Livro traz mapa de mudanças no mercado de trabalho com a IA
A difusão acelerada da inteligência artificial e da automação no mercado de trabalho brasileiro e global não impõe um cenário uniforme, mas estabelece uma transição estrutural profundamente assimétrica.
Ao mesmo tempo em que alavanca a produtividade e os rendimentos em setores altamente tecnológicos, a tecnologia ameaça a tradicional "escada de carreira" das novas gerações e expõe a urgência de requalificação tanto no setor privado quanto na administração pública.
É o que propõe o livro "Trabalho e Emprego Onde?", organizado por Fabio Giambiagi, Letícia Magalhães e Paulo Faveret. A obra reúne análises abrangentes de economistas e especialistas para mapear como as novas ferramentas digitais e os algoritmos reconfiguram os postos de trabalho no campo, nas grandes corporações, no Estado e no cenário geopolítico global.
No agronegócio, analisado pelos especialistas Roberta Cristina Possamai, Luís André da Costa Diz e Felippe Serigati, a transformação tecnológica reduziu o contingente braçal, mas promoveu um salto de eficiência sem precedentes na história recente do país.
Entre 2012 e 2025, o total de trabalhadores diretos na produção agrícola caiu 23,8%, passando de 10,2 milhões para 7,8 milhões de pessoas.
Em contrapartida a essa redução de vagas diretas, a produtividade por hora trabalhada no campo disparou 444% entre 1995 e 2024, saltando de R$ 7,50 para R$ 40,80 por hora. Esse movimento exigiu um novo perfil profissional: a contratação de trabalhadores com ensino superior no agro cresceu 107,6% no período, o que impulsionou o rendimento médio real dos trabalhadores agrícolas em 33%.
Além dos ganhos diretos, o dinamismo do campo transbordou para a economia das cidades vizinhas. Nas regiões do "Cluster Agro", a taxa de desocupação recuou para 5,1% em 2025, impulsionando a criação de vagas no setor de serviços, que atingiu 53,4 milhões de ocupados.
Contudo, os autores ponderam que a IA na lavoura ainda engatinha, com impactos focados mais na gestão e no comércio.
Serigati compara o momento atual a estar "numa sala escura cheia de objetos", onde agentes econômicos ainda tateiam para entender as reais aplicações da tecnologia, cujos impactos imediatos hoje se concentram mais na gestão e no comércio do que na lavoura.
No ambiente corporativo e no setor público, analisados por Felipe Buchbinder, Ana Barufi, Francisco Gaetani e Luiz Alberto dos Santos, a IA generativa atinge diretamente as funções de entrada. Tarefas rotineiras como relatórios e análises preliminares são assumidas por algoritmos, esvaziando postos de nível júnior.
Essa dinâmica gera um incômodo gargalo para os jovens profissionais ao comprometer a aprendizagem prática no dia a dia do trabalho. Enquanto os cargos de nível sênior continuam valorizados, exigem-se dos novos contratados competências superiores, como pensamento sistêmico e liderança.
Na administração pública civil, a análise de Gaetani e Santos revela que cerca de 104 mil cargos federais (20% do total) têm alta propensão à automação. A maior vulnerabilidade concentra-se em suporte na saúde, educação e rotinas administrativas.
Como a estabilidade impede demissões em massa no serviço público, o enxugamento do Estado ocorrerá de forma silenciosa e gradual, pela não reposição de aposentadorias.
O grande risco para o setor público é ficar para trás devido ao déficit de talentos digitais e à elevada idade média dos servidores (cerca de 50 anos), exigindo a migração para a governança algorítmica.
No cenário internacional, analisado por Marcello Pio e Rodrigo Mendes Leal, a IA soma-se à transição verde e às pressões geopolíticas para exigir políticas públicas preventivas. Em todo o mundo, a busca por capacitação e regulação tornou-se prioridade de segurança nacional.
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