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Friday, November 6, 2026

‘Carnaval de Luz’ é o melhor álbum do U2 em 20 anos — e isso não é bem um elogio

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Bom trabalho instrumental à parte, disco é minado por letras rasas e muito aquém do padrão estabelecido em décadas anteriores

Pedro Hollanda (@phollanda21)

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U2
U2 em 2026 (Foto: Michael Schwartz)

O século 21 começou de vento em popa para o U2, com dois dos álbuns mais bem-sucedidos da banda, All That You Can’t Leave Behind (2000) e How To Dismantle An Atomic Bomb (2004). Desde então, tem sido ladeira abaixo.

A banda irlandesa pareceu ter perdido o rumo e falhou em toda tentativa de recuperar a magia anterior. A esperança de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. reside em Carnaval de Luz, a ser lançado na próxima sexta-feira, 13.

Por um lado, trata-se do melhor álbum do U2 dos últimos 20 anos. Sem dúvida. O problema é que nesse período a banda produziu o pior material de sua carreira, então essa qualificação pode ser interpretada como um insulto velado.

A variável Bono

A questão principal para analisar o U2 desde o ano 2000 é que o grupo pode ser elevado ou arrastado por seu vocalista. Bono se tornou uma figura ao mesmo tempo adorada e alvo de chacota porque a mesma qualidade capaz de cativar milhões de fãs pelo mundo também repele muita gente. E isso se reflete principalmente nas canções. Os instrumentistas podem criar a música mais sensacional possível, mas se a letra reflete as piores tendências do frontman, tudo cai por terra.

Frequentemente, esse é o caso em Carnaval de Luz. The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. entregam composições que ecoam alguns dos momentos mais bem-sucedidos da discografia do U2, especificamente All That You Can’t Leave Behind, How To Dismantle An Atomic Bomb, Zooropa (1993) e até mesmo Achtung Baby (1991).

O guitarrista em especial brilha neste novo álbum, com uma performance geral no instrumento capaz de equilibrar sua sede experimental e a fórmula clássica da banda. O melhor exemplo é “Go (Carnaval de Luz)”, um turbilhão sonoro feito para pegar o ouvinte de cara.

Apesar disso, Bono coloca tudo a perder com algumas das piores letras da carreira do U2. E não é como se isso já não fosse uma tragédia anunciada. O EP Days of Ash, lançado em fevereiro, tentava lidar com temas políticos extremamente pesados, a exemplo do genocídio em Gaza e do assassinato de Renée Good e Alex Pretti por agentes de imigração americanos em Minneapolis. Falhou miseravelmente.

As letras

No passado, o U2 era capaz de comunicar uma empatia singular e apelar ao senso coletivo da humanidade para criar algo poderoso. Hoje em dia, é como se Bono tivesse perdido seu senso de perspectiva ou não se importasse mais em compreender a situação na sua totalidade.

Em Carnaval de Luz, isso fica ainda mais evidente porque Bono deixa esses temas políticos para trás em prol de celebração. O mundo em geral pode estar acordando aos poucos com relação aos abusos da extrema direita e tirando esses governos do poder, mas ao ler a letra de “Go (Carnaval de Luz)”, a impressão é que a banda oferece a versão mais rasa possível dessa catarse:

“Welcome to tonight, a carnival of light
Illumination is the way to fight this
I’ve had it with the fear, can’t believe I made it here
Came to find other people who feel like this”

[“Bem-vindos a hoje à noite, um carnaval de luz
Iluminação é o caminho para lutar
Já estou cheio desse medo, não acredito que chegou a isso
Vim aqui para encontrar pessoas que se sentem assim”]

O ponto mais baixo de Carnaval de Luz, contudo, é “The Mirror Maker (Rosalía)”, uma música escrita para a cantora pop espanhola Rosalía. A letra apresenta uma série de clichês místicos e religiosos que tentam descrever o apelo da artista, cujo álbum mais recente, LUX (2024), se provou revolucionário por conseguir transcender a linguagem comum de falar sobre fé e o relacionamento de alguém com Deus, além de recontextualizar a música tradicional europeia para um contexto pop moderno. É como se o U2 tivesse medo de mergulhar mais a fundo num assunto — ou tenha simplesmente perdido a capacidade de fazê-lo.

“A mirror maker sets out to trap light
Illuminator, silver inside
Break the glass, what could possibly go wrong?
Stubbornly
in the service of her song
Silver girl let me sing along”

[“Uma fabricante de espelhos se põe a capturar luz
Iluminadora, prata dentro
Quebre o vidro, o que pode dar errado?
Teimosamente a serviço de sua canção
Garota de prata, deixe-me cantar junto”]

Apesar de as letras serem o ponto fraco em geral de Carnaval de Luz, há bons momentos nesse sentido no álbum. “The Greatest Show On Earth” é a tentativa de fazer um exemplar clássico da grande balada do U2 presente em todo álbum do grupo. Bono fala sobre não poder cantar o que está no seu coração por conta de um término amoroso. Entretanto, ao se levar em consideração os últimos 20 anos da banda e os períodos cada vez mais longos entre lançamentos, quando ele escreve “We were once the greatest show on Earth” [“Nós já fomos o maior espetáculo da Terra”], pode estar falando tanto do casal da música quando do conjunto em si. Isso é uma demonstração forte de vulnerabilidade, ainda que não necessariamente intencional.

As qualidades

Vale ressaltar outras qualidades de Carnaval de Luz. “Silencio”, por exemplo, é um rock divertido, ainda que ligeiramente bobo. Uma versão superior de algo como “Get On Your Boots”, do álbum No Line on the Horizon (2009), com The Edge tocando uma guitarra cheia de fuzz num arranjo bem glam rock. O refrão é grandioso e não faz muito sentido, porém é o momento que a persona estapafúrdia de Bono funciona em favor da banda.

Musicalmente e em termos de produção, o U2 parece ter desistido de acompanhar as tendências da música pop em prol de um caminho mais focado no que funciona melhor para sua abordagem. Eles não tentam soar como o mercado considera ser o padrão radiofônico e seguem seu próprio padrão sonoro anterior. O grande trunfo dos melhores discos do grupo é sua atemporalidade e os integrantes miram nisso neste trabalho.

“Street of Dreams”, o primeiro single de Carnaval de Luz, soa como a versão clássica da banda, com Larry Mullen Jr. fazendo sua bateria propulsiva influenciada por ritmos marciais e The Edge mirando sua guitarra para os céus enquanto Adam Clayton mantém tudo junto através do seu baixo. Por sua vez, Bono mistura inglês e espanhol na letra ao lembrar o conceito católico daqueles esquecidos pela sociedade serem aqueles acolhidos por Deus.

Além disso, há a presença de “Torn”, música com a participação de Dolly Parton, falecida em agosto. Uma canção country – ao menos a interpretação do U2 para o gênero – potente por conta da convidada especial, capaz de fazer qualquer coisa soar singular.

No final, a sensação constante ao ouvir Carnaval de Luz é estar perante uma banda obcecada em recapturar algo perdido há muito tempo ao invés de encontrar um novo caminho. Talvez porque ainda estejam perdidos ou por não terem a força necessária para sair da zona de conforto após 50 anos de carreira.

*Carnaval de Luz, do U2, chega às plataformas digitais no próximo dia 13 de outubro.

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Pedro Hollanda (@phollanda21)

Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como IgorMiranda.com.br, Scream & Yell e Rock'n'Beats.

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