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Wednesday, October 7, 2026

O 7 de Outubro e o regresso do antissemitismo: três opiniões

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Todo o povo é um enigma antropológico. No caso do povo judeu, esse enigma assume uma forma paradoxal: como pode um povo sobreviver, durante milénios, não apesar das suas derrotas, mas justamente por causa delas? Ao longo da história, os impérios desapareceram com as suas derrotas: de Tróia reduzida a cinzas pelas chamas aqueias a Cartago sepultada sob o sal romano e a máxima implacável de Catão, Carthago delenda est, passando por Bizâncio, cujas muralhas tombaram primeiro sob o assalto otomano, e, quase quinhentos anos depois, sob o seu colapso – o destino natural de uma derrota é ser final, e o dos vencidos, a desaparição.

O elemento crítico da sobrevivência improvável – e profundamente enigmática – do povo judeu, várias vezes derrotado, é, porém e paradoxalmente, a própria derrota. Compreender as suas vitórias é compreender, fundamentalmente, as suas derrotas. O que é, pois, uma derrota, para que nela se revele a singularidade de um povo?

Para ser devidamente compreendida, a derrota não pode ser reduzida à mera esfera do evento militar ou político. Na sua raiz, a derrota é o desmoronamento violento de um projecto de sentido que se julgava, até então, imune à tirania da mortalidade, à indiferença do cosmos e ao desprezo dos deuses. Ela expõe a vulnerabilidade do humano diante da contingência, da humilhação e da morte, e, ao fazê-lo, obriga a consciência colectiva a confrontar-se com a solidez, ou com o vazio, dos valores que a animavam.

Por isso mesmo, ao longo da história política dos povos, a derrota é raramente assumida como falha própria, sendo interpretada antes como imposição externa: a força do inimigo, a traição diplomática, a má fortuna militar. Os povos derrotados procuram justificações externas para o seu infortúnio, imputando a culpa ao “outro”: o Diktat de Versalhes para os alemães de Weimar, a opressão colonial para os movimentos nacionalistas, o Ultimato britânico para o orgulho português, o sionismo para o ethos árabe. No fim, contar a história das derrotas que sofremos é contar a história das acusações que fazemos.

O caso judeu, porém, é singular. Desde os primeiros textos bíblicos até às experiências históricas mais recentes, a derrota – reincidente e prolongada – não é experimentada pelos judeus primordialmente como efeito do inimigo, mas como consequência de uma falha interna: uma falha axiológica, a quebra do pacto do povo com o seu Deus. Não foi o inimigo que foi forte, os judeus é que foram fracos. As batalhas perdem-se primeiro contra si mesmo, e só depois, propter hoc, contra o inimigo.

O episódio fundador desta hermenêutica singular é a destruição do Primeiro Templo de Jerusalém por Nabucodonosor, em 586 a.C., e o exílio – e trauma – babilónico que se lhe seguiu (símbolo tão duradouro que, milhares de anos mais tarde, ainda ressoaria em cânticos como “Rivers of Babylon”, apropriado pela fé rastafári e convertido, pela cultura pop, em hino planetário contra a opressão).

Para os profetas de Israel, esta tragédia não é uma vitória da Babilónia, mas consequência da infidelidade de Judá à aliança com o “Senhor dos exércitos”. Como poderia, afinal, a derrota ser fruto da força inimiga se, como canta o salmista, “O Senhor dos exércitos está connosco”? O fracasso não vem de fora: nasce do próprio povo da Aliança. A derrota não é da autoria dos inimigos do Deus dos exércitos, mas, justamente, dos exércitos de Deus. Os judeus, quando são derrotados, não escrevem os Protocolos, mas as Lamentações.

