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Saturday, October 3, 2026

O que é que estes miúdos andam a fazer?

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Três semanas depois do início do ano lectivo, centenas de horários continuam por preencher nas escolas portuguesas e o problema concentra-se, de forma muito particular, na região de Lisboa. Na Terça-feira, o ministro da Educação dizia que faltavam professores para 664 horários, 408 dos quais completos; três quartos destes últimos situavam-se na região de Lisboa. Mais grave: 238 diziam respeito a turmas do primeiro ciclo.

Podemos discutir as causas, e devemos. O envelhecimento da classe docente, os salários, o preço da habitação em Lisboa, a dificuldade em convencer um professor a mudar para uma cidade onde o ordenado não chega para pagar uma renda. O próprio ministro reconhece, além disso, uma ineficiência difícil de compreender: existem simultaneamente milhares de alunos sem aulas e pessoas qualificadas disponíveis para dar aulas, mas o sistema pode levar semanas a fazer uma coisa tão simples como pôr umas diante das outras. Aguardamos, agora, que a colocação contínua de professores resolva esse absurdo.

Ainda assim, enquanto discutimos os mecanismos, há uma pergunta que não pára de me vir à cabeça: se não estão na escola, o que é que estes miúdos andam a fazer? Uma criança de sete, oito ou nove anos não entra em estado de suspensão enquanto o Ministério resolve um concurso. Continua a acordar de manhã, continua a ter dez ou doze horas pela frente, continua a crescer. Algumas, poucas, terão pais com disponibilidade para reorganizar a vida, ou avós que as recebem, ou dinheiro para explicações. Outras, quase todas, não terão nada disso. E é justamente por essa razão que a escola é tão importante, por oferecer a todas as crianças, independentemente da sua origem, um lugar, um tempo e uma ordem.

O espaço que a ausência de escola abre na vida destes alunos não permanece vazio durante muito tempo. Alguém, ou alguma coisa, há-de ocupar aquelas horas e aquela curiosidade. Dizer que serão os pais, quando podem, ou os avós, os amigos, ou até a rua seria não só ingénuo, como irresponsável. Inevitavelmente, grande parte destes miúdos vão passar o dia a olhar para um telemóvel, enquanto perdem a infância para as redes sociais, ou para os jogos deliberadamente concebidos para as roubarem ao mundo. Há uma verdade que, enquanto pai, me tenho vindo a aperceber: a educação nunca deixa de acontecer. Por isso, quando aqueles a quem cabe educar se ausentam, outros começam a fazê-lo no seu lugar. A pergunta «o que é que estes miúdos andam a fazer?» conduz por isso a uma segunda, mais assustadora: quem é que os anda a ensinar, e a ensinar o quê?

É difícil não pensar nisto perante a quantidade prodigiosa de atenção que nos últimos dias se tem dedicado ao caso Cristiano Ronaldo-Jorge Jesus. O assunto até já saltou das televisões e das redes sociais e chegou ontem às ruas de Lisboa sob a forma de uns cartazes inenarráveis. Garanto-vos que se dedicássemos à situação das crianças sem aulas um centésimo da indignação e capacidade de mobilização que dedicámos a saber quem disse o quê a Cristiano Ronaldo, talvez chegássemos a algumas respostas úteis.

Apesar da colocação dos professores pertencer ao Estado, Lisboa não se pode demitir de procurar uma solução, quando sabe que uma das maiores dificuldades está nos custos da habitação. Também por isso é de saudar o que os governos da cidade e da nação, com a visão do CDS-PP e do PSD, tenha, nesta semana, oficializado a transferência do antigo edifício da Presidência do Conselho de Ministros, em Campo de Ourique. A reconversão dará lugar a 90 fogos de habitação acessível destinados prioritariamente a profissionais das áreas da segurança, saúde e educação. Mas, para ser um passo relevante, não basta ter sido dado, é preciso ser o primeiro.

Oeiras e Cascais, por exemplo, responderam a essa dificuldade através de soluções de alojamento para professores deslocados. Há centenas de crianças em Lisboa privadas da escola, a nossa primeira obrigação enquanto adultos é perceber o que se pode fazer para que regressem. E, enquanto não regressam, convém pelo menos não desviar os olhos da pergunta que inquieta: onde estão estes miúdos, com quem estão e o que é que andam a aprender?

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