Projeto cria fanfarra para idosos e reúne mais de 80 participantes em Arapongas
Quem disse que aprender a tocar um instrumento tem idade certa? Em Arapongas, idosos estão provando que nunca é tarde para começar algo novo. Desde agosto, a cidade conta com a primeira Fanfarra da Melhor Idade, um projeto que reúne música, aprendizado e convivência. Muito além das notas musicais e das batidas dos tambores, a iniciativa tornou-se um ponto de encontro, resgate de memórias e realização de sonhos para mais de 80 participantes.
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A ideia nasceu de forma despretensiosa durante uma conversa entre os educadores físicos Regilândia da Silva e Levi Aparecido Xavier com Aparecida Macedo Saraiva — a Cida, cozinheira do projeto SOS Guarda Mirim. Ao lembrar que os instrumentos e uniformes da antiga fanfarra da Guarda Mirim estavam guardados sem uso, o grupo decidiu mobilizar a comunidade. O projeto ganhou o apoio da gestão local e passou a integrar idosos que já frequentavam atividades físicas no município.
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Foto: Lis Kato/ TNOnline
"Nós unimos a turma da Regi com a minha turma do Ginásio de Esportes. E juntos lançamos a ideia com medo, mas na hora que lançamos a ideia, eu olhei para ela e foi aceita assim, na hora. E, graças a Deus, hoje já é uma realidade", celebra Levi Aparecido Xavier. Para Regilândia, os benefícios da iniciativa ultrapassam o aspecto esportivo: "Qualidade de vida acima de tudo. Porque quando eles vão para a atividade física, melhora o mental, melhora o físico, melhora o emocional. Então eles vão, conseguem ter amizade, conseguem ter um trabalho físico e isso daí só acrescenta na vida deles".
Cida, que cuida da alimentação dos jovens na Guarda Mirim e atua como a primeira Mor da Fanfarra da Melhor Idade, ajeita as tarefas da cozinha para não perder os ensaios semanais. "A gente deixa tudo ajeitado no almoço, tudo arrumadinho e adiantado, e corre para fazer o corre de sempre. Estar aqui duas vezes por semana só traz coisas boas para a mente, para o corpo e para a alma; mantém a gente muito ativo", relata.
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O desafio de reger o grupo ficou por conta do professor de música e maestro José Roberto de Araújo, o Beto. Experiente na área da educação musical, ele admite que reger a terceira idade tem sido um aprendizado diário. "Eu sou professor de música há muito tempo, mas nunca tinha trabalhado com essa Melhor Idade. Eu estou aprendendo muito também com eles. Eles dão muito ânimo para a gente, eles têm uma disposição muito grande e eu estou bem surpreso com eles, muito feliz", pontua Beto, que adapta os ritmos e posições de acordo com as necessidades de cada integrante.
A essência do projeto, no entanto, reside nos relatos de quem encontrou na fanfarra um novo sentido para a rotina. Para Aparecida Craveiro Viana, a Cidinha, de 78 anos, que atuou por quase três décadas como professora, entrar no grupo representou um reencontro com o passado e com uma antiga aluna — a própria idealizadora, Regilândia. "Eu resgatei as minhas memórias, as minhas lembranças de adolescência. Foi onde eu falei o meu sim. Trouxe uma vitalidade, uma alegria. Por incrível que pareça, a Regilândia foi minha aluninha quando era adolescente e eu era a professora. Os papéis se inverteram agora", conta Cidinha, responsável por tocar repique.
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A inclusão é uma das marcas registradas da fanfarra. O grupo acolhe participantes de diversas faixas etárias e condições de mobilidade. Aqueles que não conseguem marchar realizam os ensaios sentados e, nas apresentações externas, como o desfile do Sete de Setembro, contam com o suporte de um carro.
Esse é o caso de Dona Midori Yokoyama Yoshie, de 90 anos, e de Dona Gedalva da Silva, de 91 anos, que encontrou no projeto uma saída para a solidão. "Eu estava muito isolada da vida e achei uma criatura maravilhosa que me enxergou, que foi o Levi. Mulherada, sai da cozinha!", convoca Dona Gedalva com entusiasmo. "Temos pouco tempo, mas esse pouco tempo, sabendo viver, vale por muito tempo. Nós somos felizes fazendo o que a gente gosta."
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Foto: Lis Kato/ TNOnline
A realização de desejos antigos também motivou Maria José, de 65 anos, e Dona Maria de Lourdes Paula, de 71 anos, ambas tocadoras de surdão. "Era um sonho de infância meu e de todas as amigas do grupo. Surgiu essa oportunidade e a gente abraçou a causa. Idade é só um número", afirma Maria José. Dona Júlia Horvatich Santana, de 84 anos, que comanda o bumbo, reforça a alegria de ter o apoio da família: "Meus filhos aprovam, meus netos, bisnetos, tataranetos, trinetos... Nossa Senhora, graças a Deus".
Entre dezenas de mulheres, Seu José Alves Feitosa, de 81 anos, destaca-se como o único integrante masculino na instrumentalização. Ele, que costumava apenas assistir aos desfiles da cidade, celebrou a oportunidade de estar na avenida: "A vida toda eu assistia da avenida e nunca imaginei desfilar. Faz muito bem para mim e estou feliz. Fico feliz de ser o único homem entre as mulheres, mas gostaria que tivesse mais companheiros para nós, porque faz bem para a mente".
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Sem impor limitações e mantendo os portões abertos para novos participantes, a Fanfarra da Melhor Idade de Arapongas reafirma, a cada batida, que o envelhecimento ativo é acompanhado de ritmo, autonomia e novos laços de amizade.
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