O célebre versículo escrito na Babilónia não se dirige à Babilónia, mas a Jerusalém: “Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que se paralise a minha mão direita” (Salmo 137). A mão direita é a mão da força, a mão do trabalho e do combate, a mão da construção e da acção: a mão que aponta, não para o inimigo externo e vencedor, mas para a falha interna do vencido (que não pode ser vencido pela força humana senão quando trai o pacto divino). A derrota não é atribuída à espada babilónica, mas à mão – a “minha mão” – que esquece. A verdadeira derrota, para os judeus, não é o exílio da Babilónia: é o esquecimento de Jerusalém.

O inimigo, portanto, desaparece do horizonte: o verdadeiro risco não é a violência do outro, mas a amnésia de si mesmo. Onde tantas comunidades vencidas procuram bodes expiatórios, inventam complots ou se refugiam na litania da traição alheia, Israel volta-se contra a sua própria consciência: a catástrofe não serve para acusar, mas para recordar; não serve para apontar o dedo, mas para olhar ao espelho. A derrota converte-se, então, no apelo à vitória sobre si mesmo: o regresso ao pacto, o reencontro com a santidade, a reconciliação com Deus.

A destruição do Segundo Templo, em 70 d.C., replica esta lógica. O império romano era incomensuravelmente superior em recursos e exércitos. A memória judaica, no entanto, não enfatiza essa espectacular disparidade de forças. A tradição rabínica fala antes de sinat chinam, o “ódio gratuito” entre irmãos, como causa da catástrofe. A derrota não é lida como fracasso militar vindo de fora, mas como falência moral vinda de dentro. O inimigo é apenas o instrumento externo de uma derrota interna: no Primeiro como no Segundo Templo, a verdadeira batalha não foi perdida contra Roma ou contra a Babilónia, mas contra o pacto de excelência feito com Deus. Os exércitos do Senhor dos exércitos são invencíveis – só podem ser vencidos por si mesmos.

É precisamente ainda nesta lógica – nesta hermenêutica da derrota – que, da catástrofe do Segundo Templo, começa a ser escrito o Talmud, obra monumental nascida não da soberania, mas do exílio, não da vitória, mas da derrota. A destruição, a perseguição e a expulsão não produziram resignação nem ressentimento, mas uma explosão de criatividade espiritual e intelectual. Onde outros povos sucumbiriam ao nada ou culpariam o inimigo, os judeus converteram os escombros em matéria-prima: o exílio em pátria, o templo em texto, a catástrofe em auto-compreensão, o desamparo em excelência. Em suma, as trevas do mundo em “luz entre as nações”.

O mesmo padrão repete-se na Idade Média. Ao longo dos séculos de errância e perseguição nos reinos ibéricos, cada ferida histórica foi sendo convertida em interioridade mística, cada humilhação política em inovação espiritual, cada nova dispersão pelos confins da terra em nova travessia pelos labirintos da alma.

Foi deste horizonte de exílio permanente que brotou o texto fundacional da Cabala, o Zohar, o “livro do esplendor” em plena “idade das trevas”. Como outrora na Babilónia, também em Sefarad a derrota não foi paralisante, mas pedagógica: não é o inimigo – seja ele rei da Babilónia ou monarca de Castela – que dita a derrota, mas a quebra da excelência. A mediocridade, interdito supremo, está vedada ao povo judeu, porque é ela que abre as comportas da catástrofe. E é a exigência de excelência que, elevando-o acima da enxurrada, o coloca a salvo da extinção. Só ela, a exigência – espiritual, moral, intelectual, militar –, garante a sobrevivência de Israel.

No século XIX e início do século XX, o anti-semitismo europeu renovou a perseguição ancestral, exumando o velho fantasma do ódio aos judeus. E também aqui, uma vez mais, da perseguição não nasceu a resignação nem o ressentimento, mas o sionismo: gesto supremo de chutzpah, insolência criadora diante do ódio, projecto político de renascimento nacional e de regresso – regresso, retorno, aliyah, “ascensão” – à terra ancestral. Porque, para um judeu, todo o regresso é uma ascensão, uma elevação: voltar a Sião é sempre subir.

