prescrição.
  • A Belterra Agroflorestas captou R$ 75 milhões em rodada Série A para plantar cerca de 15 mil hectares de cacau em sistemas agroflorestais, recuperar pastagens degradadas e tornar-se a maior produtora de cacau do país.
  • O Globo Ventures, veículo de venture do Grupo Globo, acompanhou a Série B de R$ 70 milhões da Franq ao lado de Valor Capital e Quona — follow-on estratégico em investida do portfólio.

Como as startups podem se diferenciar

No contexto atual, a presidente avalia que os investimentos estão mais seletivos. Para as startups, é importante apresentar a solução com clareza e comprovar o potencial.

“Mostrar que existe um modelo de negócios claro e sustentável, evidências de que a solução funciona e encontra demanda no mercado, capacidade de execução e uma estrutura societária minimamente organizada”.

Para empreendedores em busca de capital, a construção de relacionamento com gestores de venture capital pode ser estratégica mesmo antes de uma rodada de investimento. A recomendação é mapear fundos com atuação alinhada ao setor da empresa, manter uma relação próxima com os investidores e estar aberto a incorporar sugestões para aprimorar o negócio.

“Nem sempre haverá uma alocação na primeira reunião, mas, conforme a empresa amadurece, as chances de captar recursos aumentam”, afirma.

Até o fim de 2026, o mercado brasileiro de venture capital deve manter um ritmo mais moderado, influenciado pelas condições macroeconômicas e pelo cenário de juros. O período eleitoral pode aumentar a cautela dos investidores e prolongar o tempo de negociação dos deals, especialmente diante das incertezas sobre os próximos rumos da política econômica.

“Podemos ter um ritmo um pouco mais lento até as eleições, mas não esperamos uma interrupção do mercado. Os investimentos devem continuar acontecendo e, com a redução das incertezas após o período eleitoral, a expectativa é de uma retomada gradual para um ritmo mais forte”, diz Priscila.

Quanto o mercado de venture capital movimentou no segundo trimestre de 2026?

O venture capital movimentou cerca de R$ 900 milhões no período, segundo levantamento da ABVCAP em parceria com a TTR Data. Foram realizadas 17 transações, das quais 13 tiveram os valores divulgados.

O investimento em venture capital caiu no Brasil em 2026?

Sim, o valor investido no segundo trimestre de 2026 caiu 10% em relação ao mesmo período de 2025, segundo a ABVCAP e a TTR Data. O número de transações recuou 22%, de 22 para 17 operações.

O que explica a retração do venture capital?

Juros elevados, um cenário macroeconômico desafiador e dificuldades para realizar saídas contribuem para a retração, segundo Priscila Rodrigues, presidente da ABVCAP. A executiva também aponta que os fundos estão mais seletivos e priorizam modelos de negócios consolidados e com potencial real de escala.

Quais setores receberam mais investimentos de venture capital?

Tecnologia da Informação recebeu 51,9% dos aportes no segundo trimestre de 2026, enquanto Serviços Financeiros concentrou 30,5%, segundo o relatório. Saúde aparece em seguida, com 10,5%, e o Sudeste reuniu 87,8% do valor total investido.

Qual foi a maior rodada de venture capital do trimestre?

A maior rodada foi a Série B da Enter, que captou mais de US$ 100 milhões, equivalentes a R$ 494,51 milhões. Liderada pelo Founders Fund, a operação avaliou a plataforma de agentes de inteligência artificial em US$ 1,2 bilhão.

O que uma startup precisa demonstrar para captar investimentos?

Uma startup deve apresentar um modelo de negócios claro e sustentável, evidências de demanda, capacidade de execução e uma estrutura societária organizada, segundo Priscila Rodrigues. A presidente da ABVCAP também recomenda mapear fundos alinhados ao setor e construir relacionamento com investidores antes da rodada.

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