Formando sofre racismo por foto de jaleco em PE: 'Favelado matando com CRM'

"Aqui quem fala é Dr. João Lucas Brito, mais um sobrevivente: sei muito bem de onde eu venho e valorizo diariamente os que vieram antes de mim pra tornar esse sonho possível. Não ando só, pois do povo eu nasci e médico com o povo eu serei!", dizia a legenda da publicação.

O mesmo perfil voltou a proferir ataques racistas contra João ao responder a críticas deixadas por outros usuários. "Logo mais esse favelado vai estar matando com um carimbo do CRM [Conselho Regional de Medicina, que fornece registro aos profissionais] na mão. Choro pela qualidade da minha classe", escreveu.
Os comentários ofensivos foram apagados por João, que antes fez capturas de tela e levou o caso à polícia na última sexta-feira (4), quando formalizou um boletim de ocorrência por injúria praticada no ambiente virtual. A Polícia Civil informou ao UOL que a investigação está a cargo da Delegacia do Cordeiro.
Quem é o jovem
Futuro primeiro médico da família, João é morador da comunidade do Cardoso, no bairro da Madalena, zona oeste do Recife. Ele cursa o 11º período de medicina na Faculdade Pernambucana de Saúde, onde estuda com bolsa integral por meio do Prouni (Programa Universidade para Todos). A conclusão do curso está prevista para o fim do ano.
O jovem conta à coluna que, apesar de ter vivido toda a vida em uma comunidade vulnerável, beneficiou-se por ter cursado o ensino médio em uma escola particular de elite próxima de sua casa.
"Eu tinha bolsa integral porque a única condição para isso era ser filho de funcionário, e meu pai é, até hoje, auxiliar de coordenação. Lá tive privilégios como ganhar livros de graça, praticar esportes sem pagar nada e contar com uma boa rede de apoio", relata.
Fã dos Racionais MC's, João explica por que escolheu o livro do grupo para o ensaio. "Esse livro reúne as letras das músicas que sei de cor. Ele sempre ficava na minha prateleira e sempre pensei que, quando fosse tirar a foto de formatura, iria levá-lo comigo por representar muito para mim."

Rotina de preconceito
João ingressou na faculdade em 2021 e relata ter sofrido preconceito por parte de "alguns colegas específicos". "Mas sempre fui amigo de muita gente", pontua.
"Sempre me senti muito acolhido por professores, funcionários e outros alunos. Tive sorte porque, na minha turma, 10 dos 96 alunos eram do Prouni. Um deles teve nota mil no Enem. O nível é alto", afirma.
Desta vez, contudo, o estudante decidiu não ignorar a agressão devido à gravidade do ataque. "Dessa vez não vou deixar passar porque sei que estou representando muita gente que sofreu calada", afirma.
Atualmente, o jovem cumpre o estágio obrigatório em clínica médica no Imip (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira) e planeja especializar-se em psiquiatria. "Quero a psiquiatria por ser a área que exige conhecer melhor quem é o paciente. Também quero atuar na minha comunidade, pois sei que há demandas de saúde que posso ajudar a melhorar", diz.
Durante a graduação, o estudante destacou-se pelo desempenho acadêmico: mesmo antes de concluir a faculdade, foi aprovado e cursa o segundo ano do doutorado em Saúde Integral no Imip.
João já teve, em junho, a tese qualificada (aprovada). O trabalho aborda "desigualdades étnico-raciais e territoriais na maternidade na adolescência no Brasil". Como etapa da pesquisa, ele vai realizar um intercâmbio no Canadá em 2027.
Não vou deixar passar o preconceito porque sei que estou representando muita gente que sofreu calado. Mas eu não quero ser o profissional que ficou famoso por causa de um caso de racismo. Acredito que tenho tanto conteúdo e tanto a dizer ao mundo que não seria justo.
Casos de racismo
O que diz a lei
O crime de racismo está previsto na Lei nº 7.716/1989. Ele ocorre quando há discriminação contra uma coletividade indeterminada de pessoas em razão de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. É considerado crime inafiançável e imprescritível.
A Lei nº 14.532, de 11 de janeiro de 2023, equiparou o crime de racismo ao de injúria racial, que consiste em ofender a honra de alguém com base em elementos relacionados à raça, cor, etnia, religião ou origem.
A nova lei também prevê que as penas podem ser aumentadas de um terço até a metade quando o crime ocorrer em contexto ou com intenção de descontração, diversão ou recreação.
Saiba como denunciar
- É possível registrar um boletim de ocorrência em qualquer delegacia, presencialmente ou pela internet;
- Há delegacias especializadas, como o Decradi, em São Paulo, e o Geacri, em Goiás;
- Em caso de flagrante, ligue 190. Também é possível denunciar pelo Disque 100 ou pelo Disque Denúncia da sua cidade.
Reportagem
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