Depois, a Shoah: paroxismo da catástrofe, derrota absoluta, abismo sem medida, sem comparação, sem prescrição: anus mundi. E, no entanto, até desse “ânus do mundo” eles souberam arrancar uma aurora: a fundação do Estado de Israel, a refundação de Sião. Mais uma vez, a derrota – total, implacável, absoluta – não foi lida como termo final, mas como apelo à renovação, a começar de novo. Talvez nenhum outro povo tenha ousado tanto: refazer-se da própria aniquilação, arrancar-se das cinzas dos campos de extermínio directamente para fazer florir as areias do deserto.

Na experiência singular e paradoxal do povo judeu, a derrota não destrói: restitui. Devolve à consciência, ferida, mas lúcida, a certeza de que é na própria fragilidade que se inscreve a resistência, de que é no próprio luto que se inscreve a vida: a desconcertante sobrevivência judaica é esta insustentável leveza de perder.

Esta longa tradição judaica de auto-crítica permanente e de exigência ética quase febril prolonga-se até aos nossos dias, traduzindo-se numa disciplina moral praticamente única, senão mesmo única, entre as nações: para sobreviver, Israel não pode permitir-se nem capitular perante a barbárie, nem ceder à mediocridade. Quando não é tão bom como foi chamado a ser, é a própria morte que, numa manhã de Shabbat, lhe cobra o preço máximo, pago sempre com a vida mais sagrada que tem ao seu cuidado: a das suas crianças.

Da clamorosa derrota do 7 de Outubro está a nascer, diante dos nossos olhos, uma reconfiguração radical do Médio Oriente: a destruição do Hamas, não apenas como organização terrorista, mas como paradigma da impunidade; a espectacular decapitação do Hezbollah e a não menos impressionante humilhação estratégica imposta a Teerão, que viu desfeito o anel de fogo com que procurara estrangular Israel através dos seus proxies, do Iémen ao Líbano, de Gaza a Damasco; a derrocada imparável da Síria de Assad e a mensagem inequívoca a toda a região – friends and foes alike – de que nem sequer o multimilionário Qatar poderá continuar a oferecer, impunemente, refúgio seguro a terroristas.

A necessidade de os povos compreenderem as suas derrotas não é opcional: é condição de sobrevivência. O povo judeu combate hoje porque nunca deixou de compreender as suas. Nós, europeus e ocidentais, pelo contrário, dispomo-nos a capitular diante de um pacto faustiano entre terroristas e oportunistas, porque talvez já tenhamos deixado de compreender as nossas.

Mestres severos dos povos, as derrotas são imisericordiosas – tanto as militares, como as morais. Não aprendê-las é condenar-se, não a repeti-las, mas a não sobreviver a elas. Neste ponto terminal, as derrotas dispensam qualquer explicação. Neste ponto terminal, todo o epitáfio é redundância. Recusemos a derrota e a humilhação. É preciso compreender que isto é uma derrota. Não do povo judeu, mas, desta feita, nossa.

O 7 de Outubro e a pressa de absolver os assassinos

José António Rodrigues do Carmo

Coronel-Comando; colunista do Observador

Visitei, um ano depois, a região atacada a 7 de Outubro de 2023. Ouvi sobreviventes. Não vou transformar a sua dor em decoração literária. O que posso dizer é que, depois de ouvir uma pessoa contar como atravessou aquele dia, é difícil suportar a desenvoltura com que outros, a milhares de quilómetros, explicam o que ela devia ter sentido, pensado ou merecido.

Naquela manhã, milhares de jihadistas do Hamas e de outros grupos terroristas invadiram Israel, deliberadamente à procura de civis judeus. Entraram em aldeias, invadiram casas, dispararam sobre pessoas escondidas, incendiaram habitações, perseguiram jovens que fugiam do festival Nova e levaram reféns. Cerca de 1200 pessoas foram mortas, 251 foram sequestradas. Entre as vítimas havia crianças, idosos e estrangeiros. O ataque foi planeado, a matança foi orgiástica, houve violações e outras formas de violência sexual, os crimes de guerra foram filmados e orgulhosamente documentados.

