Nos Bijagós, com o veneno do mundo

Com uma epígrafe de Montaigne a avisar os leitores que cada viagem tem sentido duplo, Paulo Ramalho (1960-), poeta e antropólogo, viajou à boleia dum veleiro até à Guiné-Bissau para um reencontro consigo mesmo em Bissau, onde viveu com os pais em 1973-74, e para esclarecer in loco velhas dúvidas sobre o efectivo ou exagerado matriarcado bijagó e o sistema social baseado em classes de idade, régulos, homens grandes e homens velhos, e como um e outro destes regimes sociais se ajustariam ao tempo actual e ao seu “difícil equilíbrio entre tradição e mudança” (p. 163). No arquipélago daquela ex-colónia portuguesa, dado como paraíso ecológico porém ameaçado pelo plástico — o turismo pode ter um papel regenerador, mas afigura-se-lhe já como uma “nova peste” (p. 129) —, viajou da canoa entre ilhas e de motorizada dentro delas, visitando nas tabancas figuras locais supostamente capazes de responder às suas inquietações e “cepticismo inveterado” (p. 59), encontrando, ao invés disso, barreiras defensivas muito próprias às “suas perguntas sobre tudo e mais alguma coisa” (p. 75) e à pressa nas respectivas respostas (“os brancos têm sempre pressa”, resume alguém na p. 121). Em três páginas de antologia fica descrito o encontro do autor com a mãe do seu guia, onde se lê: “O balde das palavras está completamente vazio, nada mais tem a dizer ao branco. Porque haveria de lhe contar a sua vida? (p. 150).
Desdobrando-se em narrador, viajante e “candidato a antropólogo” (p. 98), com notas de campo que nos são dadas a ler a espaços — a mais relevante das quais sobre a organização social bijagó, assente em sete grupos etários masculinos, nas pp. 142-45 —, Ramalho assume-se como europeu de passagem na “parte pobre do mundo”. Sabe que “o povo bijagó lida com desafios tão complexos como a destruição ambiental, o lixo, o narcotráfico, a delapidação dos recursos marinhos ou o turismo” (p. 63), e que está submetido a “uma classe dirigente [política] que parasita a pobreza através da ONGs e esquemas de saque assentes na Cooperação” (p. 67) — e, ainda assim, propõe-se “abrir uma janela sobre a realidade bijagó para melhor entender a complexidade do mundo actual” (p. 59), e, reflexivamente, “perceber com que linhas se constrói, neste século XXI, a identidade do povo bijagó” (p. 70).
Tal complexidade consiste em assumir o mundo como “esse grande animal doente” (p. 114), admitir que a nossa é “uma civilização que se afunda” (p. 12) e que os “aventureiros ciosos da liberdade são uma espécie em extinção” (p. 18). O espectro das guerras em curso consome o autor que — faz-nos saber — “se aflige demasiado com as grandes questões éticas e políticas” (p. 165) e “não ignora que este impulso para o belo, esta verbalização do inefável, é uma simplificação poética da realidade” (p. 12). Percorre então uma parte do arquipélago guineense enquanto “paraíso tropical postiço […] a agonia do planeta atirada para detrás do cenário ou afogada em várias demãos de bom verniz marítimo” (p. 72), ao mesmo tempo que identifica alguns dos seus problemas (e falha outros, como a pesca industrial predatória), o menor dos quais não poderá ser o lixo: “Toneladas de plástico, abandonado nas bermas e caminhos ou amontoado em pilhas fumegantes” (p. 49); “passa de novo, no refluxo da maré, a procissão do lixo” (p. 15); “as ruas afogam-se em lixo” (p. 31); “não há sequer uma lixeira onde se possa depositar a porcaria que entulha Bubaque” (p. 55) — em suma: “Lixo, lixo, lixo — o retrato da nossa época” (p. 20), pois “a humanidade é um grande corpo apodrecido, um organismo em convulsão que drena os seus problemas para dentro do oceano” (p. 17). “Quantos dos seus habitantes estão cientes dos sérios riscos que enfrentam devido à subida do nível da água do mar?”, pergunta-se o autor já perto do fim do livro (p. 170).
