Mercado de ETFs ganha força no Brasil puxado por fundos de renda fixa
São Paulo O mercado de ETFs está ganhando espaço entre os investidores brasileiros, puxado pela expansão dos produtos de renda fixa. O patrimônio desses fundos passou de R$ 50,3 bilhões em janeiro de 2025 para R$ 136,7 bilhões em agosto de 2026, alta de 172%, segundo a Anbima.
Nesse período, os ETFs de renda fixa saltaram de R$ 9,2 bilhões para R$ 68 bilhões e superaram os de renda variável em agosto. Em setembro, no entanto, os ETFs de renda variável voltaram a ficar à frente, com R$ 68,7 bilhões investidos.
ETF é um fundo de investimento com cotas negociadas na Bolsa. Em geral, ele busca acompanhar o desempenho de um índice, permitindo ao investidor, com uma única operação, ter exposição a uma carteira de ativos.
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Em vez de comprar separadamente cada ação que compõe um índice, por exemplo, ele pode adquirir uma cota de um ETF que replica esse indicador.
O movimento ocorre em um cenário de juros ainda elevados, que mantém a renda fixa tradicional atrativa e aumenta a pressão sobre fundos de gestão ativa para entregar retornos que compensem seus custos. Nesse ambiente, o menor custo dos ETFs pode se tornar um diferencial para o investidor.
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Embora sejam negociados na Bolsa, os ETFs não investem necessariamente em ações. Há produtos que acompanham índices de renda fixa e outros que dão exposição a mercados específicos, como commodities.
O QUE EXPLICA O CRESCIMENTO DOS ETFs?
A expansão desse mercado está relacionada a uma combinação de fatores, segundo especialistas. Entre eles estão os custos mais baixos em relação aos fundos tradicionais, a facilidade de acesso, a diversificação e, no caso dos ETFs de renda fixa, vantagens tributárias.
Para Danilo Jusan, reitor do Ibmec-RJ, o custo está entre os principais fatores para o avanço dos ETFs. Fundos tradicionais cobram taxa de administração e, em alguns casos, taxa de desempenho, que reduzem o retorno da aplicação. Já os ETFs geralmente têm taxas de administração menores.
Jusan também destaca a transparência na composição das carteiras. Como os produtos buscam acompanhar índices predefinidos, o investidor consegue identificar com mais facilidade quais ativos fazem parte do fundo.
Cauê Mançanares, CEO da Investo, gestora independente de ETFs, afirma que o produto deixou de ficar restrito aos investidores institucionais e passou a ganhar espaço entre pessoas físicas. Segundo ele, hoje predominam investidores de menor tíquete, que usam os ETFs para montar e diversificar a carteira.
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RENDA FIXA TAMBÉM IMPULSIONA OS ETFs
O avanço dos ETFs de renda fixa também tem sido puxado pela maior presença de pessoas físicas e empresas. Segundo Mançanares, a eficiência tributária em relação aos fundos tradicionais ajuda a explicar esse movimento.
Nos ETFs de renda fixa, a alíquota de Imposto de Renda varia conforme o prazo médio da carteira: é de 25% para fundos com prazo de até 180 dias, 20% entre 181 e 720 dias e 15% acima de 720 dias. Diferentemente dos fundos tradicionais, não há cobrança de come-cotas nem de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
Nos de renda variável, há cobrança de 15% sobre o ganho líquido na venda das cotas, ou de 20% nas operações de day trade. A apuração e o recolhimento do imposto devem ser feitos pelo investidor, via Darf.
O avanço dos ETFs de renda fixa mostra que o crescimento desse mercado não depende apenas da alta da Bolsa. Esses produtos permitem ao investidor comprar uma única cota que reúne diferentes títulos de renda fixa.
Com a Selic em 13,75% ao ano, os ETFs de renda fixa também se beneficiam da maior procura por esse tipo de investimento.
QUEM ESTÁ INVESTINDO EM ETFS?
O número de contas com investimentos em ETFs também nos últimos 21 meses. Segundo a Anbima, havia 1,04 milhão em janeiro de 2025 e 1,81 milhão em agosto de 2026, alta de 74%.
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Na Investo, a base passou de cerca de 42 mil cotistas no início de 2023 para mais de 300 mil em pouco mais de três anos. Segundo Mançanares, o avanço é estrutural, já que a base continua crescendo mesmo em meses de queda das Bolsas.
Para Danilo Jusan, a expansão também reflete a possibilidade de o pequeno investidor acessar uma carteira diversificada sem grandes volumes de recursos. Os ETFs, porém, não eliminam os riscos do mercado, e a diversificação depende da composição do índice.
Na Bolsa brasileira, a concentração em um número menor de empresas limita essa vantagem, segundo o especialista. Para ele, isso pode mudar com o crescimento do mercado e a entrada de novas companhias na Bolsa.
ETFS ESTÃO TIRANDO ESPAÇO DOS FUNDOS TRADICIONAIS?
O patrimônio dos ETFs cresceu 172% desde janeiro de 2025, enquanto a indústria de fundos avançou 21%. Apesar do ritmo mais acelerado, os ETFs ainda têm participação pequena no mercado brasileiro. Em agosto, somavam R$ 136,7 bilhões, pouco mais de 1% dos R$ 11,53 trilhões da indústria.
Nos Estados Unidos, onde os ETFs têm uma trajetória mais longa, o mercado é muito maior. No fim de julho, havia 5.590 ETFs no país, com US$ 15,74 trilhões (R$ 81,1 trilhões) em patrimônio, segundo a ETFGI, empresa de pesquisa e consultoria especializada no mercado global de ETFs.
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No Brasil, eram 225 em setembro, contra 115 em janeiro de 2025, alta de 95%, segundo a Anbima. O número equivale a 4% dos produtos disponíveis nos EUA.
Para Danilo Jusan, a diferença está relacionada à cultura de investimentos de cada país. Enquanto os americanos estão mais acostumados a investir em índices amplos, os brasileiros historicamente concentram recursos em renda fixa e fundos tradicionais. Para ele, a queda dos juros pode favorecer a busca por ETFs e outras alternativas de investimento.
Folha Mercado
Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.Na Investo, Mançanares afirma que o crescimento dos ETFs vem principalmente da entrada de novos investidores, e não da migração de recursos dos fundos tradicionais. O produto também tem atraído pessoas que antes concentravam recursos em renda fixa bancária ou poupança e passaram a montar carteiras mais diversificadas.
Os ETFs também diferem dos fundos tradicionais na forma de gestão. Nos fundos de gestão ativa, o gestor pode alterar a carteira de acordo com sua estratégia. Já os ETFs brasileiros são fundos de índice que acompanham passivamente um indicador.
No exterior, porém, também existem ETFs de gestão ativa. A CVM incluiu a regulamentação desses produtos na Agenda Regulatória de 2026 e prevê uma consulta pública sobre o tema.
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Embora a regulamentação ainda esteja em discussão, o modelo já começa a aparecer no Brasil. Em agosto, a J.P. Morgan Asset Management lançou o JTEK39, seu segundo ETF ativo listado na B3, após obter uma isenção junto à CVM.
Para Mançanares, porém, o principal obstáculo à expansão dos ETFs ainda é a falta de conhecimento sobre o produto. Ele também cita a preferência dos bancos por distribuir produtos próprios e a forte cultura do CDI entre os investidores brasileiros.
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