Em Be’eri, 105 civis mortos e 31 sequestrados. Em Nir Oz, 46 mortos e 72 sequestrados. No festival Nova, 364 participantes mortos. Os números são necessários para medir a escala do crime, mas incapazes de descrever a sua dimensão íntima. Cada sequestrado era também uma família à espera de notícias. Cada morto deixou pessoas a quem uma manhã roubou o tempo para sempre.

Estes factos deveriam ter imposto, pelo menos durante algum tempo, uma pausa no teatro ideológico. O tempo de identificar os mortos, de procurar os desaparecidos, de ouvir os vivos. Mas os profissionais da indignação selectiva não têm tempo para essas minudências.

No próprio dia 7, pelo meio-dia, a Palestin Solidarity Campaign convocava para daí a dois dias uma manifestação pró-palestiniana em Londres, explicando o massacre com “ocupação” (em Gaza não havia um único judeu há quase 20 anos), “apartheid” e “colonização”.

Os Democratic Socialists of America, dos Mandani desta vida, publicaram uma declaração segundo a qual os acontecimentos eram o resultado directo das políticas de Israel. No dia 8, uma manifestação reunia milhares de indignados em Times Square, Nova Iorque, celebrando o massacre como o início de uma luta de libertação e a violência armada como consequência inevitável da opressão.

A velocidade impressiona. Ainda não se conhecia a dimensão da matança e a máquina dos cartazes já estava a funcionar, com dinheiro em abundância, redes militantes, capacidade de mobilização e um vocabulário partilhado. Mal souberam o que acontecera, a culpa já estava atribuída às vítimas.

O léxico repetiu-se de cidade em cidade, uma colecção de chavões como “resistência”, “ocupação” “apartheid”, “colonialismo”. As partituras “antissionistas” estavam impressas havia anos, a única novidade era distribuí-las a pretexto de uma manhã de matança de famílias judias dentro das suas casas. A designação “antissionista” oferece ainda a vantagem de permitir uma hostilidade sem limites, desde que se garanta, entre duas palavras de ordem que dizem o contrário, que nada daquilo tem a ver com judeus.

A inversão do ónus foi quase perfeita. Para o Hamas, contexto, causas profundas, circunstâncias atenuantes, mentiras gordas e um volumoso glossário académico. Para as vítimas uma insinuação: que teria Israel feito para que aquilo acontecesse? António Guterres declarou pantanosamente que aquilo “não aconteceu num vácuo”. A banalidade não era uma mera banalidade, mas a urgência de acrescentar uma nota explicativa à fotografia das vítimas. Os mortos ainda não tinham nome, mas já tinham contexto.

Quando Israel começou a exercer o seu direito de legítima defesa (artº 51º da Carta das Nações Unidas), como faria qualquer país nas mesmas circunstâncias, surgiu instantaneamente a parafernália jurídica, distribuída a granel.

“Genocídio” tornou-se, em certas catacumbas do ódio, a palavra tremenda que dispensa o trabalho de demonstrar uma intenção específica de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Para o activista flotilheiro do “fri fri Palestine”, genocídio é o nome que se dá à guerra quando Israel está na equação.. A acusação passou depressa da ignorância para o slogan, e deste para um certificado de superioridade moral.

“Proporcionalidade” sofreu destino semelhante. Para os licenciados instantâneos em Direito da Guerra significa que, mortos cerca de 1200 israelitas, Israel só poderia causar um número equivalente de baixas do outro lado. Atingida a paridade, apita-se para o cessar-fogo. O conceito jurídico é mais complexo: avalia-se se o dano civil previsível de um ataque concreto é excessivo perante a vantagem militar concreta e directa esperada, e que precauções são possíveis. Mas isto exige informação, prova e juízo. Bolçar um estribilho tremendo é mais fácil para exibir falsa virtude a ganhar “likes”.

