Mestre Arnaldo Malho, “o poeta do Ferro” viseense

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Olá e seja muito bem-vindo. Já sabe, esta é a História das Histórias. Estava à espera? Não tem de esperar mais, já chegámos. Eu sou o João Paulo Sacadura. Em Viseu está o Jorge Adolfo Marques, historiador e professor, mestre em Arqueologia, que continua nesta semana a falar de algumas personalidades que vale a pena conhecer e aprofundar aqui na região Centro, concretamente em Viseu. Hoje falamos do mestre Arnaldo Malho. Já tenho uma ideia de quem era este mestre, ferreiro, se não me engano, mas vamos saber mais sobre a vida desta outra personalidade que nos trazes hoje. Olá, Jorge. Bem-vindo.
Olá. João Paulo, vou confessar aqui uma coisa curiosa. Há uns dois anos, estava eu no Alentejo, numa povoação muito conhecida porque produz uns tapetes famosos, Arraiolos. Vou por uma rua daquelas do centro histórico daquela bela povoação e reparo numa casa tipicamente alentejana, que estava fechada. Os pegadores da porta foram feitos pelo mestre Arnaldo Malho.
Que engraçado. Como é que sabias?
Foi numa casa. Eles eram muito bonitos e eu tenho o hábito de às vezes tirar umas fotografias a esses pormenores.
Por acaso também reparo. Gosto muito.
E aqueles puxadores.
Eram batentes?
Eram puxadores e batentes de uma porta tipicamente alentejana.
Conhecias o desenho?
Não. Foi uma surpresa para mim, longe de casa, em pleno Alentejo, encontrar uma obra de Arnaldo Malho. Isto quer dizer alguma coisa. Quer dizer que o trabalho que ele fez-
Um artesão extraordinário
...vendia-se para longe. Temos de ter em consideração a época. Arnaldo Malho nasceu em Viseu, na Rua do Arco, uma daquelas ruas que saía do centro histórico da cidade e já no exterior da chamada Porta do Arco. Nasceu em 1880. Era filho de João dos Santos e de Maria Rita. Ele andou na Escola de São Miguel, uma escolinha que ainda existe hoje, escola do primeiro ciclo que existe aqui na cidade. Fez os seus primeiros exames e o pai não tinha muito dinheiro para que ele continuasse os estudos. Então iniciou numa profissão para ele fazer a vida dele, como ferreiro na Casa Viúva Lobão. Depois de ser aprendiz do ofício de serralheiro, passou para outras oficinas na cidade. Foi fazendo o seu caminho, nomeadamente com António Marques Merino, Abílio Rodrigues Loureiro, André de Figueiredo e João Rodrigues de Figueiredo, figuras ligadas a essa arte. Em 1898, e ontem falámos aqui nesse ano porque foi o ano em que foi criado o jornal" A Voz da Oficina".
Exatamente.
Foi criada a Escola de Desenho Industrial de Viseu. Ele foi admitido em 1900, fez alguma escolaridade, terminou o curso em 1904. E foi aluno também de uma figura que nós já aqui falámos, que é o pintor e escultor Almeida e Silva, o grande pintor e escultor Almeida e Silva, e também de José Augusto Pereira. Um homem que tem uma boa escola.
Uma boa formação. Grandes mestres ensinaram este mestre.
Exatamente.
O poeta do ferro.
Exatamente, o poeta do ferro, como lhe chamou Aquilino Ribeiro.
Exato, extraordinário.
Era grande amigo dele e há uma grande correspondência.
É verdade, acho que mandava-lhe livros e ele depois comentava.
Claro.
É muito curioso.
Um era mestre do ferro, o outro era mestre da língua.
Da língua, exato.
Ele casou em 1911 com Evangelina Loureiro, teve uma filha. Depois há de ter uma filha mais tarde de uma outra relação, Alice Costa Santos Malho, que nasceu em 34. A primeira filha nasceu pouco depois do casamento dele. Em 1919, ele tornou-se mestre e foi contratado pela Escola de Carpintaria e Serralharia e Trabalhos Femininos de Emídio Navarro, tomando posse como efetivo em 1924. Estamos ali quase no final da Primeira República. Depois de muitas fusões, a escola e o ensino também, na altura, sofreu aqui grandes alterações. Ele é mestre de serralharia artística. Isto é curioso. Revela o tipo de pessoa de quem estamos a falar. Ele era um defensor acérrimo do ensino técnico. Ele também é um republicano convicto.
Sim.
Ele discordou profundamente das alterações que o Estado Novo veio fazer no ensino. E aposentou-se em 1950, tem um percurso sempre ligado ao ensino, também. Mas ele foi um homem que, como já disse, teve uma relação muito grande com Aquilino Ribeiro. Depois de se aposentar, isto é curioso Ele vai ter uma oficina nas próprias instalações da escola, onde trabalhou até morrer, até o fim da sua vida. Ele era um poeta do ferro. E nós encontramos na cidade de Viseu, agora já nem tanto, mas havia no espaço público, por exemplo, os candeeiros de iluminação pública de uma determinada zona da cidade, em torno da Sé, eram obras do mestre Arnaldo Malho. Mas além disso, ele tem obras no Museu de Grão Vasco e em coleções particulares: o cofre relicário, o braseiro e o gato de lareira, mesas de coleção, a porta da antiga pastelaria Horta. A pastelaria Horta, convém aqui dizer, fica bem no centro da cidade, na rua chamada Rua Formosa, e era uma pastelaria muito frequentada. Por quem? Pelo Aquilino Ribeiro.
Pronto.
Aliás, em frente, na rua, em frente a essa pastelaria, que agora tem outro nome, encontra-se um monumento com Aquilino Ribeiro sentado à mesa a escrever.
Tá certo.
Portanto, há esta relação. E a porta, que é belíssima, foi feita pelo mestre Arnaldo Malho. É uma figura que tem esta característica. Ele construía as suas obras, umas mais comerciais. Olha como os batentes que estão lá.
Exatamente.
Na porta.
Em Évora?
Em Évora, não, em Arraiolos.
Sim, Arraiolos. Onde tu encontraste.
E para além desse aspecto mais comercial, ele fazia obras que eram verdadeiras obras de arte.
Exatamente.
Usava muitos temas vegetalistas para embelezar candeeiros e outras obras. Bom, a verdade é que, em 1960, o nosso mestre Arnaldo Malho deixou-nos. Foi sepultado no cemitério vestido com o fato de ganga azul.
Que usava na oficina toda a vida.
Que usava como serralheiro e como artista, como o poeta do ferro. Como o Aquilino lhe chamou. É uma figura incontornável.
Um grande artista.
Da arte popular e da arte do ferro em Viseu, com obra espalhada também pelo país, e que vive até aos anos 60. É um homem de ideias muito convictas e de defesa muito intransigente. Era um homem que muitas vezes ouvi dizer que era do reviralho. Por quê? Porque era um republicano da Primeira República e que não lhe agradou o que aconteceu depois.
Foi uma confusão.
Exatamente.
Muito bem, que grande homenagem ao mestre Arnaldo Malho, grande amigo de Aquilino, que lhe enviava livros e esperava pelos comentários dele. Tem uma correspondência muito curiosa entre os dois. Ficamos a saber um pouquinho da história dele e a prestar homenagem a um grande artista, que quando morreu eu já cá estava. Não é assim tão antigo como isso. Muito bem, Jorge, estamos então conversados por hoje.
Um grande abraço.
Ficamos de encontro amanhã para mais personalidades. Vamos saber mais. Um grande abraço. Até amanhã.
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