Quitéria Kelly celebra 'A Nobreza do Amor' e reflete: 'Uma nordestina pode fazer Odete Roitman, assim como um sudestino pode viver um cangaceiro'

Quitéria Kelly, de 44 anos, chega ao fim de A Nobreza do Amor, em que interpretou a personagem Maria Helena, como um dos destaques da novela. Por meio de sua personagem, a trama trouxe a abordagem de relacionamentos abusivos. "É urgente falar sobre a violência contra as mulheres", afirma. Nascida na Paraíba e criada no Rio Grande do Norte, a atriz celebra o maior espaço a artistas nordestinos no audiovisual.
"Uma atriz nordestina pode fazer uma Odete Roitman, uma empresária bilionária, assim como um sudestino pode fazer um cangaceiro. Os sotaques são nossa maior riqueza. O Nordeste não deveria ser definido como uma região precarizada. O país é precarizado. Existe fome no Norte, no Nordeste, no Rio de Janeiro, em vários cantos do país…Não apenas em uma região", diz.
Em A Nobreza do Amor, Quitéria interpretou Maria Helena, personagem era casada com o machista e violento Fortunato, interpretado por César Ferrario. "O César é um companheiro de vida. Ele é viúvo de Titina, minha melhor amiga e madrinha do meu casamento", afirma, citando a atriz Titina Medeiros, que morreu aos 48 anos em janeiro de 2026.
No núcleo, Quitéria e César contracenam ainda com Daniel Rangel, a quem a atriz é só elogios. "Ele é um ator jovem, estudioso, talentoso, disciplinado -- qualidade difícil de encontrar em jovens atores. A disciplina é o que faz um ator. Ele chega cedo, estudado e decorado. É muito bom trabalhar com quem já chega com o texto estudado e que respeita o momento dos outros em cena, não tem aquela ânsia de aparecer mais que os colegas. Gostamos de ensaiar antes de gravar. Na novela, formamos de uma família densa, tóxica e com relação doentia."
Quem: A Nobreza do Amor chega ao fim nesta semana. Por meio da sua personagem, a novela trouxe a discussão em torno dos relacionamentos abusivos. Como avalia o retorno?
Quitéria Kelly: Recebo muitos comentários. Entendemos que é urgente falar sobre os relacionamentos abusivos. O mundo das artes é o melhor lugar para se colocar essas questões que são um problema social do mundo, não apenas do Brasil. É urgente falar sobre a violência contra as mulheres. Aliás, a violência não é apenas contra as mulheres, mas contra as famílias. Os filhos também sofrem muito e não sabem como reagir.
Você contracena diretamente com o César Ferrario, seu amigo de longa data. Como é essa parceria?
O César é um companheiro de vida. Ele é viúvo de Titina [Medeiros, atriz que morreu em janeiro de 2026], minha melhor amiga e madrinha do meu casamento. Já fizemos muito teatro juntos, somos família. César também já interpretou meu marido em Mar do Sertão. Desta vez, nosso núcleo é muito maravilhoso. Ganhamos Daniel [Rangel] como filho em A Nobreza do Amor. É um presente. A novela teve Pedro Peregrino, um diretor que gosta de dirigir atores, e Mari Betti, que traz um olhar feminino na direção. Esse olhar, com certeza, faz diferença.
Um núcleo bem entrosado faz diferença para o resultado final do trabalho?
Eu até comentei com o César: 'Amigo, que benção é trabalhar com o Daniel'. Ele é um ator jovem, estudioso, talentoso, disciplinado -- qualidade difícil de encontrar em jovens atores. A disciplina é o que faz um ator. Ele chega cedo, estudado e decorado. É muito bom trabalhar com quem já chega com o texto estudado e que respeita o momento dos outros em cena, não tem aquela ânsia de aparecer mais que os colegas. Daniel é um grande ator. Gostamos de ensaiar antes de gravar. Na novela, formamos de uma família densa, tóxica e com relação doentia.
A presença de vários atores nordestinos no elenco de Nobreza do Amor é significativa. Como avalia essa representatividade?
É uma conquista muito grande. Também há uma compreensão de uma nova geração de que Nordeste é Brasil. Uma atriz nordestina pode fazer uma Odete Roitman, uma empresária bilionária, assim como um sudestino pode fazer um cangaceiro. Os sotaques são nossa maior riqueza. O Nordeste não deveria ser definido como uma região precarizada. O país é precarizado. Existe fome no Norte, no Nordeste, no Rio de Janeiro, em vários cantos do país…Não apenas em uma região.
Acredita que já demos passos para essa reparação?
O cinema e a televisão vêm fazendo essa reparação. Irandhir Santos e Jesuita Barbosa, por exemplo, são atores que transitam com personagens que não ficam presos ao Nordeste. Graças às deusas, eu também faço personagens que não são apenas nordestinas. Fiz Malhação - Toda Forma de Amar, interpretando a coordenadora do colégio. Podia usar o meu sotaque, sem que o fato de ser nordestina fosse uma questão da trama. Rio de Janeiro e São Paulo são repletos de nordestinos em diferentes cargos. Minha gastro, por exemplo, é paraibana e tem consultório no Rio. Estamos em todos por lugares. A arte é o ensaio para a vida lá forma. Queremos ter mais artistas nordestinos e nortistas no audiovisual.
E é importante que sejam retratados sem estereótipos.
Em Nobreza tudo é feito com muito cuidado para tirar essa visão do Nordeste estereotipado. A novela se passa no Rio Grande do Norte da década de 1920. Não vemos figurinos precarizados. É todo mundo elegante. Não é uma caracterização regionalista. Se você for ver, era o pessoal daquele região que se inspirada no Recife, que se inspirava no Rio, que se inspirava em Paris. Ao dar um Google em fotos do Rio Grande do Norte dos anos 1920, você vê fotos de gente usando rendas,camisas longas, chapéus, todo mundo belissimamente vestido. Acho lindo os figurinos e a direção de arte de A Nobreza do Amor.
Com o fim da novela, você pensa em férias ou já quer engatar um novo trabalho?
Não dá para parar. O mercado é muito cruel. Estamos nessa novela, mas não sabemos quando haverá a próxima. Então, a gente não pode negar trabalho. Somos obreiros da nossa arte. Estamos em obras o tempo todo. Existe uma diferença entre artista e famoso. Artista coloca a mão na massa, entendemos que precisamos estar em movimento. Seria um sonho ter tudo planejadinho,mas é tudo muito incerto na carreira artística. Um convite pode surgir do nada. Você precisa manter os pés no chão e tentar construir sua estrada. Até novembro, tenho algumas apresentações agendadas. Hoje em dia, consigo me programar pelos próximos seis meses. Gostaria de ter um ano de trabalhos fechados, mas essa não é a minha realidade ainda.
E como lida com testes?
É a pior coisa do mundo (risos). É doloroso, dói a carne, mas faz parte do processo.
Quando rola uma negativa e você vê o trabalho com outro ator no ar, é complexo?
É a pior parte. Tem um monte de filme que eu fiz teste e ainda não vi só para não ter o gostinho (risos). Dá um ranço. Sempre acho que eu poderia fazer melhor. Dá esse rancinho. Depois, se assisto mais tranquila, aí penso: ‘ahh, tudo bem…’. (risos)
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