“Crime de guerra” passou também a ser usado como interjeição. Convém recordar que a matança deliberada de civis, a tomada de reféns a 7 de Outubro, o uso de civis como escudo, são precisamente crimes de guerra e só isso deveria impedir, que a expressão surja apenas quando a frase contém “Israel” e desapareça quando contém “Hamas”. A justiça de geometria variável continua a ser geometria, mas de justiça tem pouco.

Por fim, “baby killer”. Em Novembro de 2023, manifestantes “antissionistas” utilizaram a expressão diante da casa de um israelita nos EUA. A partir daí espalhou-se como insulto e verbalização de ódio a quem seja identificado como “sionista”, “judeu” ou “israelita”, em qualquer parte do mundo. Já não se discute uma decisão militar, uma cadeia de comando ou um alvo. Aponta-se para uma pessoa e atribui-se-lhe o homicídio de bebés. É extraordinária a facilidade com que certos moralistas, após descobrirem a culpa colectiva, se convencem de que são boas pessoas.

Quem ouviu os sobreviventes sabe que esta linguagem procura exactamente apagar as vítimas, porque a memória delas obriga a resistir à grotesca tentativa de tornar os mortos responsáveis pelo crime de que foram vítimas.

Três anos depois, ainda há quem fale do 7 de Outubro como de um inconveniente no caminho de uma narrativa inquinada com o velho ódio milenar. Para mim, o primeiro dever moral continua a ser chamar massacre ao massacre, chamar reféns aos reféns, estabelecer claridade moral e não permitir que a má-fé, o ódio antissemita, e a ignorância transformem o assassino em vítima e a vítima em culpada. A verdade precisa apenas de que não desviemos os olhos.

A memória exige ação no combate ao antissemitismo

David Botelho

Presidente da Comunidade Israelita de Lisboa

O fatídico 7 de outubro de 2023 abriu uma ferida que ainda sangra e que não sei, sinceramente, se alguma vez cicatrizará no horizonte das nossas vidas. Passam hoje exatamente três anos sobre os hediondos ataques terroristas do Hamas e de outros grupos armados radicais contra Israel, seu povo e emigrantes. Ao recordarmos nas nossas orações e pensamentos todas as vítimas inocentes e as suas famílias, devemos também enfrentar de forma consistente, e não apenas neste dia, o ódio que passou a ameaçar, com renovada intensidade, as comunidades judaicas muito para além das fronteiras israelitas. Os judeus em Portugal, ainda que com bastante menos intensidade do que em outras geografias, incluindo europeias, sentem e experimentam todos os dias o aumento do antissemitismo.

O antissemitismo não é novo e não nasceu no 7 de outubro. Mas é seguro afirmar que encontrou na guerra e na polarização novos pretextos para velhos preconceitos. Está à vista de todos que a ampla indignação, internacional e doméstica, perante as atitudes e as decisões do governo de Israel tem sido demasiadas vezes transformada em hostilidade ou distanciamento contra pessoas identificadas pela sua religião, ascendência ou pertença comunitária. Essa passagem de culpas e de responsabilização é errada, é inaceitável, indecente e imoral. Contrariar esta triste realidade compete também aos poderes públicos, com especial ênfase ao Governo, que pode sem dúvida fazer mais no combate ao antissemitismo.

