O partido que não existe e ganhou a primeira volta

Há no Brasil uma força política sem partido, sem sede e sem líder, que no domingo ganhou a primeira volta das presidenciais. Chama-se anti-lulopetismo.
Não aparece em nenhum boletim de voto, mas está em todos. Com a contagem encerrada, Flávio Bolsonaro terminou com 47,03% dos votos válidos e Lula da Silva com 45,16%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. São 56,1 milhões de votos contra 53,9 milhões, uma vantagem de 2,2 milhões de eleitores.
Ninguém o viu chegar, pelo menos nas sondagens. Na véspera, o Datafolha, o instituto de referência do país, dava a Lula 45% dos votos válidos e a Flávio 40%. Em janeiro, a Quaest simulava uma segunda volta entre os dois e atribuía a Lula sete pontos de vantagem. Não é a primeira vez. Em 2022, o mesmo Datafolha dava 36% a Jair Bolsonaro na véspera da primeira volta, e as urnas deram-lhe 43,2%. Quando um erro se repete sempre na mesma direção, deixa de ser ruído estatístico e passa a ser informação.
E a informação é esta. Há um eleitor brasileiro que não responde às sondagens, ou responde de outra maneira. É muitas vezes o pequeno empresário, o trabalhador por conta própria, o agricultor do interior, o pai de família que paga imposto sobre quase tudo e não recebe apoio de quase nada. Não faz manifestações nem tem porta-voz, desconfia de quem lhe telefona a perguntar em quem vai votar, e guarda a resposta para o dia da eleição. É, por assim dizer, a maioria silenciosa do Brasil. No domingo deixou de estar calada.
Convém recordar o que se dizia em Brasília há poucos meses. A escolha de Flávio foi recebida no Palácio do Planalto como uma boa notícia. Um senador sem o carisma do pai, com um rol de suspeitas que os adversários repetiram à exaustão, seria o adversário ideal. Perder contra ele era impossível.
Perdeu-se. E o erro não foi de cálculo, foi de diagnóstico.
O PT continua a ler o eleitorado brasileiro como em 2002, à procura de quem vota a favor de alguém. Mas o que decide hoje as eleições no Brasil é quem vota contra alguém. O anti-lulopetismo elegeu Jair Bolsonaro em 2018, quase o reelegeu em 2022, quando Lula venceu a segunda volta por 50,9% contra 49,1%, e no domingo levou ao primeiro lugar um candidato que muitos davam como o mais fraco da família.
Os leitores portugueses conhecem a gramática. Nas legislativas de maio de 2025, o PS, que alternou no poder durante meio século, foi ultrapassado em mandatos pelo Chega e remetido para terceiro. O cansaço com quem governa demasiado tempo fala a mesma língua dos dois lados do Atlântico. E há um dado que o confirma de perto. Entre os brasileiros que votaram em Portugal, Lula voltou a ganhar, mas caiu de cerca de 60% para cerca de 52%. Até quem emigrou está a mudar de ideias.
Há um segundo erro, e é mais caro. O governo gastou as benesses antes do tempo.
A isenção do imposto sobre o rendimento para quem ganha até R$ 5 mil por mês (aproximadamente € 830), em vigor desde janeiro, o Gás do Povo, o Pé-de-Meia para os estudantes do secundário. Tudo foi entregue antes da primeira volta, num calendário de Estado que coincidiu, por acaso ou não, com o calendário eleitoral. E, mesmo assim, Lula ficou atrás.
Os governos que vivem de distribuir esquecem sempre uma coisa. O eleitor recebe a benesse, mas também faz contas. Sabe que o que lhe chega por um lado sai do bolso de alguém por outro, muitas vezes do seu, sob a forma de imposto, de inflação ou de juros mais altos. E há milhões de brasileiros que pagam a fatura de todas estas medidas sem beneficiarem de nenhuma. São precisamente os que as sondagens não encontram.
Para a segunda volta, a 25 de outubro, o cofre está vazio. Qualquer nova promessa chegará tarde, custará credibilidade e encontrará um Tesouro sem folga. O populismo tem uma regra contabilística que nenhum governo consegue revogar: cada benesse só se pode gastar uma vez.
Juntou-se a isto o desgaste do Supremo Tribunal Federal, de que já aqui escrevi. Uma parte do eleitorado moderado, que em 2022 votou em Lula para travar Bolsonaro, passou a ver em alguns ministros do tribunal mais protagonistas do que árbitros, e o governo nunca se demarcou deles. Nos grupos de WhatsApp das famílias brasileiras, o argumento circulou curto e eficaz: reeleger Lula seria prolongar essa proximidade por mais quatro anos.
As contas da segunda volta favorecem Flávio. Os votos que sobram, perto de 8%, estão em boa parte à direita, divididos por Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, um eleitorado que dificilmente atravessará para o PT. E a história pesa. Desde 1989, em sete segundas voltas presidenciais, quem chegou à frente na primeira nunca perdeu. Lula precisa de fazer o que ninguém fez.
Mesmo que o consiga, governará um país que já não é o seu.
O PL elegeu 19 dos 54 senadores em disputa e terá a maior bancada do Senado, com 28 dos 81 lugares. O PT ficará com nove. Pelo menos 31 dos senadores eleitos defenderam durante a campanha a abertura de processos de destituição contra ministros do Supremo, o que diz muito sobre o que o eleitor quis dizer. Na Câmara dos Deputados, o PL deverá passar de 99 para cerca de 120 deputados. Nikolas Ferreira, em Minas Gerais, teve 3,1 milhões de votos, e Lucas Pavanato, em São Paulo, 3,0 milhões. Nunca nenhum deputado tinha passado dos dois milhões.
Nos governos estaduais, o padrão repete-se. O Republicanos venceu à primeira volta em São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. O PL venceu no Paraná, em Santa Catarina, em Rondônia, em Roraima e no Rio Grande do Sul, o meu estado. Na vila gaúcha onde moro, Flávio teve 78,3% dos votos, mais sete pontos do que o pai há quatro anos, e Lula ficou-se pelos 14,8%.
Isto já não é apenas bolsonarismo. Jair Bolsonaro nem sequer estava no boletim de voto.
O PT passou vinte anos a ensinar o Brasil a votar contra alguém. O Brasil aprendeu a lição. Resta saber se quem vencer a 25 de outubro perceberá que foi eleito menos pelo que promete do que pelo que o país recusou.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.