História: voz da cidadania e base do cidadão ativo

Como pode uma disciplina sujeita a exame nacional contribuir, de forma efetiva, para o desenvolvimento das competências previstas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO)? A resposta encontra-se na forma como ensinamos e não apenas naquilo que ensinamos.
Mais do que transmitir conteúdos, a escola deve formar cidadãos autónomos, reflexivos, participativos e capazes de construir relações humanas sólidas, porque educar é formar pessoas e não apenas preparar alunos para exames.
A História na minha sala de aula é vivida, questionada e debatida. Neste artigo apresentarei três aspetos relevantes que trabalho em sala de aula: democracia, papel da mulher na História e imigração.
Como ensinar democracia?
Recentemente, adaptei para a sala de aula uma iniciativa da SIC realizada durante as comemorações do 25 de abril, que questionava os cidadãos sobre o último filme visto no cinema e se este teria sido censurado durante o Estado Novo. A História saiu da sala de aula e entrou nas casas dos alunos: várias gerações foram levadas a refletir sobre o significado de viver sem liberdade de expressão. Esta atividade consciencializou os alunos do valor da liberdade, tiveram de fundamentar as suas ideias com conhecimento histórico.
Mas formar cidadãos não passa apenas por compreender a democracia. Passa também por questionar as narrativas históricas que continuamos a transmitir.
Os manuais de História A do 10.º ano, no subtema a formação do Reino de Portugal, o rei D. Dinis tem um papel central e a rainha D. Isabel?
No período de fome de 1333 adquiriu trigo para alimentar a população de Coimbra e desenvolveu uma ação social de enorme relevância no Portugal medieval, apoiando órfãos e viúvas e promovendo instituições de assistência.
Continuando a dar voz às mulheres…
Como combater a abstenção eleitoral da atualidade?
O filme As Sufragistas mostrou que o sufrágio feminino resultou da luta corajosa de mulheres que enfrentaram a prisão, a violência, a humilhação pública e a discriminação para conquistar um direito fundamental. Há que consciencializar os jovens para o valor do voto na participação cívica. Combater a abstenção eleitoral passa também por fazer compreender que o mundo de hoje resulta da ação conjunta de homens e mulheres que desafiaram o seu tempo.
No mesmo sentido, procuro combater a indiferença perante a participação cívica e os preconceitos que encontram eco no debate público atual.
Assistimos todos os dias ao aumento de discursos xenófobos e populistas contra os imigrantes. Mas a História mostra aos alunos que os movimentos migratórios sempre existiram, motivados por razões económicas, políticas ou religiosas.
A emigração portuguesa durante o Estado Novo teve um papel importante na economia nacional, através das remessas enviadas pelos emigrantes para as suas famílias em Portugal. Há que explicar aos alunos que os descontos efetuados pelos trabalhadores estrangeiros na atualidade contribuem para a sustentabilidade da Segurança Social e para o pagamento das reformas de muitos dos seus avós. A História ajuda, assim, a desconstruir preconceitos.
As experiências de aprendizagem que aplico permitem-me afirmar que os jovens não estão afastados da realidade que os rodeia. Somos nós, enquanto sistema educativo, que os afastamos quando transformamos o conhecimento em acumulação de factos para memorizar.
Tal como a História se constrói com factos, também a eficácia da minha metodologia deve ser demonstrada através deles. Um exemplo é o do Dr. Mateus Araújo, meu aluno no ano letivo de 2019/2020, em plena pandemia, atualmente licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Durante o seu percurso universitário, assumiu m papel ativo, tendo sido rosto da luta estudantil da sua faculdade, tutor de Ciência Política, membro do Conselho de Escola da Faculdade de Direito, entre outras responsabilidades. Mais do que formar um aluno que conhecia História, acredito ter contribuído para formar um cidadão consciente, interventivo e comprometido com a democracia.
O problema não reside na falta de interesse dos jovens pela política ou pela cidadania, para mim, o grande problema é acreditar que a cidadania pode ser ensinada sem existir um contexto histórico, reduzir o espaço da História nos currículos significa enfraquecer a formação democrática das novas gerações.
Temos ou não o objetivo de formar cidadãos conscientes que tudo na vida é uma decisão política?
A democracia não sobrevive apenas com instituições, precisa de cidadãos informados, críticos e participativos. Por isso, se queremos um currículo verdadeiramente adequado ao século XXI, devemos ter a coragem de tornar obrigatórias, no 12.º ano, as disciplinas de Ciência Política e Literacia Financeira, reforçando simultaneamente o lugar da História na formação dos jovens.
Outro exemplo do impacto da minha metodologia de ensino é o percurso do universitário Afonso Ferreira, atualmente estudante da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Ao longo de seis anos integrou o Projeto Parlamento dos Jovens, desenvolvendo competências de argumentação, participação cívica e liderança. Em setembro de 2025, foi convidado pela entidade organizadora do projeto para dar uma entrevista à Rádio Renascença, onde testemunhou o impacto que esta experiência teve no seu percurso académico e na formação da sua consciência cívica.
Há uma ideia que procuro transmitir a todos os meus alunos e que muitos continuam a levar consigo: a minoria pode, por vezes, ter razão e, quando participa, argumenta e persiste, consegue mudar aquilo que parecia estar definitivamente estabelecido.
A democracia não é uma herança garantida: tem de ser aprendida, exercida e defendida. A escola continua a ser o lugar privilegiado para essa aprendizagem. Como afirmou Salgueiro Maia: «Não se preocupem com o lugar onde me sepultam. Preocupem-se, sim, em defender aquilo que ajudei a construir.» Talvez este seja também o maior desafio de um professor de História: fazer compreender à sociedade que a missão da Educação não se esgota na transmissão de conhecimentos, mas passa por formar jovens capazes de preservar, valorizar e fortalecer a democracia que herdaram.
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