A ilha de Bolama, capital portuguesa da Guiné até 1941, “pequena Veneza tropical adormecida na cama dos séculos” (p. 23), “cenário faustoso” (p. 40) e “delírio colonial” (p. 47), apresenta-lhe edifícios amplos outrora airosos agora em processo acelerado de degradação ou já ruínas fulgurantes, enquanto nos jardins desmazelados plásticos voam e nos passeios esburacados se amontoam “os sobejos dos miseráveis, à espera de serem queimados ali mesmo, a céu aberto”. Em Bubaque, “desolada e incongruente” (p. 167), encontra “as cores carregadas de um quotidiano miserável: meia dúzia de ruas onde a lama substitui o alcatrão, uma amálgama de casebres, alguns negócios informais e, sobretudo, muito lixo” (pp. 48-49). À chegada a Bissau, “tem diante dos olhos um velho pontão sem luz, arruinado e sujo, vestido de sombras imprecisas, onde sobrevivem ancorados diversos batelões em estado de pré-naufrágio” (p. 176). E mais tarde, quando enfim chega a hora de voltar a casa, o aeroporto internacional de Bissalanca é “um edifício sujo e desconfortável, soturno como uma noite chuvosa, corroído por anos de incúria” (p. 190), e já no ar “sobrevoa uma cidade onde as queimadas destilam a sua última pestilência no sereno da manhã” (p. 191). Ilhas e ilhéus considerados sagrados, “de acesso condicionado” (p. 127) e tradicionalmente reservados para cerimónias rituais, correm sério risco de perderem a sua integridade ambiental indispensável a futuras gerações de aves e de tartarugas, como esclarece o livro Parque Nacional Marinho de João Vieira e Poilão: biodiversidade e conservação, que recenseámos. Por tudo isso, “o forasteiro interroga-se: Terá valido a pena vir de tão longe, abandonando o ocidente às suas contradições, para procurar respostas neste lado do mundo?” (p. 50), ou mesmo “o segredo mais bem guardado, o elixir da esperança” (p. 71).
Título: “Bijagós. Uma viagem ao Sul Global” | Autor: Paulo Ramalho | Editor: Companhia das Ilhas | Páginas: 202
Dois personagens locais, designadas K e J, cada uma a seu modo ajudam Paulo Ramalho nesse audacioso quanto improvável inquérito. O primeiro, “rei não coroado dos Bijagós, redentor das ilhas, benemérito omnipresente e tentacular” (p. 65), foi emigrante em Portugal e nos Estados Unidos onde, campeão de artes marciais tailandesas, fez boa fortuna e investiu em ginásios, voltou e agora, com uma “teia de contactos e cumplicidades nas pequenas ilhas”, “quer colocar os Bijagós no mapa dos destinos exóticos de férias” (p. 67). Não é caso único, claro, compete, aliás, com “empresários de vidas duvidosas que acenam com belos projectos e propõem às comunidades a construção de resorts — uns mais luxuosos, outros menos” (p. 129), e também ele falha ou adia a palavra dada. No seu ginásio de Bissau Velho, “a alardear elegância entre espelhos de dança, sacos de boxe e aparelhos de musculação” (p. 185), há pelas paredes, “penduradas como troféus”, muitas máscaras bijagós — cabeças de boi, peixes-serra, tubarões-martelo —, tradicionalmente usadas nas danças de iniciação das classes de idade. Este “acervo cultural e artístico de valor inestimável”, ali preservado, obliterou de facto a continuação de antigos rituais bijagós no contexto comunitário das tabancas donde provêm, mas o antigo campeão de kickboxing justifica tê-las comprado com consciência patrimonial — “se não for eu, vão ser os turistas a ficar com elas” (p. 186) —, o que parece sensato. “Ele sabe falar com o povo e dá-lhe algo em troca, ao contrário do Estado, mas não quer ser Estado” (p. 67).
J é um “jovem negro, alto e elegante”, “precioso intérprete” e “solícito anfitrião”, que Paulo Ramalho conheceu como guia na ilha de Canhaque e o recebeu na sua casa em Biná, a tabanca onde está a dar bons resultados uma experiência-piloto de salubridade pública — “não se sente, nas imediações de Biná, o odor a merda e mijo humano tão comum em outras paragens de África” (p. 84) —, e onde se em “urbanizar melhor” (p. 87). Essa passagem por Biná permitiu ao viajante testemunhar um “dia grande”, o da chegada de ajuda internacional: nove sacos de roupa usada por ocidentais foram abertos diante da população reunida no terreiro. Embora comece por ver ali, “com cepticismo e algum desconforto”, uma “humilde comunidade que hoje se oferece o exercício da esmola como representante do Sul Global” (p. 101; itálico meu), acabou por reconhecer que, “nesta tabanca remota, praticamente sem comércio local ou circulação de dinheiro, onde a visita do vendedor fula é um acontecimento raro, cada indivíduo possui um número limitado de peças de vestuário: a entrega de roupa foi muito apreciada e revelou-se mais útil do que ele pensava” (p. 103). Útil e não só: idoso de barba rala e branca ficou com um blusão de napa sem mangas e logótipo a toda a largura das costas onde se lê nada menos que “Moto Clube Rodas Doidas, Marmeleiro, Portugal”…
J também proporcionou a Ramalho outros encontros essenciais. O primeiro, com o régulo de Anconhá, “quase andrajoso e bastante bêbado, sentado numa vulgar cadeira de plástico”, “sujo, de riso boçal e pequenos olhos interesseiros” (p. 115), gozando o privilégio da ociosidade. Isso seria o menos, mas tutelas deste tipo têm desactivado regras antigas e satisfeito interesses estrangeiros, como sucedeu com investidores franceses na pequena ilha sagrada Acunda (v. p. 129), mas também na ilha do Patrão (pp. 125-26) ou na “paradisíaca” Rubane (p. 135), donde dúzia e meia de turistas polacos instalados num ecolodge ou hôtel de charme irromperam em Anconhá para assistir uma demonstração de danças tribais das mulheres bijagós, “muito aligeirada e aldrabada”, notória “caricatura de outra coisa, mais solene e ritual”, (pp. 137, 136).
