Há uma idade para começar a usar IA? Não. Haja bom senso!

Há um documento encomendado pela UNESCO que responde à questão “a partir de que idade é uma idade boa para trabalhar com IA?”. Não há uma resposta simples. Isso já de si é um bom sinal. Assim como a questão não passa por proibir a IA, o que também é bom, nem fingir que ela pode ser mantida fora da escola. Não pode porque já entrou. O problema é outro: o que não podemos deixar de aprender antes de começarmos a delegar na IA?
Os dados são suficientemente incómodos. A IA pode ajudar na matemática, na literacia, nas línguas e na aprendizagem personalizada. Mas a evidência causal ainda é muito limitada, sobretudo nos mais novos. E surgem riscos que não podem ser varridos para baixo de um tapete: cognitive offloading, erosão do julgamento independente, quebra do pensamento crítico, dependência, substituição de relações humanas e dificuldade crescente em distinguir o verdadeiro do apenas plausível. Estas componentes preocupam.
Não quero menos IA. Quero melhor educação. Basta olhar para PISA para perceber como temos uma montanha a percorrer!
Uma criança precisa de aprender conteúdos. Precisa de ler, escrever, calcular, raciocinar quantitativamente, conhecer história, ciência, geografia, cultura. Precisa de memória, porque não se pensa no vazio. Precisa de autonomia, de errar, de insistir, de comunicar, de discutir, de olhar alguém nos olhos, de trabalhar com outros e de aprender que nem todas as respostas aparecem em três segundos. Parece que nisto todos estamos de acordo. Inclusive o documento sublinha-o.
A IA deve entrar, então, mas não para amputar o esforço que forma o cérebro e o carácter. Deve ampliar capacidades, não substituí-las. Deve apoiar o professor, não eliminar a relação professor-aluno. Deve reforçar a aprendizagem entre pares, não criar uma geração de crianças em diálogo permanente com máquinas que confirmam tudo e contrariam pouco. E estas substituições e zonas perigosas são mesmo muito perigosas na medida em que amputam capacidades futuras e hipotecam pessoas.
Talvez o critério não seja uma idade rígida. Há dúvidas e poucas certezas. Talvez seja uma sequência: primeiro construir fundamentos; depois usar IA para os alargar. Primeiro aprender a pensar; depois aprender a pensar com IA. Primeiro saber fazer; depois decidir o que vale a pena delegar. Mas em que idade? E nessa parte paira ainda o cinzento.
A escola que entregar demasiado cedo à IA aquilo que ainda não ensinou ao aluno estará a produzir uma ilusão de competência. Esta parece ser uma verdade universal. Terá respostas melhores e pessoas piores preparadas.
Ironia suprema: termos finalmente máquinas extraordinariamente inteligentes e humanos progressivamente menos capazes de pensar sem elas.
Mesmo sem idade há uma coisa que deve funcionar: bom senso. E bom senso é aquilo que todos dizem que têm mas na realidade não têm. Mesmo que com pouco bom senso e sem respostas de idade, aplique-se o bom senso. É a única coisa que temos.
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