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Saturday, October 3, 2026

Por que eleição brasileira é teste para estratégia de Trump na América Latina

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    • Author, Alessandra Corrêa
    • Reporting from, De Washington para a BBC News Brasil
  • Published

  • Tempo de leitura: 8 min

A disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição e um quarto mandato, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ocorre em meio a uma guinada à direita em vários países latino-americanos.

Uma vitória de Bolsonaro representaria a consolidação desse movimento e da influência regional de Trump, com o triunfo da direita e de um aliado político do republicano no maior país da região.

"Seria a peça fundamental da chamada 'onda laranja' (em referência ao presidente americano) de líderes alinhados a Trump que vêm ganhando força e se espalhando pela América Latina", diz à BBC News Brasil o analista político Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly.

"O Brasil é o maior prêmio. É pessoalmente importante para Trump. Ele tem uma relação com a família Bolsonaro que remonta a muitos anos", afirma Winter.

Lula entre duas bandeiras, a dos Estados Unidos à esquerda e a do Brasil, à direita.

Crédito, REUTERS/Elizabeth Frantz

Legenda da foto, Vitória de Lula criaria "dor de cabeça no curto prazo" para Trump, segundo analistas.

O analista observa que, por outro lado, uma vitória de Lula solidificaria o legado do petista como figura histórica da esquerda em todo o Sul Global. Também criaria uma "dor de cabeça no curto prazo" para Trump, diante da relação marcada por "altos e baixos".

"Acho que a Casa Branca provavelmente reagiria com decepção caso Lula vença. E então buscaria algum tipo de entendimento pragmático com Lula", diz Winter.

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  • Imagem mostra urna eletrônica

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"O Brasil é um país muito importante. É um ótimo país. As pessoas do Brasil são fantásticas. É uma eleição muito importante", afirmou o presidente americano, sem mencionar nenhum dos candidatos.

As declarações foram feitas em meio ao receio do governo brasileiro de que Trump tente interferir na eleição brasileira.

Também na sexta, os Estados Unidos e a Austrália anunciaram o fechamento de suas embaixadas e consulados no Brasil. Sem detalhar os motivos, o governo americano disse que "tem como máxima prioridade a segurança e a proteção dos cidadãos americanos."

Donald Trump e sete presidentes latino-americanos posam para foto em grupo no Trump National Doral Golf Club, na Flórida.

Crédito, Roberto Schmidt/Getty Images

Legenda da foto, Trump com líderes aliados na Cúpula Escudo das Américas, em Doral, na Flórida, em março. Da esquerda para a direita: Luis Abinader (República Dominicana), Rodrigo Paz Pereira (Bolívia), Nayib Bukele (El Salvador), Javier Milei (Argentina), José Raúl Mulino (Panamá), Mohamed Irfaan Ali (Guiana) e Nasry Asfura (Honduras).

Doutrina 'Donroe'

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Fim da Promoção da eleição 2026

Desde o início de seu segundo mandato, em janeiro do ano passado, o presidente americano declarou abertamente apoio a diversos candidatos de direita ao redor do mundo e, especificamente, na América Latina.

Entre os exemplos recentes estão Abelardo De La Espriella, eleito em junho na Colômbia, e Nasry Asfura, vencedor no pleito do ano passado em Honduras.

As manifestações públicas de apoio por parte de Trump ocorreram em meio a uma onda recente de vitórias da direita na América Latina.

Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador e Peru também estão entre os países da região cujas eleições presidenciais recentes foram vencidas por candidatos conservadores.

Oscilações à direita ou à esquerda são consideradas comuns e ocorrem periodicamente na América Latina.

Entre os exemplos estão a chamada "Maré Rosa", como ficou conhecida a guinada à esquerda no início dos anos 2000, e as próprias vitórias de candidatos esquerdistas em vários países, entre eles o Brasil, no início da década atual.

Além disso, o movimento atual também é impulsionado pelo sentimento anti-incumbência.

"Acho que é uma questão menos ideológica e mais das pessoas insatisfeitas com os atuais mandatários", diz à BBC News Brasil o especialista em relações Brasil-EUA Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da universidade Berea College, no Estado americano do Kentucky.

No entanto, analistas ressaltam que a atual onda de vitórias da direita ocorre em um contexto de maior pressão dos Estados Unidos sobre a América Latina.

As medidas do governo Trump na região vão desde tarifas, como as impostas sobre produtos brasileiros, até a captura do presidente da Venezuela, o líder chavista Nicolás Maduro, em janeiro deste ano.

Poggio observa que a visão de política externa defendida por Trump e por seu secretário de Estado, Marco Rubio, é "uma visão de hegemonia nas Américas".

"Acho que Rubio é a principal pessoa (no governo Trump) que está tentando colocar a América Latina na agenda", complementa o cientista político Edgar Franco-Vivanco, especialista em política latino-americana e professor da Universidade de Michigan.

A interpretação do atual governo americano da Doutrina Monroe, de 1823, que defendia a predominância americana no continente, ficou conhecida como "Doutrina Donroe", em referência ao primeiro nome de Donald Trump. O atual governo defende "restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental".