Um segundo encontro é estritamente iniciático, e potencialmente arriscado, porquanto se trata de o colocar perante Isijha, a grande serpente que tem a grossura dum braço humano, “senhora das águas e criadora das ilhas, zeladora da lei antiga e da ordem social”, que — confiam — acede aos pedidos da comunidade e protege os seus membros do infortúnio. Ramalho entrou no interior do balobo, o tempo da tabanca, uma casa circular de paredes de barro e telhado de colmo, atrás dum sacerdote de olhos já velados por cataratas, depois de lhe pagar com “quatro litros de aguardente de cana e quatro folhas de tabaco” (p. 157), mas as coisas não correm bem. Realmente Isijha “não gosta de brancos” e o “tuga barbudo” teve de ser removido dali às pressas, e à serpente “foi preciso explicar-lhe a situação e pedir desculpa — esclareceu por fim J. — Queimei tabaco, ofereci aguardente e cantei. No fim Isijha adormeceu” (p. 161).
Diferente foi, em Inorei, o face a face com uma suposta rainha bijagó, turbante na cabeça e um gato preto no colo, “símbolo reconhecido do seu estatuto” (p. 118). O encontro deu-se no interior de uma pequena casa redonda de taipa, sem janelas mas com portas abertas aos pontos cardeais. Os “olhos magnéticos” da okinka, aguados e negros, “com a profundidade da noite e o brilho das estrelas” (p. 118), inibem o antropólogo português de a questionar sobre a “livre mancebia” e — especialmente — a grande cerimónia de iniciação sexual das jovens, o maurasse, em que a rainha (ou será ela apenas sacerdotisa?…), procede à sua “sagrada desfloração com amuntê, o falo de madeira”. O branco “quer conhecer” (p. 157), todavia também ali se impôs, reconhece Ramalho, a “incomunicabilidade essencial” de quem está “em lados opostos da realidade e habita mundos paralelos” (pp. 121, 120). Noutro momento, na viagem de canoa até Bissau, o português gostaria de ter perguntado a um velho “como os grupos de idade conseguirão sobreviver ao rolo compressor da globalização”, ou como se conciliará “o longo e rigoroso retiro dos kamadi [homens casados postos à prova, isolados durante três meses num mato sagrado, e mais seis anos de reclusão na periferia da tabanca] com a era do telemóvel”, mas ambos “estão separados por um banco corrido e duas línguas” (pp. 169-70).
No último capítulo, “Depois de regressar”, cai enfim a gota do tal elixir da esperança: a auspiciosa notícia de que uma associação de activistas ambientais em Bubaque, formada por oitenta jovens varredores de lixo, beneficiou duma acção de formação de dois deles por responsáveis da Biosfera Cabo Verde, no Mindelo, e desde então a associação Nindjon (em português: Vamos Acreditar), que trocou a queima pela reciclagem e reutilização, ganhou fôlego, confiança e sobretudo apoios variados, inclusive o dum resort de Rubane, a troco da limpeza mensal das praias dessa ilha próxima, ou a instalação de torneiras com pontos de água em seis tabancas, financiadas pela Swiss Aid.
“Desembarcou no arquipélago dos Bijagós possuído pelo alvoroço íntimo de quem procura uma pequena luz de presença num grande labirinto. Sai da Guiné com a certeza de que cada candeia ilumina apenas uma parte do caminho” (p. 189), mesmo que o caminho seja percorrido “com o peso da história pátria às costas” (p. 75) — ou, então, inversamente, concluindo que “viver seja isso mesmo — praticar a arte do mínimo sem fazer demasiadas perguntas” (p. 171)…
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