Num Estado de Direito democrático como o nosso, não pode haver lugar à existência de culpas coletivas ou de culpas por associação. Um judeu português não é responsável pelas decisões do Governo de Israel e, por conseguinte, não deve nem pode ser punido ou discriminado por isso. A sinagoga de Lisboa, ou qualquer outra em Portugal, não é uma extensão de um gabinete ministerial israelita, ainda assim os seus portões foram conspurcados com frases antissemitas no passado mês de maio. Valeu-nos a pronta intervenção da Câmara Municipal de Lisboa, que removeu o grafitti e confortou-nos a mensagem pública do Embaixador norte-americano assim como alguns projetos de voto, ainda que tímidos, apresentados no Parlamento uns dias depois, mas não nos valeu o ensurdecedor silêncio do Governo na condenação pública deste ato e o manifesto desinteresse em receber-nos, nem nos valeu, seguramente, a exasperante demora da Comissão de Liberdade Religiosa em tomar uma posição pública, o que aconteceu apenas em agosto (e talvez a contra-gosto). O monumento ao massacre dos judeus em lisboa que se situa na praça de São Domingos tem sido alvo de graffitis e desenhos com suásticas, o Centro Cultural Judaico na Rua da Judiaria também tem sido alvo de diversas ações antissemitas. É preciso que isto pare de vez. Nenhum cidadão tem de responder por atos alheios por partilhar uma identidade religiosa ou cultural, ter familiares em Israel ou manter uma ligação afetiva ao país. Por isso é que quando sucedem estes episódios, infelizmente crescentes, é necessário dar voz à indignação pública e à sua imediata e inequívoca condenação. Se os poderes públicos não o fazem, normaliza-se o que não pode ser normalizado, e a sociedade cava fossos indesejáveis que a deslaçam.

É importante que se diga sem rodeios que criticar publicamente as políticas israelitas e o seu governo e defender a criação de um Estado da Palestina e os direitos do seu povo são posições legítimas. Nenhuma dessas posições, contudo, autoriza a intimidação de judeus, a vandalização dos seus espaços comunitários e de culto ou a exigência de estes condenem publicamente Israel para serem aceites como cidadãos de pleno direito. Os direitos fundamentais não podem estar dependentes de uma declaração sanitária de distanciamento político.

Portugal não está imune ao flagelo antissemita. No relatório sobre o país publicado em 2025, a Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância assinalou o aumento do discurso de ódio antissemita após os ataques de 7 de outubro e a guerra em Gaza. O RASI de 2025 registou, por sua vez, um agravamento das ações ilícitas de carácter antissemita, incluindo contra a comunidade judaica em Portugal. São alertas factuais e institucionais que impedem a confortável negação deste problema com tendência para se agravar.

O estudo promovido este ano pela Comunidade Israelita de Lisboa e realizado pela Pitagórica, com 1.200 inquiridos, que é o do conhecimento do Governo, acrescenta um sinal relevante: embora 80% rejeitem responsabilizar os judeus fora de Israel pelas ações do Governo israelita, apenas 40% definem corretamente antissemitismo. O retrato é de ampla tolerância, mas também de desconhecimento e persistência de estereótipos. Uma sociedade tolerante não está, por isso, dispensada de prevenir o preconceito.

Este terceiro ano que passa sobre o trágico 7 de outubro deve levar os governos, incluindo o português, a tratar o combate ao antissemitismo como uma responsabilidade permanente. São necessários canais de denúncia acessíveis, registos que permitam conhecer a dimensão e a evolução do fenómeno, investigação eficaz das ameaças e proteção das instituições visadas. As estratégias públicas precisam de meios, responsáveis e avaliação. As condenações ocasionais e tardias simplesmente não chegam.

A educação é igualmente decisiva: ensinar o Holocausto, formar as forças de segurança e as autoridades judiciais, instruir sobre como reconhecer as teorias conspirativas, incluindo online, onde se espalham como fogo nos campos e dar a conhecer a vida e herança judaica para além da perseguição são ações indispensáveis e urgentes.

Três anos depois, honrar as vítimas de 7 de outubro exige que nenhum judeu seja obrigado a esconder quem é, ou a ter que provar que não é culpado dos atos de outros. A identidade de uma pessoa nunca pode ser uma acusação. Garantir esse princípio é um dever do Estado e uma prova da força e da vitalidade da nossa democracia. Peço, em nome da comunidade que lidero, que o Governo e o país que é o meu e cuja bandeira jurei e sob a qual prestei serviço se empenham e façam mais.

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