Multidão de apoiadores de Flávio Bolsonaro segura um grande inflável com a figura de Donald Trump em comício em São Paulo.

Crédito, REUTERS/Alexandre Meneghini

Legenda da foto, Apoiadores de Flávio Bolsonaro seguram inflável de Donald Trump durante comício de 7 de Setembro em São Paulo.

Segurança

Uma questão central nesse cenário é a da segurança pública, que é prioridade tanto para os eleitores de vários países na América Latina quanto para a estratégia de Trump no continente.

Franco-Vivanco diz à BBC News Brasil que muitos eleitores latino-americanos estão decepcionados com as falhas de governos de esquerda em controlar a violência e agora querem tentar algo diferente. Isso abre uma vantagem para candidatos de direita.

"Pelo menos em eleições, a direita é muito boa em dizer que vai fazer algo sobre o problema", observa.

Entre os líderes de direita eleitos nos últimos anos com a promessa de combater a violência está Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que reduziu a criminalidade em seu país, mas é criticado por supostos abusos de direitos humanos.

Muitos dos políticos de direita na América Latina alinhados a Trump estão abertos a maior cooperação com os Estados Unidos na área de segurança, inclusive com operações militares conjuntas.

O governo americano vem promovendo uma nova "guerra às drogas" na região e criou recentemente o chamado Escudo das Américas, iniciativa com o objetivo de ampliar a cooperação, a segurança e o combate ao narcotráfico, da qual o Brasil não faz parte.

A expectativa é a de que, sob um eventual governo Bolsonaro, o Brasil passasse a integrar o grupo.

O governo Trump também designou cartéis e facções criminosas da região como grupos terroristas. Foram incluídos nessa lista os grupos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), apesar da oposição do governo Lula.

"Na agenda política americana, sempre que se falava em América Latina, entrava a questão de migração, segurança, drogas. Mas, ao mesmo tempo, nunca foi prioridade na política externa americana", destaca Poggio.

"O governo Trump parece que está colocando a América Latina como prioridade. Nesse sentido, as coisas podem tomar um novo rumo, porque você tem uma administração que está prometendo, e que já fez, operações militares no continente", observa.

"A questão de colocar cartéis como organizações terroristas, a justificativa disso é utilizar ferramentas militares", afirma Poggio.

Grupo de manifestantes nas ruas do Rio de Janeiro segura faixas e cartazes em protesto contra as tarifas americanas sobre produtos brasileiros. Em uma bandeira, está escrito "O Brasil é dos brasileiros".

Crédito, REUTERS/Pilar Olivares

Legenda da foto, Manifestantes protestam no Rio de Janeiro contra o anúncio de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros impostas pelo governo Trump, em 10 de julho de 2025.

Tarifas e sanções

Diferentemente de vários pleitos em outros países da região, Trump até o momento não declarou apoio abertamente a nenhum dos candidatos no Brasil.

"Com certeza, o governo Trump prefere que Bolsonaro vença esta eleição, porque é um aliado mais próximo e há maior afinidade política entre eles. No entanto, não houve (até agora) apoio direto", salienta Franco-Vivanco.

No entanto, mesmo sem apoio declarado, há receio de tentativa de interferência. No ano passado, os Estados Unidos adotaram medidas contra o Brasil descritas como uma resposta "à caças às bruxas" sofrida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Entre as medidas estavam tarifas contra produtos brasileiros e sanções contra autoridades do país, entre elas o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Recentemente, o jornal Estado de S. Paulo revelou que, nas negociações na época, uma das demandas do governo Trump era a de que o Brasil permitisse a participação de "dissidentes políticos" no pleito deste ano. O lado brasileiro rejeitou os termos, lembrando que não há dissidentes no país, que é uma democracia.

No fim do ano passado, houve alívio das tarifas e sanções. Mas neste ano os Estados Unidos voltaram a impor novas tarifas contra produtos brasileiros, e autoridades de ambos os países tiveram vistos negados ou revogados.

Depois de uma visita de Lula a Washington, seu adversário, Flávio Bolsonaro, também foi recebido por Trump na Casa Branca. O anúncio da classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, defendida por Bolsonaro, veio logo após essa visita.

Diante das ações do governo Trump desde o ano passado, a resposta de Lula foi a defesa da soberania, e pesquisas e analistas indicam que as medidas podem ter beneficiado o presidente brasileiro mais do que seu adversário.

"Qualquer declaração mais forte de Trump, o tiro pode sair pela culatra", resume Poggio, lembrando que, em diversos casos anteriores, o presidente americano declarou apoio a determinado candidato e acabou beneficiando o adversário.

Flávio Bolsonaro segura dois bonecos, um representando Donald Trump e outro Jair Bolsonaro, durante entrevista em Brasília.

Crédito, Reuters/Adriano Machado

Legenda da foto, Analistas avaliam que o governo americano prefere uma vitória do senador Flávio Bolsonaro na eleição brasileira.
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